Israel diz que objectivos estão "perto de ser cumpridos"

Nova vaga de bombardeamentos matou 57 palestinianos. Israel dá sinais de poder mudar de estratégia, mas Netanyahu diz que Exército "continuará a actuar". Destino de soldado desaparecido continua desconhecido.

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Neste sábado, só em Rafah, os bombardeamentos israelitas causaram a morte de 57 pessoas Ibraheem Abu Mustafa/Reuters

Os bombardeamentos israelitas intensificaram-se nas primeiras horas deste sábado, no Sul de Gaza, e acrescentaram dezenas de nomes a uma lista de mortos que ultrapassa já as 1600 pessoas. Pouco depois, o Exército informou que os objectivos da operação militar que iniciou a 8 de Julho estarão perto de ser alcançados e deu indicações à população de Beit Lahiya, no Norte, de que pode voltar para casa.

“Os nossos objectivos, o mais importante dos quais é a destruição dos túneis, estão perto de ser cumpridos”, disse o porta-voz do Exército, Peter Lerner, citado pela Reuters.

Quase em simultâneo, o Exército autorizou os habitantes de Beit Lahiya, cidade de 70 mil pessoas, e de Al-Atatra, localidade vizinha, a regressarem às casas que tiveram de abandonar nas últimas semanas.

Testemunhas disseram a um jornalista da AFP terem constatado a retirada de soldados israelitas de aldeias próximas de Beit Lahiya e de Khan Yunis, no Sul de Gaza.

Mas a informação da possibilidade de regressar foi recebida com desconfiança. “Não podemos arriscar--nos a voltar e a ser bombardeados pelas forças israelitas”, disse à Reuters Talab Manna, 30 anos, pai de sete filhos.

Um sinal de que Israel poderia estar num momento de viragem da sua estratégia, pelo menos no que diz respeito à actuação das forças no terreno, foi dado por Tzachi Hanegbi, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, em declarações a uma televisão de Israel. “Creio que esta é a altura para parar as manobras terrestres. O Hamas pode ser atingido quando necessário, em resposta aos disparos que, creio, vão continuar.” A fase terrestre da operação israelita começou a 17 de Julho.

Pouco depois, porém, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, disse que, mesmo depois de completada a destruição dos túneis nas zonas fronteiriças, o Exército "continuará a actuar, de acordo com as necessidades de defesa, até que seja restaurada a segurança" dos cidadãos de Israel.

57 mortos só em Raffah

Neste sábado, só em Rafah, desde a meia-noite local, os bombardeamentos israelitas causaram a morte de 57 pessoas, disse à AFP Ashraf al-Qodra, porta-voz dos serviços médicos locais. Nesta zona, no Sul da Faixa de Gaza, morreram 114 pessoas desde a data em que devia ter começado o último cessar-fogo, na manhã de sexta-feira. Quinze das vítimas pertenciam à mesma família, cinco delas crianças com idades entre 3 e 12 anos.

Peter Lerner confirmou que nas 24 horas que se seguiram ao fim da trégua que mal começou foram atacados 200 alvos que descreveu como sendo túneis, fábricas de armamento, armazéns e centros de comando.

Desde 8 de Julho, quando Israel iniciou os bombardeamentos, foram mortos 1654 palestinianos, maioritariamente civis, disse o porta-voz. A Reuters refere 1669. Entre eles, a Unicef – organização das Nações Unidas para a infância – contabiliza pelo menos 296 crianças. Tzachi Hanegbi afirmou que 47% dos mortos eram combatentes do Hamas.

Do lado israelita contam-se 66 mortos, 63 soldados e três civis. Os feridos rondam os sete mil palestinianos e ultrapassam os 400 entre os israelitas. O sistema de defesa antimíssil israelita interceptou na manhã deste sábado dois rockets disparados contra Telavive e outro lançado para Beersheva, informou o Exército.

Ao longo do dia, patrulhas israelitas desdobraram-se em esforços para encontrar Hadar Goldin, um militar israelita presumivelmente capturado por militantes do Hamas no confronto da manhã de sexta-feira que motivou a quebra do cessar-fogo e o recomeço de bombardeamentos.

“Não sabemos o que lhe aconteceu”, disse Lerner, segundo o qual Goldin desapareceu num ataque de homens armados do Hamas, incluindo um bombista suicida, a um grupo de soldados de Israel. O Exército não fala formalmente em captura, porque “ninguém a reivindicou”.

O Hamas assumiu a autoria de uma emboscada em que um soldado teria sido capturado, mas afirma não ter informações sobre o que aconteceu. Admite que o militar tenha sido morto, juntamente com membros do seu braço armado, as brigadas Ezzedine al-Qassam.“Perdemos contacto com o grupo de combatentes que participou na emboscada e acreditamos que tenham sido todos mortos no bombardeamento israelita [que se seguiu]. Assumindo que conseguiram capturar o soldado durante o combate, admitimos que também ele tenha sido morto no incidente”, indica um comunicado do Hamas, em que declara que a sua acção ocorreu uma hora antes do início do cessar-fogo e foi uma resposta ao avanço de forças terrestres israelitas.

A eventual captura de Goldin preocupa as autoridades israelitas pelas consequências que poderá ter – um soldado capturado em 2006 esteve cinco anos em cativeiro e foi libertado em Novembro de 2011, a troco de um milhar de militantes palestinianos que estavam em prisões de Israel.

O Governo de Israel entretanto decidiu não enviar representantes às conversações que antes da quebra da trégua estavam previstas para o Cairo. Mas na capital egípcia era esperada até ao fim do dia de sábado uma delegação palestiniana. O Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi, disse que eventuais conversações no Cairo são uma “hipótese real” de pôr fim ao conflito, mas os mais recentes desenvolvimentos tornaram mais difícil uma solução negociada.

Os EUA voltaram a confirmar que são um fiel aliado de Israel. Na noite de sexta-feira, a Câmara de Representantes aprovou uma ajuda de 225 milhões de dólares (cerca de 167,5 milhões de euros) para manutenção do sistema de protecção antimíssil. O Senado já tinha dado o seu aval. Falta apenas a assinatura do Presidente norte-americano para  validar o auxílio.

Horas antes, Barack Obama qualificou as acções do Hamas como “incrivelmente irresponsáveis” e reafirmou que Israel tem direito a defender-se. Disse também que, se o Hamas está seriamente empenhado na solução da situação em Gaza, deve libertar o militar supostamente detido.