Fernando Egídio Reis substitui Grancho e toma posse terça-feira

Novo secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário foi adjunto de Nuno Crato no início do mandato deste Governo.

Manifestação vão juntar-se esta segunda-feira em frente ao MInistério da Educação
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Manifestação vão juntar-se esta segunda-feira em frente ao MInistério da Educação Laura Haanpaa

Fernando José Egídio Reis será a partir de amanhã, terça-feira, o substituto de João Grancho no cargo de secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário. A tomada de posse está marcada para as 17h no Palácio de Belém.

De acordo com o site da Presidência da República, Cavaco Silva aceitou a proposta de exoneração, a seu pedido, de João Grancho, que foi entregue ao chefe de Estado pelo primeiro-ministro e marcou já a tomada de posse do novo governante para a tarde de amanhã, terça-feira.

João Grancho demitiu-se na sexta-feira depois de o PÚBLICO ter noticiado que o governante plagiara, em 2007, quando era presidente da Associação Nacional de Professores, textos de três autores para uma comunicação num seminário sem que os tenha citado. Formalmente, Grancho alegou "motivos pessoais" para a sua renúncia ao cargo, anunciou o gabinete do primeiro-ministro.

Professor de História desde 1982, Fernando Egídio Reis entrou na política pela mão do actual ministro da Educação Ciência, Nuno Crato, de quem foi adjunto entre Junho e Agosto de 2011. Foi depois director-geral da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, e é desde Fevereiro de 2010 director-geral da Direcção-Geral da Educação.

No seu currículo disponível na CReSAP - Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública, lê-se que Fernando Egídio Reis se licenciou em História na Faculade de Letras da Universidade de Lisboa em 1982 e pertence ao quadro da Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, em Almada desde 1991.

O novo secretário de Estado tornou-se em 1997 investigador do Centro Inter-universitário de História das Ciências e da Tecnologia, integrado no Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa. Na mesma instituição fez depois um mestrado em História e Filosofia das Ciências, em 1999, e doutorou-se também em História e Filosofia das Ciências em 2007.

Nome divide opiniões
As opiniões dos directores de escolas e dos sindicalistas em relação ao novo secretário de Estado dividem-se. Há quem ache que conhece bem o terreno e quem discorde. Quem tenha expectativas de que pode contribuir para resolver os problemas que têm afectado as escolas e quem ache que vem aí “mais do mesmo”.

“É mais do mesmo, como não podia deixar de ser. Trata-se de uma promoção dentro do aparelho do Ministério da Educação e Ciência, forma mais eficaz de garantir a continuação de políticas de desmantelamento da escola pública. Na verdade, de um novo secretário de Estado não se esperava nada de novo, porque a missão que o espera já tem conteúdo e está fixado no guião da reforma do Estado e nos 704 milhões de corte no Orçamento de Estado para 2015”, comentou ao PÚBLICO por escrito o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira.

Já o secretário-geral da Federação Nacional de Educação, João Dias da Silva, tem outras expectativas e espera que Fernando Egídio Reis “possa contribuir para encontrar soluções para os problemas identificados” no sector da Educação.

Acredita que o novo secretário de Estado tem a “vantagem” de conhecer “os procedimentos e soluções” que têm sido adoptadas pelo ministério: “Vem de dentro. Conhece bem a máquina, não precisa de fazer preparação para as questões que estão em aberto, de forma a que o ministério dê resposta aos problemas que aconteceram nesta abertura do ano lectivo e para que os alunos rapidamente tenham aulas, que é o objectivo que a sociedade exige que o Governo cumpra.”

João Dias da Silva considera que Fernando Egídio Reis não só “tem tido informação alargada sobre a realidade das escolas”, devido à sua passagem pela Direcção-Geral da Educação, como acredita que conhecerá de facto o terreno, por ter sido professor. “Há um conjunto de factores que permitem que possa rapidamente integrar-se no trabalho de resolução dos problemas existem”, frisa João Dias da Silva.

O vice-presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, diz não conhecer “muito bem” Fernando Egídio Reis, mas acredita que, pelo facto de pertencer aos quadros de uma escola de Almada, conhecerá o terreno. “O facto de ser professor é uma vantagem. Espero que seja um espírito dialogante. Espero que seja bom ouvinte, os nossos políticos cada vez ouvem menos as massas. Espero que nos escute. Os professores e directores que estão todos os dias no terreno devem ser ouvidos, eles [equipa ministerial] só lucram em ouvir quem está no terreno”, diz, congratulando-se com a “celeridade do processo” – o secretário de Estado cessante, João Grancho, apresentou a demissão na sexta-feira e a tomada de posse de Fernando Egídio Reis é na terça.

Apesar de ressalvar que deseja a Fernando Egídio Reis “as maiores felicidades no desempenho do cargo”, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, mostra-se menos confiante no conhecimento que o novo secretário de Estado terá do terreno.

“Aplaudo o grande espírito de sacrifício do dr. Fernando Egídio para aceitar o cargo numa altura destas, é serviço público. O ministério não tem passado os melhores dias, por isso revela um grande sentido de dever. Tem um grande trabalho pela frente e o importante agora é desejar-lhe a máxima sorte, que bem precisa. E esperar que tenha a sensibilidade de falar com os directores e de conhecer as escolas. Até prova em contrário, tem o nosso apoio”, diz Manuel Pereira.

Este dirigente ressalva não querer “fazer um juízo” antes de Fernando Egídio Reis chegar ao cargo e admite que o novo secretário de Estado até pode “conhecer bem as escolas”, mas essa não é a expectativa que tem mais reforçada acerca do novo governante: “É um homem da administração, de alguma forma está um pouco longe da realidade das escolas, porque tem trabalhado na administração. Trabalhou na Direcção-Geral de Educação, é um homem cordato, pragmático, correcto, atento, mas, apesar de todas essas qualidades, é um homem da máquina”, diz, relembrando que João Grancho “conhecia as escolas, conversava regularmente com os directores, ouvia os directores, era próximo, independentemente de estar a por em prática uma política” com a qual os directores das escolas não concordavam.

Questionado sobre o facto de o currículo de Fernando Egídio Reis incluir, não só cargos ligados ao ministério, mas também o ensino, Manuel Pereira não se mostra particularmente entusiasmado: “O próprio Ministro da Educação também foi professor. Não estou a dizer que [Fernando Egídio Reis] não saiba [qual a realidade das escolas], mas qualquer pessoa que passe pelo MEC vem das escolas. Agora, conhecer na prática, empiricamente, lidar com directores, com problemas das escolas, não terá…”, acredita, frisando, porém, que mantém a esperança de que possa aproximar-se dessa realidade.

“Mas espero que seja uma pessoa próxima da escola. Porque um dos grandes pecados do ministério, nos últimos tempos, tem sido ouvir pouco os directores e escutar ainda menos”, diz, sublinhando que, mesmo quando ouve, o ministério não tem em atenção aquilo que os directores das escolas dizem. Manuel Pereira espera, por isso, que os directores sejam “mais escutados” e que o novo secretário de Estado os “tente ouvir”, tentando perceber quais são “os problemas das escolas” e contribuindo para as decisões da tutela tendo em conta essa realidade.