Finbarr O'Reilly/Reuters
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Megafone

Não temas, mamã, que eu sou forte

Ontem acordei com o choro da minha mamã. Tal como hoje, dizia-me que tudo seria melhor quando o papá chegasse. Quando por fim chegou, trazia o pó da guerra na cara, e um olhar que, infelizmente, há muito sei ser de morte

Ainda o som estridente do céu abafa o embalo que recebo. São já horas; mas não ainda. Aguardo-o, embalado.

Ontem acordei com o choro da minha mamã. Tal como hoje, dizia-me que tudo seria melhor quando o papá chegasse. Quando por fim chegou, trazia o pó da guerra na cara, e um olhar que, infelizmente, há muito sei ser de morte. Não a digo em voz alta que não é da minha idade; nem me dizem que é ela, que não é da minha idade. Mas eu sei; sempre vivi com gente que desaparece. Deixam-me ou deixo-os eu, sem querer, num silêncio ensurdecedor. Sigo a minha vida de criança, traquina e solta; mas sinto-os.

Há tempos conheci um menino, mais velho, que começava a escola pela primeira vez. Eu não, que ainda não tenho idade, dizem; mas ele sim. Levava um caderno para a escrita, a paixão pelo conhecimento e o respeito pela sabedoria. Levava também brincadeira, muita brincadeira de quem só quer a felicidade de ser criança. Descobri que a amizade se constrói de muita coisa; descobri um amigo. E brincámos; brincámos juntos.

Juntos, fizemos aulas. Levou-me a ver o céu azul e o castanho da terra, e falou-me de mares sem vida e crianças de cabelos claros; que as há, garantiu-me ele. Mostrou-me que quando atiro uma bola à parede, ela volta; um pouco mais lenta, mas volta. A não ser que lhe coloque em volta a rede de um cesto, caso em que não volta; cai. Inerte, perdida, sem chama. Contou-me histórias de muros e túneis; e de como uns são consequência dos outros. Mas sossegou-me; que em todo o caso são as crianças quem se diverte mais, que a vida é delas, e para elas. Ensinou-me, então, que os olhos brilham quando estamos felizes; e eu vi esse brilho nos seus.

Ontem, esse menino veio no olhar do meu papá.

Resolvido o sobressalto do papá que não chegava, a mamã chorava agora a minha dor, e cortava o pão que ele, a custo, lá tinha arranjado por entre os escombros da nossa vida, a meio caminho do sol nascente. «Come, filho, que é o que nos aguenta», disse-me, «amanhã trarei mais». O sal dos meus olhos, doridos pelo menino, deu mais sabor ao pão, e eu senti então a sua última aula: devemos tirar o melhor de cada momento para o futuro, nem que à custa das próprias lágrimas. Chorei um pouco mais.

São já horas; mas não ainda. Agora a mamã já não embala, apenas suspira: «Que será de ti, meu pequeno, que te não poderei proteger?». Nos seus olhos, brilha agora o amor; já não de felicidade, muito mais de temor.

«Não temas, mamã, que eu sou forte; se preciso for, tratarei eu mesmo do pão, amanhã. Ao céu estridente direi que se cale, e ao pó da guerra ditarei que assente. Que a alegria de ser criança é mais forte que o peso das estrelas; que a vontade de ser amado é mais verdade que o medo de ser odiado. Não temas, mamã, que eu sou forte.»

São já horas; mas não ainda. O pão de hoje não veio, sei-o já; o pão que o papá não trouxe ficou mergulhado na morte que veio do céu, estridente. Não o comerá mais ninguém.

Por isso, hoje não brilho; trago o meu papá no olhar.