Shannon Stapleton/Reuters
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Megafone

Coração: as temíveis garras do compromisso

Existe, ainda assim, gente em pânico por uma mão dada em público ou um anel num dedo

“O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Belíssima frase de Blaise Pascal, recentemente trazida de volta à celebridade por um treinador de futebol. Mal sabemos todos o quão verdade isto é.

Tenho observado com interesse e afinco a novela das paixões e dos arrufos de um grande amigo e da sua pretendente, contemplo os avanços e as arrecuas e as ofensivas e as defensivas daquele pré-namoro que nunca se sabe se o há-de ser. Acho bonito aquele bailado de puxões e repelões, aquele nascimento de novos episódios carregados de lamechices e outros ditos melosos. Acabo inevitavelmente por transpô-lo a papel químico para os meus dias, dando conta que há paralelismos que podem ser traçados e que, mesmo quando não queremos deixar, os ardores do peito mandam mais que os gritos da cabeça.

Há não muito tempo, escrevi uma crónica que dava um chega-para-lá nas pressões habituais de quem não nos quer ver sozinhos. Muitos entenderam-me mal, julgaram que me achava superior e, de longe, mais inteligente que todos os que preferiam casar e procriar. Quando, na verdade, o que advogava era um “deixem-nos cá estar como a malta quer que depois as coisas logo se resolvem conforme se forem compondo”. Digo mais: admiro os comprometidos que, numa senda quase inconsciente, se atiram a uma vida em que o "um passa a ser dois" e o valor das complicações é agora a dobrar. De qualquer forma, presumo que as alegrias nasçam, naturalmente, em igual medida. Histórias que têm o potencial para ser eternizáveis, permanentes no tempo e no espaço. Universais, quiçá.

Existe uma estranha aura heróica nos casais, que se torna tanto maior quanto o tempo que forem conseguindo assumir como seu. Dia após dia, ano após ano, constroem um novo paradigma para si mesmos. Voltam-se para dentro e fazem das sensações um estilo de vida. E sobra a esperança de haver o rácio de um amor consistente por cada centena de relações falhadas.

Existe, ainda assim, gente em pânico por uma mão dada em público ou um anel num dedo. Testemunho-o não raras vezes. Cheguei a vivê-lo, num tempo duro e, felizmente, há muito ido. Fruto das pressões habituais do quotidiano, as gentes parecem querer ver-se com o mínimo teor de obrigatoriedades e de dar cavacos a quem quer que seja. Há os quereres, os empecilhos emocionais e as estragações da racionalidade, mas isso pouco parece importar. É assim e assim há-de ser por todo o sempre, como manda o meu cérebro, dizem. Aqui o coração tem zero ordenança, mentem. Há quem combata por um bem comum e, ao mesmo tempo, quem se deixe andar na vaga ideia do logo se vê. Quem se apaixonou recentemente há-de saber do que falo.

“Depois é aparecer aquela cara, aquele pedacinho de gente, capaz de nos arrancar o chão que trazemos debaixo dos pés e é um querer mandar a solteirice para o maneta.” A frase é minha, embora na altura não soubesse destes factos com um relevante conhecimento de causa. E, no entanto, ecoa agora o “soundbyte” por estas bandas, sem qualquer dó ou misericórdia. Afinal, o gajo que gostava do solteirismo sempre tem um certo apego pelo compromisso. É que a gente cospe para o ar e a coisa acaba sempre por nos cair em cima. Vá-se lá entender a vida.