Passos recusou demissão de Crato e elogia a sua determinação para resolver colocação de professores

Primeiro-ministro assumiu que o ministro da Educação, que esta segunda-feira o acompanhou na visita a um centro escolar, em Esposende, colocou o lugar à sua disposição, mas a forma como “agarrou” o problema da colocação dos docentes mostra que acertou quando o convidou para o Governo.

Adriano Miranda
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Adriano Miranda

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, confirmou o que já se sabia: que o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, que tem estado debaixo de fogo, pedira a demissão do cargo. Esta segunda-feira, em Forjães, concelho de Esposende, na inauguração do centro escolar local, o chefe do Governo falou do assunto para reiterar a sua confiança no ministro e elogiar a forma como assumiu e resolveu os problemas da colocação de professores.

Enquanto um grupo de manifestantes pedia com insistência a demissão do Governo e do ministro Crato, Passos Coelho elogiava a determinação do governante em ultrapassar os problemas inerentes à colocação de professores, ao mesmo tempo que afastava o “tempo conturbado" que marcou o arranque do novo ano lectivo.

Afirmando que o ministro “nunca evitou agarrar o problema, ou melhor, nunca procurou lavar as mãos do assunto”, Passos aproveitou para dizer que Crato foi uma boa escolha. “Isso significa que acertei quando o escolhi para ministro da Educação", declarou, para acrescentar: "Praticamente estamos em condições de dizer" que os problemas no concurso estão resolvidos, podendo já os docentes apresentar os prejuízos sofridos com os erros, para serem ressarcidos. Quanto às escolas sublinhou - estão também a definir a forma de compensar os alunos pelo tempo que estiveram sem professores, mas sem os "sobrecarregar" com aulas suplementares.

“Nunca podemos fazer uma compensação perfeita”, avisou, declarando que não haverá uma solução igual em todas as escolas e que o arranque do ano lectivo foi “mais atribulado” do que o esperado pelo Governo.

Falando na cerimónia de inauguração do Centro Escolar de Forjães, o chefe do Governo aludiu ao investimento feito em equipamentos educativos mesmo em tempos de crise e lembrou ainda que o seu Governo vai instituir, já a partir do próximo ano lectivo, o Inglês como disciplina obrigatória a partir do 3.º ano do 1.º ciclo do ensino básico.

Já sem Nuno Crato a seu lado, em Vila Nova de Famalicão, onde visitou a fábrica Salsa, o primeiro-ministro defendeu que as próximas eleições legislativas deverão ocorrer no prazo "normal" previsto na lei, "a menos" que haja uma "crise profunda" que disse não desejar nem antecipar. Mas não foi só de eleições que Passos falou.

Nem reestruturações, nem negociações da dívida

Questionado sobre a necessidade de o líder do PS clarificar a sua posição sobre a questão da dívida externa e do défice orçamental, Passos disse tratar-se de “uma responsabilidade de todos os partidos, não há ninguém que deva ficar de fora”. “Os portugueses têm sempre interesse em saber da parte dos agentes políticos quais são as suas ideias a propósito das questões que são mais relevantes, que são fundamentais para o futuro do país”. E tratou de puxar dos galões. “Nós estamos a sair de uma crise que foi bastante forte e muito severa, felizmente estamos a sair dela com crédito internacional com a nossa economia a crescer, com a nossa balança externa equilibrada, ainda hoje [ontem] o Banco de Portugal referiu que Portugal registou até ao final de Agosto um excedente externo que significa que não estamos mais endividados, pelo contrário, estamos a ter disponibilidade sobre o exterior o que é muito importante atendendo ao stock de dívida que foi acumulado durante muitos anos”. A isto, juntou “os sinais positivos” que surgem do lado do emprego e que – salientou – “encorajam-nos também a levar mais longe as políticas activas de emprego, porque finalmente conseguimos baixar dos 14% da taxa de desemprego”.

“O país não pode pôr em causa todos os sacrifícios que fez, tudo aquilo que foram políticas importantes e muito determinadas que nos permitiram sair da crise apenas porque há partidos políticos que estão mais interessados agora em campanha eleitoral e em eleições do que em pensar como é que nós podemos afirmar esta mudança que tem vindo a ser feita no país e que precisa de ser consolidada”, disse. “Cada coisa a seu tempo, todos os líderes partidários, todos os agentes políticos devem assumir responsabilidades falando com clareza ao eleitorado”.

Os jornalistas quiseram saber o que pensa Passos sobre o projecto de resolução da dívida apresentado pelo PS como uma proposta de um debate no Parlamento. A resposta saiu pronta. “O país ganha pouco - e até pode perder muito – em termos grandes debates sobre a questão da dívida pública, mas concordo que o Parlamento é o sítio adequado para que discussões dessas se possam realizar. Do lado do Governo, a nossa posição é muito clara: nós temos uma dívida pública que é grande, vamos assumi-la com toda a responsabilidade – não a vamos pôr em causa – não temos nenhum espaço para estar a fazer nem renegociações nem reestruturações e uma vez que para nós isto tem esta simplicidade não vemos grande vantagem em estar a arrastar durante muito tempo um debate público sobre a dívida que nós sabemos que existe e que nós sabemos que temos de ser paga”.

O tema da dívida, terminou com um recado à posição: “Das duas uma, ou alguém acha que ela não é para ser paga e isso tem uma consequência nos nossos mercados externos que é poder pôr em causa o financiamento ao país. E quem lançar de forma permanente esse tipo de debates tem depois de assumir as suas responsabilidades”.

Passos e Crato apupados e vaiados

As manifestações contra o primeiro-ministro e o ministro da Educação e da Ciência já se tornaram quase uma rotina. E esta segunda-feira em Forjães não foi diferente. Uma hora antes de Pedro Passos Coelho e Nuno Crato chegarem a Forjães para a sessão de inauguração do centro escolar, já um grupo de manifestantes com bandeiras e cartazes os aguardava junto à nova escola, frequentada por 180 crianças. O acesso à escola foi vedado com barreiras em ferro em vários locais para impedir a entrada dos manifestantes que esperavam a chegada do chefe do Governo.

A polícia vigiava atenta cada gesto dos manifestantes na sua maioria sindicalistas da CGTP, professores, reformados e até alunos. Pediam a demissão do Governo.

Eram 15h15 quando o primeiro carro preto pára junto à entrada do centro escola. Passos Coelho sai e ouve-se uma monumental vaia com muitos assobios à mistura. Nuno Crato é o senhor que se segue e o ministro foi alvo de muitos protestos. Desta vez, Passos optou por ignorar os apupos e dirigiu-se a um grupo de crianças bem pequenas do pré-escolar que o esperavam para cantar, dando-lhe as boas-vindas. Mas os protestos eram tão estridentes que quase abafaram as canções que os mais pequenos entoavam com alguma timidez.

Um homem de meia dade escapou à vigilância e logo que Passos chegou, gritou com os punhos erguidos “demissão”, “demissão”, “demissão”. A cerimónia decorreu, mas lá dentro ouviam-se ainda muitos protestos.