Amnistia acusa jihadistas de “limpeza étnica” no Norte do Iraque

Homens e rapazes são mortos, mulheres e crianças são raptadas. As acusações de “crimes de guerra” contra Estado Islâmico acumulam-se

A maioira dos civis que escaparam ao EI está refugiada no Curdistão iraquiano
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A maioira dos civis que escaparam ao EI está refugiada no Curdistão iraquiano Rodi Said/Reuters

O Estado Islâmico (EI) está a levar a cabo “uma campanha sistemática de limpeza étnica” no Norte do Iraque, onde tem praticado execuções em massa, denuncia a Amnistia Internacional, num relatório publicado nesta terça-feira.

Citando testemunhos “horríficos” de sobreviventes, a Amnistia acusa os jihadistas de “crimes de guerra, incluindo execuções sumárias em massa e raptos”, visando “sistematicamente” as minorias do Norte iraquiano, nomeadamente os cristãos, os turcomanos xiitas e os yazidis.

O EI, igualmente presente na Síria, lançou no início de Junho uma ofensiva no Iraque, que lhe permitiu controlar vastas parcelas de território, onde tem vindo a semear o terror, levando à fuga de milhares de pessoas.

No dia 25 de Agosto, a Alta comissária da ONU para os direitos humanos, Navi Pillay, já tinha acusado os jihadistas de procederem a uma “limpeza étnica e religiosa” no Norte do Iraque.

No seu relatório, intitulado “limpeza étnica de proporções históricas”, a Amnistia afirma ter provas de que várias “assassínios em massa” ocorreram em Agosto na região de Sinjar, onde vivia uma importante comunidade yazidi, uma minoria de origem curda não-muçulmana.

Segundo testemunhas, dezenas de homens e jovens rapazes foram enfiados em carrinhas de caixa aberta pelos jihadistas para depois serem executados no exterior das suas aldeias. O EI “transformou as zonas rurais de Sinjar em campos da morte no âmbito da sua campanha brutal para apagar todos os vestígios de não-árabes e muçulmanos não-sunitas” dos territórios que reclamou para si, denuncia a Amnistia.

Segundo esta organização, dois dos ataques mais mortíferos aconteceram nos dias 3 e 15 de Agosto nas aldeias de Qiniyeh e Kocho, onde o número de vítimas se conta às “centenas”.

Um dos sobreviventes, Salem, contou que esteve escondido durante 12 dias antes de conseguir fugir, ouvindo a agonia dos que iam sendo mortos. Said, outro sobrevivente, diz que escapou à morte por pouco, depois de ter sido alvejado com cinco tiros. Os seus sete irmãos foram mortos.

“Centenas, talvez milhares” de mulheres e crianças da minoria yazidi foram raptados pelos homens do EI, refere ainda o relatório da Amnistia. Na sua esmagadora maioria, desconhece-se o seu paradeiro e as condições em que se encontram detidas.

Algumas das poucas mulheres que conseguiram estabelecer contacto com as suas famílias disserem que estão a ser pressionadas a converter-se ao islão. Algumas famílias que têm dezenas dos seus familiares cativos também denunciaram à Amnistia casos de abusos sexuais de mulheres e crianças.

Mohsen Elias, um dos sobreviventes do massacre de Qiniyeh – entre 80 a 90 homens e rapazes foram executados sumariamente pelos jihadistas do EI  – contou à Amnistia que 18 mulheres e crianças da sua família mais próxima e outras 25 familiares mais afastadas foram todas raptadas pelo EI nesse dia, 3 de Agosto: "A minha mulher, Nawruz, somos recém-casados e ela está grávida”, contou, antes de enumerar os nomes das restantes familiares raptadas. “O meu bebé ainda não nasceu e já é um prisioneiro.”

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