História do soldado que se casou e viveu no campo de batalha

Milhares de militares do Corpo Expedicionário Português não regressaram. Tornaram-se emigrantes em França, na zona onde antes tinham combatido. Hoje, os seus descendentes cuidam da sua memória e velam até para que não se esqueça o Cemitério Militar Português, em pleno campo da batalha de La Lys.

Montado na sua bicicleta, com a farda cinzenta de pano grosseiro do Corpo Expedicionário Português (CEP) que foi combater em França, o ex-cabo João Assunção era uma visão habitual todos os dias para os habitantes de Burbure, na região Norte-Pas de Calais, depois do fim da I Guerra Mundial.

“Passava todos os dias pelas povoações assim, vestido de militar e de bicicleta, quando ia trabalhar para as minas de carvão. As pessoas comentavam: “lá vai o português”, recorda a sua filha Felícia Assunção Pailleux, 88 anos, que hoje se dedica a conservar a memória do pai, primeiro soldado e depois imigrante em França.

João Assunção, um minhoto de Ponte da Barca, foi um dos 55 mil portugueses enviados em 1917 para França, aos 22 anos, para combater nas trincheiras da frente ocidental, ao lado do aliado britânico e contra o inimigo alemão. “Ele continuava a usar a farda porque não havia dinheiro para comprar outra roupa. E depois era o costume, habituou-se”, conta Felícia Pailleux.

“Ele fazia parte da 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português [CEP). Durante a Guerra, em Fevereiro de 1918, ficou a descansar numa granja da aldeia da minha mamã e apaixonaram-se”, conta Felícia Pailleux – pequenina e de sorriso rasgado, fato azul-escuro que parece quase uma farda. Em todos os eventos e desfiles, ela é porta-estandarte: desfila com a bandeira que o seu pai pediu ao Estado português, anos depois de estar já a viver em França e que recebeu, com todo o orgulho. “De resto, não recebeu mais nada”, diz a sua filha.

“Quando a guerra acabou, deram um tempo aos soldados portugueses para pensar se queriam ir-se embora de volta para Portugal, ou se queriam ficar. Ele foi até Cherburgo, de onde partia o navio com os soldados de regresso, mas não embarcou. Voltou para aqui, para se casar com a mamã”, relata, iniciando o mito fundador da sua família de 15 irmãos.

“Não tens vergonha?”

À entrada da casa de Felícia há um grande burro em peluche com mantas e adereços verdes e vermelhos. Toda a sua casa está recheada de recordações do pai e da I Guerra, e também de símbolos portugueses – galos de Barcelos, caravelas, vinho do Porto. Uma proclamação da República Portuguesa emoldurada. Há fotografias antigas do pai, e de outros combatentes portugueses, desenhos feitos a partir de retratos – o pai é um herói da Grande Guerra, que perdeu um dos irmãos na guerra em Moçambique, para onde foi mandado combater os alemães, que ameaçavam aquela antiga colónia portuguesa, e nunca regressou.

Tem também fotos do pai e da mãe tiradas no dia do casamento: os dois muito jovens, ele garboso e de bigode, ela de rosto vivo e doce, mas ambos vestidos de escuro, como ditava o decoro da época.

Quando voltou para a sua apaixonada, os pais da noiva alojaram-no: ficou a dormir num corredor, enquanto se preparava o casamento. Mas os vizinhos falavam, conta Felícia Pailleux. “Houve quem criticasse porque o papá não sabia falar francês. O senhor presidente da câmara perguntou à minha mãe se ela não tinha vergonha de se casar com um estrangeiro que não sabia falar francês? Ela respondeu simplesmente que ele veio para cá defender a França. Não havia mais nada a dizer. Todos os seus filhos souberam disto.”

Os soldados portugueses não foram por sua vontade lutar para França – e aliás foram enviados num clima de grandes divisões políticas e uma muito activa campanha contra a participação nacional neste conflito ao lado dos britânicos, inclusivamente com a distribuição de panfletos anti-guerra pelas ruas. Muitos houve que fugiram do próprio embarque no cais de Alcântara.

Políticos importantes da época apoiavam o lado alemão e houve mudanças no equilíbrio de poder durante o tempo que decorreu a missão do CEP em França. Muitos oficiais, mesmo os enviados para os combates, eram contra a participação na guerra.

Mas o desejo do Governo de Afonso Costa em 1916, ao insistir ardentemente junto do Reino Unido na participação militar nacional na guerra, era multifacetado. Por um lado, afirmar a identidade da então jovem república portuguesa, e por outro defender os interesses coloniais portugueses. Pelos seus cálculos, era imperioso pôr tropas no terreno africano, que já estava a ser cobiçado por alemães e não era desdenhado polos britânicos, e garantir um lugar à mesa numa futura conferência de paz, para negociar dividendos de uma guerra que então todos pensavam que seria breve.

Fatos de ovelha

A ânsia de participar na guerra não significa, no entanto, que Portugal conseguisse preparar adequadamente soldados para enviar para a nova forma de combater que se desenhava na frente ocidental: a guerra de trincheiras, onde a imobilidade foi quase total ao longo de quatro anos, travada com armas novas e com capacidades de ceifar vidas humanas e de mutilar corpos como nunca se tinha visto até então, e em cenários muito diferentes daqueles a que os portugueses estão habituados.

Os recrutas foram enviados para treino na base de Tancos, onde lhes ministravam um treino diferente do habitual – mas mesmo assim, bastante diferente do necessário para combater nesta nova forma de guerra, diz Isabel Pestana Marques no livro Das Trincheiras, com Saudade (Esfera dos Livros), onde reconstrói a vida quotidiana dos soldados portugueses, com recurso a documentos e testemunhos militares. E certamente não os preparava para as condições de terreno que encontrariam na Flandres francesa, para onde foram enviados.

No Norte-Pas de Calais, a plana Flandres francesa, onde as casas são de tijolo escuro e o clima é húmido e frio, as trincheiras eram menos profundas do que o habitual. Naquelas terras pantanosas a água aparecia quando se escavava 50 ou 60 centímetros. Os soldados tinham de andar agachados, em lama quase permanente, já que a chuva também raramente dá tréguas.

Mas as suas botas não eram impermeáveis, além de terem defeitos na forma que as tornavam desconfortáveis para caminhar, diz Isabel Pestana Marques. Além disso, o material de que eram confeccionadas as fardas de Inverno não mantinha os soldados quentes e secos. Por isso, a certa altura tentou-se adicionar duas peças ao uniforme: uma era uma espécie de samarra sem mangas em pele de ovelha, a que os soldados chamavam pelicos. Mas este vestuário dava aos portugueses um ar tão ridículo, que pôs a rir os soldados britânicos com que partilhavam a missão, e também os alemães que os viram.

Para além da vida dura nas trincheiras, os soldados não conseguiam gozar folgas e muito menos vir a Portugal. Para o fazerem teriam de ter um fato civil, para vir por comboio, e ter dinheiro para pagar a passagem, ou conseguir lugar num navio inglês – que se tornaram raros, com o bloqueio alemão. Poucos tinham posses para isso, mas a Secretaria de Guerra também se mostrou incapaz de montar um esquema de licenças para todos os soldados, por isso alguns passaram 18 meses ininterruptos na frente.

A batalha que marcou toda a participação portuguesa na I Guerra Mundial – a batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918 – deu-se num momento em que parte das tropas portuguesas estavam finalmente a ser mandadas para a retaguarda e que os britânicos impunham uma reformulação da estrutura do CEP. Foi pelas linhas defendidas pelos estafados portugueses que os alemães romperam, de madrugada, num ataque inesperado. Os soldados portugueses montaram resistência em La Couture, na terceira linha defensiva, mas os que defendiam as duas primeiras trincheiras, juntamente com algumas forças britânicas, foram forçados a retirar em debandada. Cruelmente, alguma imprensa britânica apelidou os militares portugueses de “cobardes.”

 As baixas portuguesas foram sobretudo prisioneiros de guerra (cerca de 7000), mas houve também perto de 2200 mortes.

De soldados a mineiros

Da guerra que viveu, João Assunção, cabo que acabou por ser despromovido por relatar com demasiada veemência aos seus superiores o sofrimento dos homens que tinha a seu cargo, escolheu não contar nada sobre isso aos filhos. “Nunca falou disso. Mas na oficina, todos os dias os portugueses da região conversavam sobre a guerra”, conta Felicia Paileux.

Ao escolher não regressar a Portugal, João Assunção não escolheu um percurso original. Muitos outros soldados ficaram em França, juntando-se aos emigrantes que não tinham partido depois de terem cumprido o contrato que lhes permitiu emigrar temporariamente para aquele país durante a guerra, satisfazendo as necessidades de mão-de-obra do país que canalizava todos os seus homens válidos para as trincheiras.

Durante a guerra, foi assinada uma convenção entre os dois Estados, a 28 de Outubro de 1916, que previa a entrada em França de 13.800 emigrantes portugueses, com contratos a termo, para trabalhar na agricultura e na indústria. Destes, 6800 não terão regressado, disse numa entrevista à revista de ciências sociais “Retraite et Societé” em 2008 o então embaixador português em Paris António Monteiro.

Em 1921, residiam em França 11 mil portugueses e em 1931 eram 49 mil, uma população aumentada pelos que fugiam à ditadura salazarista. Os novos emigrantes e ex-combatentes fixaram-se bastante nas zonas que conheciam, nas zonas onde combateram: no Norte-Pas de Calais, zona de minas de carvão, onde era necessária mão-de-obra para a reconstrução.

Discriminação

Mas isso não quer dizer que fossem bem recebidos. “Aqui na terra, no início, não gostavam de nós. Éramos ‘os portugueses’. Mas era assim em todo o lado, com famílias como a nossa, não era só connosco”, recorda Felícia Pailleux.

“Na escola apontavam-nos a dedo: ‘São portugueses!’ Quando andávamos à bulha na escola, avisavam o papá de que tínhamos levado pancada e ele ia buscar-nos. Mas não nos dizia nada. Não havia nada a dizer.”

Foi por receio de que sofressem uma discriminação ainda maior que Felícia Pailleux, apaixonada pelas suas raízes portuguesas, nunca aprendeu português. “A nossa mãe não deixou, por isso nunca aprendi. A mamã dizia que seríamos insultadas. E depois o papá sempre falou francês com um sotaque terrível!”

A singularidade de João Assunção, o imigrante português que tinha sido soldado, acabou por ser a chave para a sua integração na comunidade. “Quando viram que o meu papá sabia trabalhar com as mãos, sabia fazer de tudo, sabia trabalhar o ferro, a madeira, a electricidade, era ‘João para aqui’, ‘João para lá’, ‘vem cá João, há uma coisa que não funciona…’. Ainda hoje poderiam perguntar onde mora a filha do português – eu moro aqui e a minha irmã mora ao lado. Ainda se lembram dele”, recorda a sua 13ª filha.

“Quando conseguiu pôr um dinheirinho de lado, abriu uma oficina e loja de bicicletas. Mas nunca deixou de trabalhar nas minas também, tinha dois trabalhos. Quando voltava à noite, tinha tantas bicicletas para arranjar… Trabalhava demais. Mas nós éramos 15 filhos. Por isso ele tinha mesmo de trabalhar”. Mas quando era preciso fazer facturas, ele esperava sempre por Felícia para as fazer. “Não era analfabeto, mas tinha medo de dar erros em francês.”

Os alemães, outra vez

Naturalizou-se francês em 1930, o que permitiu à mãe de Felícia voltar a ser francesa, e aos seus filhos obter nacionalidade francesa também – segundo a lei da época, todos se tinham tornado portugueses automaticamente, porque o cabeça de casal o era. “Tenho o papel da naturalização, e da minha mãe também, dizendo que ela é de novo francesa. Era assim que as coisas funcionavam naquela altura”, conta Felícia Pailleux.

Depois da naturalização, João Assunção ainda tinha idade para ser mobilizado para combater na II Guerra, desta vez por França. “Mas era o que faltava, com a grande família que tinha!”, comenta. Isso não o impediu de viver intensamente a II Guerra. “As bombas voadoras V1 dos alemães passavam por aqui, faziam-nos medo. Havia alertas. Uma vez esquecemo-nos de um irmão na cama quando fugimos para a cave”, recorda Felícia Pailleux.

 “O papá não podia suportar a ideia de que os alemães, contra os quais tinha combatido, tivessem invadido França. Tinha um rádio escondido debaixo da minha cama para ouvir a rádio de Londres todas as noites, era este”, diz, avançado para um belo rádio antigo, de tons castanho e dourado, que parece saído da série de televisão Alô, Alô.

“Ainda funciona, só precisa de aquecer”, diz, girando um grande botão. “Ah, voilá”, diz quando se começa a ouvir a emissão, primeiro baixinho, e subindo de volume à medida que, é verdade, o rádio aquece.
 
Coração português

Mas, apesar de se ter naturalizado francês, o coração ficou em Portugal – onde só regressou 26 anos depois de ter sido desmobilizado, em 1919. “Da primeira vez, foi com o irmão, toda a aldeia sabia, todos o vieram receber, fazer-lhe uma festa. Ficou muito contente. Ele devia pensar muito sobre o seu país.”

Depois dessa primeira vez, passou a ir todos os anos a Portugal, com o seu carro. Voltar não esteve nos seus planos: “Tinha aqui a sua vida, o seu comércio…”

A vontade de manter laços com Portugal, no entanto, fê-lo fundar uma associação reunindo os antigos combatentes que se instalaram no Norte-Pas de Calais. “Formaram uma associação e pediram a Portugal uma bandeira, que foi entregue em 1924, por uma duração ilimitada, com o número 3888, e têm o direito de comemoração”, diz Felícia, mostrando o livro original onde foram assentes os nomes dos fundadores. “Foram ao consulado de Lille, assim não seriam considerados desertores por não terem voltado a Portugal”, explica.

É com essa bandeira que agora Felícia Pailleux continua a desfilar, orgulhosamente, sempre que há comemorações oficiais que recordem o papel dos portugueses na I Guerra. Como por exemplo no desfile que se realiza todos os anos por volta de 9 de Abril, no Cemitério Militar Português de Richebourg, para assinalar a batalha de La Lys, que para sempre marca a memória da participação portuguesa nesta guerra.

Recordar La Lys

"É uma cerimónia oficial com autoridades francesas e portuguesas, tentamos conservar esta tradição, mas vai ser difícil”, diz João Marques, o actual presidente da associação fundada pelo pai e pelo padrinho de Felícia Pailleux e outros ex-soldados portugueses.

“Anteriormente na embaixada portuguesa havia três adidos militares, o que talvez fosse demais, mas hoje só há um e sem o apoio da embaixada não conseguimos fazer a cerimónia. Dá um trabalhão enorme. Tem de se mandar convites para as autoridades francesas, para os deputados, para os maires aqui da região. Mas os convites são feitos oficialmente no gabinete do adido militar, eu faço as associações da região”, explica.

"Depois juntamo-nos todos aqui e fazemos um desfile com as bandeiras todas”, descreve, junto ao portão do cemitério, em ferro forjado, onde se distinguem rosas e as quinas do padrão português. “Fazemos uma avenida com as bandeiras, depois as autoridades entram, e os militares franceses, e vão assinar o livro de honra”, numa casinha num dos cantos do cemitério que funciona como um mini-museu.

Ali está um manequim com uma farda original: cinzenta, feita no que parece ser uma flanela grosseira, com um capacete que é semelhante ao dos britânicos mas cujo aço não protegia tão eficazmente a cabeça dos combatentes. Também está uma bilha descoberta há pouco tempo onde ainda havia toucinho e feijão bem conservado: “Um vizinho teve-o no frigorífico ainda durante muito tempo!”, conta João Marques.

A ração militar dos portugueses era a mesma que a dos britânicos, mas o gosto da soldadesca nacional era muito diferente. Sobretudo faltava-lhes o pão, que comiam em abundância, e os ingleses não. E não podiam com o “corned beef”, a carne de conserva que acaba por ser grande parte da sua dieta, nem com o “bacon” inglês. Sonhavam com o toucinho português comido com pão ou feijões – daí que uma das alcunhas que os soldados britânicos tenham posto aos seus companheiros portugueses tenha sido “porkandbeans”, relata Isabel Pestana Marques.

Numa área cheia de monumentos fúnebres e cemitérios militares estrangeiros – britânicos, canadianos, alemães, norte-americanos, indianos – o cemitério português, inaugurado em 1927, é relativamente pequeno. Ali estão 1831 campas, nem sequer todos os cerca de 2500 soldados portugueses que morreram em terras de França na I Guerra. Mas este cemitério, em Neuve Chapelle, está num local perfeito para recordar a batalha de La Lys: passava por ali a primeira linha das trincheiras guardada pelos portugueses que os alemães romperam com um possante bombardeamento a 9 de Abril de 1918.

“A nossa linha da frente passava aqui, atravessava o cemitério – os alemães estavam ali atrás, naquele bosque”, explica João Marques, apontando o arvoredo do outro lado da movimentada estrada à beira da qual fica o cemitério português. “Agora aquilo já foi muito partido, os agricultores já estragaram muito, com as máquinas, mas havia ali blocos em betão armado que faziam parte de abrigos deles. Eles estavam aqui, e os alemães logo ali, na parte de trás”, gesticula.

Histórias de arrepiar

O empresário João Marques está em França desde 1968. Chegou com 19 anos. “Nunca pensei vir para o estrangeiro, ia para a tropa em Abril, três meses antes, vim para cá a salto e cá fiquei.” Quando chegou a Richebourg, o município onde fica o cemitério, ainda conheceu antigos soldados portugueses, homens como o pai de Felícia Pailleux.

“Muitos ficaram cá, casaram-se cá. O café ali ao fundo era do antigo guarda do cemitério, um homem que ficou cá. Ainda o conheci. Esse é que sabia verdadeiramente a história da guerra. Passava tardes a ouvi-lo contar. Foi soldado, combateu aqui”, explica, respeitoso. “O meu tio, que era militar, veio para cá em 1961 como guarda do cemitério. Eles [o antigo soldado e a mulher] tinham quartos para alugar, nos andares de cima do café, e o meu tio habitou ali, um ano ou dois, até a minha tia chegar”, conta.

“Esse senhor contava histórias de arrepiar. Gente que morria ao lado dele, corpos que explodiam completamente. Ele contava coisas que até…”, arrepia-se. “Eu às vezes passava tardes de domingo a ouvir histórias da guerra”, confessa João Marques.

Este antigo soldado, Gaspar, é o que recorda do seu nome, meteu-lhe o bichinho da I Guerra. Mais tarde, “já eu estava instalado por minha conta”, o então presidente da associação criada pelo pai de Felícia, emigrante oriundo da região de Benavente, tal como João Marques, começou a ver nele o sucessor ideal. “Começou-me a chatear, porque ele tinha problemas de saúde, e assim eu já sou presidente há 24 anos.”

A memória da participação portuguesa na I Guerra, que em Portugal é muito difusa, é portanto guardada em França por imigrantes. Alguns, descendentes directos dos soldados que lá ficaram, outros mais recentes, que se deixaram conquistar por esta história.

Felícia Pailleux espera poder deixar o legado da memória do seu pai a um museu em Portugal – já deu algumas aos coisas ao Museu República e Resistência, explica João Marques, ela própria pensa na Liga dos Antigos Combatentes. Mas outros, sem um património familiar tão rico como o dela, viram-se para memórias que possam ser partilhadas.

“Para a comunidade portuguesa da região, o cemitério é um motivo de orgulho”, diz João Marques. “Mas acho que essa memória tem vindo pouco a pouco a ser recuperada, porque isto estava esquecido. Certa vez tive de ir a Portugal e quando cheguei cá, a erva estava assim desta altura” – mostra com a mão até quase altura da cintura. “ Mesmo antes de vir para cá, acho que esteve abandonado. Isto não era conhecido. Alguém sabia que havia um cemitério militar português em França? Nas escolas isto também não era ensinado as crianças.”

Lápides apagadas

Sinal desse abandono são as lápides de granito apagadas, onde não se consegue ler o nome do soldado que ali foi enterrado. Em algumas mal se consegue ler “morto pela pátria”, na parte mais baixa, junto à terra. O que se vê melhor é a palavra “Portugal” e CEP, juntamente com a data da missão, “1917-1918”, e as cinco quinas, na parte superior.

“Pedimos um orçamento aos ingleses para mudar as pedras tumulares e pediram 500 mil euros. A Secretaria de Estado da Defesa estava de acordo. Mas eles pediram mais 50 mil euros. Não sei se fizeram orçamento muito baixo – eu achei razoável. As pedras deles [mantidas pela Commonwealth War Graves Comission] estão sempre impecáveis”, comentou João Marques.

“Aqui há muito trabalho a fazer. Sabe como se faz? Montam uma cabaninha de plástico, mete-se um homem lá dentro e passam horas e horas a limpar a pedra. Mas eles têm os cemitérios deles todos para recuperar agora pelo centenário da I Guerra”, diz o empresário.

E lança um apelo: “Não haverá uma empresa em que Portugal que possa fazer isto? Tenho a impressão que faria sentido se uma empresa portuguesa fizesse isto, com granito nosso… Muitas das pedras tumulares estão a abater. Aqui os invernos são muito duros, a temperatura chega a 15 negativos e muitas estão partidas. Isto já tem a sua idade.”
 

Notícia corrigida a 11 de Agosto: número de mortes estimadas em La Lys é de 2200, e não 400. E João Assunção partiu para França em 1917 e não em 1977, obviamente. 
 

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Toda a casa de Felícia Assunção Pailleux está recheada de recordações do pai e da I Guerra
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