Opinião

Carta aberta a Carlos Fiolhais

Caro colega,

O texto assinado por si que saiu no PÚBLICO de 5 de Novembro com o título de “Ciência diluída” deixou-me profundamente zangado: o seu ataque à homeopatia não tem pés nem cabeça, é insultuoso, mentiroso, e demonstra uma ignorância inacreditável porque a homeopatia começa a ser levada a sério pela medicina convencional em todo o mundo e há protocolos homeopáticos em uso e experimentação pelos mais rígidos e incrédulos cientistas das mais perfiladas instituições académicas e hospitalares.

Houve um dia em que acordei de manhã com um alto no pescoço. Verifiquei com o meu dentista: não tinha nada que ver com dentes. Depois fui ao meu otorrino: “O senhor tem uma massa na faringe”. Fui fazer um TAC: era um cancro de grau IV – ou seja, letal. Metástases na cadeia linfática, etc. Consultei vários oncologistas aqui e ali e até acolá (no estrangeiro): três a quatro meses de vida. As armas deles, nucleares (rádio), químicas e convencionais (cirurgia), não se aplicam no meu caso, disseram-me com grande honestidade. Só serviriam para atrasar o progresso do cancro... e para me deixar sem maxilar, com um cateter metido na garganta para poder comer e respirar, além dos habituais vómitos, enjoos, queda de cabelo, etc.

Isto foi no final de Maio de 2012. Há dois anos e meio. Neste intervalo de tempo, escrevi e publiquei dois romances, organizei e também publiquei uma colectânea de crónicas, tenho aqui no computador mais dois romances acabados e um pequeno livro de contos. Passeei, fui à praia, brinquei com os meus netos e os meus cães, fiz companhia à minha mulher, estive com amigos, escrevi sobre arte para o PÚBLICO. Não me caiu cabelo, não tive vómitos. Em poucas palavras: tenho dois anos e meio de qualidade de vida por cima da sentença de morte ditada pelos oncologistas da medicina oficial.

Já toda a gente que estiver a ler esta carta terá adivinhado o que vou escrever a seguir: sim, tenho sido acompanhado pela medicina homeopática, os seus tratamentos, os suplementos alimentares que prescreve e uma revisão radical da minha alimentação. Ninguém me prometeu milagre nenhum.

Estou vivo e activo há dois anos e meio, leu bem Doutor Fiolhais. O conselho que lhe dou é que esteja calado acerca daquilo de que não sabe nada.

Com os melhores cumprimentos

Paulo Varela Gomes

Professor reformado da Universidade de Coimbra