Entrevista

“Cristiano Ronaldo rendeu apenas 8,2 milhões de euros ao Sporting”

Carlos Severino, antigo director de comunicação dos “leões”, denuncia alguns dos conflitos internos e negócios “ruinosos” que testemunhou ao longo dos oito anos em que esteve em funções. Luís Duque, actual presidente da Liga de clubes, é acusado de “gestão danosa”.

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Carlos Severino Enric Vives-Rubio

Antigo responsável pela comunicação do Sporting, entre 1998 e 2006, e ex-candidato à presidência do emblema de Alvalade, nas eleições de 2013, Carlos Severino, de 61 anos, lançou na última semana o livro Acesso Ilimitado, onde relata alguns dos episódios de bastidores que conduziram o clube a uma profunda crise financeira e desportiva.

Uma das ideias que se fica ao ler o seu livro é que o Sporting foi durante muitos anos dirigido por uma espécie de casta aristocrática envolvida em infindáveis conflitos palacianos. Era assim?
Sim, desde a chegada de José Roquette à direcção. Este dirigente saiu em 2000, mas deixou uma linha sucessória no clube que foi continuou até ao final da presidência de Godinho Lopes [2013]. Era a chamada “continuidade”. E as guerras internas foram muitas durante este período. Durante os oito anos em que estive no Sporting como director de comunicação, os conflitos foram permanentes. O clube e a SAD [Sociedade Anónima Desportiva que gere o futebol] pareciam entidades diferentes. Vou contar uma história que ilustra isto mesmo e que nem vem referida no livro: quando o Sporting ganhou a Taça de Portugal, frente ao Leixões [1-0], na temporada 2001-02, os responsáveis pelo futebol festejaram o título no palanque de honra do Estádio Nacional e não chamaram o presidente Dias da Cunha que estava a assistir nas bancadas. Era este o ambiente que se vivia e que começou com a chegada de Luís Duque para dirigir o futebol [1999].

Luís Duque [actual presidente da Liga de clubes] é alvo de muitas críticas, durante o tempo em que liderou o futebol de Alvalade. Considera que houve gestão danosa deste dirigente?
Sem dúvida que sim. O Sporting venceu o campeonato na temporada 1999-00 com a ajuda do empresário José Veiga e Luís Duque, na altura presidente da SAD, sentiu-se na obrigação de pagar esse favor. Começaram aí os actos de gestão danosa. Ele destruiu praticamente a equipa campeã, contratando uma série de jogadores representados por Veiga. Muitos deles chegaram a “custo zero”, como Duque afirmava na altura, mas, na realidade, custaram fortunas face aos chorudos prémios por assinatura e aos ordenados elevadíssimos que usufruíam. Um dos maiores exemplos foi João Vieira Pinto, que custou ao Sporting cerca de 10 milhões de euros. O Sporting tornou-se refém deste empresário e dos seus negócios. Para se ter uma ideia desta política despesista, na época de 2000-01 registou-se um prejuízo de 23 milhões de euros, mesmo com a SAD a gerar mais-valias com transferências na ordem dos 21 milhões de euros. Foram muitos negócios ruinosos, nomeadamente a tentativa falhada da contratação de José Mourinho para treinador, que obrigou o Sporting a pagar os seus ordenados até o técnico encontrar um novo clube.

Revela que Dias da Cunha (presidente entre 2000 e 2005) acusou Luís Duque de quase ter levado o Sporting à falência…
É verdade. A política despesista da SAD sob a liderança de Luís Duque teve efeitos dramáticos para o Sporting que ainda se fazem sentir. Por isso, fiquei altamente surpreendido quando o Luís Duque regressou à direcção do futebol do clube pela mão do presidente Godinho Lopes.

Não o surpreenderam, portanto, os processos judiciais que o Sporting instaurou a Luís Duque [acusado de não defender os interesses do Sporting enquanto administrador da SAD, nas renovações dos contratos dos jogadores Marat Izmailov e Jeffrén e na contratação de Alberto Rodríguez]?
Concordo com a auditoria de gestão que o Sporting está a fazer para apurar o que se passou na SAD nos últimos anos. A gestão danosa nos clubes tem de ser condenada de alguma forma, os administradores das SADs têm de responder pelos seus actos. É evidente que esta decisão da actual direcção de Bruno de Carvalho vai gerar conflitos entre sportinguistas, mas era necessário fazer isto e é um bom precedente. Até agora tem havido uma sensação de impunidade.

O livro revela que os “negócios ruinosos” não foram um exclusivo de Luís Duque, mas transversais a quase todos os dirigentes que geriram o futebol do clube…
As contratações milionárias e as vendas em saldo foram uma constante. Que me recorde, os únicos negócios que terão gerado algum lucro relevante à SAD foram as transferências de Cristiano Ronaldo, Nani, Hugo Viana e Aldo Duscher. De resto, a esmagadora maioria dos jogadores que foram contratados pelos vários gestores do futebol não geraram praticamente retorno.

Revela que nem a transferência de Ronaldo para o Manchester United foi particularmente proveitosa. Quer explicar?
O Sporting recebeu apenas 8,25 milhões de euros pela venda ao Manchester United daquele que é actualmente o melhor jogador do mundo. Foi um fraco negócio. O Manchester United avançou com 17,5 milhões de euros para contratar Ronaldo, mas 2,5 milhões serviram para pagar comissões e 5,25 milhões foram para um fundo, o First Portuguese Football Players, ligado ao BES, que detinha 35% do passe do jogador. Por esta percentagem, o Sporting recebeu 627 mil euros, depois do passe de Ronaldo ter sido avaliado em 1,8 milhões de euros, quando tinha 16 anos. O fundo multiplicou o investimento inicial por oito. Espantoso! Na altura, os responsáveis da SAD eram António Ribeiro Telles (presidente) e José Eduardo Bettencourt [administrador-executivo]. Foi uma precipitação completa transferir um jogador com aquele valor por uma verba destas. O grande beneficiado com este negócio foi o fundo do BES.

São referidos no livro vários episódios de bastidores que envolveram jogadores, nomeadamente um ocorrido na final da Taça UEFA, no Estádio de Alvalade [entre o Sporting e os russos do CSKA, que os “leões” perderam por 3-1]. Pode resumir?
Passou-se durante o intervalo da partida, quando o Sporting ganhava por 1-0, e foi-me relatado por um dos elementos da equipa técnica que assistiu a tudo. Pedro Barbosa, capitão da equipa, na altura, tentou convencer os companheiros a rejeitarem o prémio de 15 mil euros, que cada um iria receber caso a equipa ganhasse, por o considerar muito baixo. A sugestão caiu mal a alguns colegas que estavam a par do contrato de Barbosa com o clube para a temporada de 2004-05. No seu último ano no clube, acordou receber um ordenado mensal de 40 mil euros, a que se somavam mais 10 mil euros sempre que jogasse. Acabou por fazer 30 jogos e recebeu cerca de 900 mil euros nesse ano. Não sei se essa conversa ao intervalo acabou por ter influência na derrota, mas não terá contribuído muito para motivar a equipa.

Bruno de Carvalho não é praticamente referenciado no livro. Que opinião tem do actual presidente?
Rompeu com a linha de “continuidade” que controlou o Sporting durante tantos anos. Estou convencido que a minha candidatura às eleições do ano passado também contribuiu para o seu triunfo. Ajudei a desmontar o candidato José Couceiro, demonstrado que ele era outro rosto de uma linhagem de continuidade iniciada por José Roquette. De outra forma, não tenho a certeza que Bruno de Carvalho conseguisse vencer.

O que mudou com a sua chegada à direcção?
Bruno de Carvalho procurou dar um cunho mais pessoal à presidência, muito ao estilo do que Pinto da Costa fez quando chegou ao FC Porto. Mas ainda não tem a capacidade de influência do presidente portista no futebol português. Está numa fase de ascensão, mas só poderá manter a sua actual forma de estar se a equipa continuar a ganhar. O seu estado de graça junto dos adeptos pode acabar repentinamente se as coisas correrem mal no futebol. Para já, ele personifica o adepto, que até já pertenceu à claque Juventude Leonina e que chegou ao topo da estrutura do Sporting.