Cair outra vez, cair melhor

O chão atrai irremediavelmente os sete corpos que Victor Hugo Pontes empurra para o palco em Fall – e que amanhã cairão com estrondo no Grande Auditório do Rivoli. Não é só a lei da gravidade, também é a lei da vida.

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Victor Hugo Pontes escolheu a dedo os sete bailarinos que dão corpo a esta peça "extremamente física" REGINA COELHO
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Nos últimos tempos, é isso que os sete bailarinos que Victor Hugo Pontes chamou para o espectáculo que amanhã se estreia no Grande Auditório do Rivoli, no Porto, têm andado a fazer. Cair. Cair por terra, cair na realidade, cair em desgraça, cair de amores, cair em tentação, cair do céu, cair no erro, cair em desuso, cair de quatro, cair em si. E depois cair outra vez. Melhor, ou então pior, por ser esta a lei da gravidade, e portanto da vida, ainda que Fall seja só ficção – a ficção bastante física a que a queda por uma palavra cheia de duplos sentidos, todos vertiginosos, levou um coreógrafo e os seus sete bailarinos.

É isso que os vemos fazer desde que as luzes se acendem em cima deles até que finalmente voltam a apagar-se: um por um, sete corpos vão caindo com estrondo no chão, e lutando para se livrar dele com todas as armas disponíveis, incluindo ganhar lanço, fazer o pino, saltar para o abismo, morrer e esperar ascender aos céus logo a seguir (mesmo quando é uma luta definitivamente perdida, os 14 olhos de Fall nunca desistem de olhar para cima). Há muita física nisto, mas também há muita metafísica: “Cair é sempre um movimento descendente: quando caímos, alguma coisa fica acima de nós e torna-se inevitável esse gesto de tentar perceber o que é. Acho que esse olhar de baixo para cima é o corpo ou a cabeça a perguntarem ‘ como é que eu saio daqui – deste estado, deste lugar?’. Um bocado como estar dentro de água e querer vir à tona para voltar a respirar”, explica Victor Hugo Pontes no final de um ensaio.

Não que haja muito a explicar: Fall é “um objecto estranho, mais próximo da poesia do que da narrativa”, gerado a partir da espiral descendente que a própria palavra parece inexoravelmente induzir. Como muitas das peças anteriores do coreógrafo – sobretudo Fuga sem Fim (2011) e ZOO (2013) –, começou com uma ideia de movimento, no caso um movimento “bastante clássico”: “A queda faz parte da gramática elementar da dança… Mas quando comecei a trabalhar com os bailarinos pedi-lhes que fossem além disso e que explorassem o que está antes e depois da queda: caímos porque nos empurram, porque escorregamos, porque tropeçamos, porque nos tiram o tapete. Acima de tudo, pedi-lhes que imaginassem a queda como um sítio onde não temos absolutamente nada a que nos agarrar, onde está tudo a desmoronar-se.”

É a parte mais fácil de Fall: cair, literalmente. Depois há a parte difícil: “A queda física é muito visível, é essa força que impele o objecto para o solo. A outra queda – moral, emocional, espiritual – não se vê tão bem. Tive de descobrir como é que se mostra essa falência. Sendo que ao mesmo tempo a palavra, no original inglês, também significa Outono, e portanto a fase em que o corpo morre para poder depois renascer, o que contraria essa ideia de decadência – à medida que ia avançando, ia-me cruzando com significados que inicialmente nem sequer me tinham ocorrido.” Como o cair de cair de amores, “que também é um tropeção” – parece lindo visto de fora, mas é outra coisa quando se está lá dentro e a violência do embate deixa amolgadelas em cada centímetro do corpo (a propósito, Victor Hugo Pontes faz um aparte: “É curioso porque as pessoas quando se apaixonam supostamente ficam contentes, mas não vejo alegria nenhuma nesta peça”).

Como na história do homem que cai de um prédio de 50 andares e à medida que se aproxima do chão vai repetindo “até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui tudo bem”, há alturas em que o problema não é propriamente a queda – é mesmo a aterragem.

 

Seguindo o instinto

Até aterrarem definitivamente, porém, os sete bailarinos de Fall (Ángela Díaz Quintela, Anaísa Lopes, António Torres, Daniela Cruz, Diogo Almeida, Marco da Silva Ferreira e Valter Fernandes, escolhidos a dedo para darem o corpo por uma peça que seria “extremamente física” ou não seria) cairão muitas vezes com estrondo. “O corpo pede-nos muitas vezes para voltarmos aos mesmos sítios, ainda que já tenhamos o conhecimento adquirido de que magoa, de que não é bom – o corpo e a cabeça, aliás. Acontece no amor, acontece até na morte”, diz Victor Hugo Pontes. Ele próprio andou por lá há pouco tempo: “Todas as peças acabam inevitavelmente por falar sobre nós, ainda que não se fechem em nós. Comecei a pensar em fazer o Fall numa altura em que me sentia em perda e precisava de falar disso. Acho que trabalho muito de uma forma quase impulsiva – vou seguindo um instinto.”

Antes deste instinto, houve outros: o instinto da fuga, em Fuga sem Fim, ou o instinto animal, mais primitivo, em ZOO. “Ao contrário do que acontecia no Fuga sem Fim, em que o movimento era voluntário, aqui é como se os bailarinos fossem atirados para este lugar que não escolheram – há alturas em Fall em que são eles que procuram a queda, mas são alturas em que já não há nada a perder. É uma espécie de suicídio, quando se atiram para o vazio que há atrás da rampa, e que para mim é um precipício. Um precipício a que eles chegam e de que regressam sempre debilitados”, explica o coreógrafo. ZOO, por sua vez, foi uma etapa ainda mais determinante para que, chegado a 2014, o trabalho de Victor Hugo Pontes pudesse aterrar (não necessariamente em segurança, mas é esse o espírito) em Fall: “Esta peça trabalha obsessivamente com o corpo todo e isso vem muito da pesquisa de movimento que houve no ZOO e que gerou este tipo de fisicalidade. Há movimentos que vão ficando de peça para peça, embora adquiram outro sentido. Aqui sinto que estou a trabalhar com um corpo muito completo, muito centrado – é o centro que nos estrutura e nos mantém de pé, mas também é o centro que nos faz descer.”

Nos próximos meses, os bailarinos de Fall continuarão a cair. Pelo menos mais três palcos – depois da estreia no Porto, o espectáculo terá apresentações a 21 de Março de 2015 no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, em data a anunciar no Theatro Circo, em Braga, e a 29 de Abril no Teatro Maria Matos, em Lisboa – estarão lá para os apanhar.  

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