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Funeral, um dia calha a todos, mas não assim

O anúncio da Fidelidade procura simplificar todo o processo, mas como se simplifica a perda de alguém que nos foi, nos é e nos será importante até ao fim dos nossos dias?

O novo anúncio da Fidelidade, que promove um plano funeral (seja lá o que isso for), tem tanto de bem conseguido como de mau gosto. Se do ponto de vista do "marketing" está brilhante, pois é um anúncio a quem ninguém é capaz de ficar indiferente, do ponto de vista do “a sério que estão a perguntar às pessoas como pensam que será o funeral dos pais” é de uma total falta de bom senso, pois há coisas com as quais não se brinca. E uma delas são os meus pais.

Independentemente dos pais que nos calharam na rifa, das suas más escolhas ou palavras mais duras, os nossos pais são as raízes: fortes ou frágeis, foram o início do “work in progress” que somos. Antes de mais, pai e mãe é quem cria e não quem faz. Podem ser os avós, os irmãos, a ama que nos recebeu ainda mal abríamos os olhos ou a vizinha que deu o amor que em casa não havia. Acredito que ser pai e mãe é muito mais que um ADN partilhado, mas antes quem podia para sempre ser livre mas de bom grado se prendeu. Como dizia o poeta, “é querer estar preso por vontade”. E haja vontade! O tal seguro, aparentemente, procura simplificar todo o processo, mas como se simplifica a perda de alguém que nos foi, nos é e nos será importante até ao fim dos nossos dias?

Por tudo isto, fazerem-me pensar que um dia vou deixar de poder perguntar ao meu pai se me pode ir levar ao aeroporto, ou que vou deixar de ter o feitio sindicalista da minha mãe, foi o suficiente para o anúncio perder a graça. É que eu não lido bem com as perdas, muito menos as físicas: perder os meus pais? Não deixo, venha quem vier, por mais aliciante que for a proposta de funeral. Não há preparação possível para a vida de adulto, que começa no dia em que perdemos a nossa mãe.

Por tudo isto, senhores criativos da Fidelidade, ainda que a ideia seja boa e o plano “funeral por encomenda” até possa dar jeito, não deixa de ser uma no cravo e outra na ferradura. Neste caso, no frágil tornozelo de quem aqui vos escreve.