Quercus tenta travar extracção de ouro no concelho de Évora

Vão ser detonados 1700 toneladas de explosivos durante cinco anos para extrair seis toneladas de ouro. Fica um passivo ambiental de 10.000 toneladas de metais pesados.

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Quercus diz que projecto vai ameaçar uma área de montado de sobro Paulo Ricca/Arquivo

A associação ambientalista Quercus anunciou nesta segunda-feira que interpôs uma acção popular para impugnar a Declaração de Impacte Ambiental (DIA) do projecto de exploração mineira da Boa-Fé, no concelho de Évora, por considerar que este afecta uma zona de montado de sobro inserida na Rede Natura 2000.

O projecto, que abrange uma área de quase 100 hectares, é promovido pela Aurmont Resources, uma subsidiária da canadiana Colt Resources. Prevê a exploração a céu-aberto de dois depósitos minerais de ouro em Casas Novas e Chaminé, localizados na freguesia de Nossa Senhora da Boa Fé, a cerca de 15 quilómetros da cidade de Évora.

O objectivo da acção judicial da Quercus “é impedir” o avanço da mineração em habitats protegidos do Sítio de Importância Comunitária da Serra do Monfurado, inserido na Rede Natura 2000, onde se incluem “importantes povoamentos de sobreiros”, lê-se num comunicado da associação.

A Quercus já se tinha pronunciado contra o projecto durante a consulta pública do Estudo de Impacte Ambiental (DIA), que terminou em Abril de 2013. Na altura, os ambientalistas manifestaram oposição à instalação do complexo de exploração de depósitos mineralizados auríferos por este apresentar “elevados riscos ambientais para a região". Da análise do EIA, concluiu que “não existem garantias suficientes de solução para o gigantesco passivo ambiental que vai ser criado na área intervencionada e sua envolvente.”

Segundo o EIA, a exploração decorrerá 24 horas por dia e produzirá uma escombreira com 37 hectares, para acondicionar 10.851 toneladas de estéreis. O projecto inclui a instalação de uma barragem de rejeitados com 32 hectares, para acondicionar 10.000 toneladas de metais pesados, nomeadamente arsénio, chumbo, cobre, mercúrio inorgânico, níquel, prata e zinco, resultantes dos cinco anos previstos para a laboração. A Quercus considera que “não existem garantias” de que o paredão impeça a passagem de águas contaminadas para jusante.

Para a associação, este é um processo que tem, desde o seu início (em 2010), uma agenda de “contornos duvidosos”. A Quercus acusa os municípios de Évora e de Montemor-o-Novo e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas de “facilitarem as aspirações do proponente, alterando para o efeito os Planos Directores Municipais e o Plano de Intervenção no Espaço Rural do Sítio de Monfurado com o único objectivo de favorecer a concessão da actividade mineira numa área em que a mesma estava interdita legalmente”.

Deputados municipais contra
A Assembleia Municipal de Évora realizou uma sessão extraordinária a 5 de Julho sobre o projecto de exploração da mina na Boa-Fé para audição de instituições e personalidades convidadas, seguida de debate, onde interveio também a população. Os deputados municipais concluíram que “a poluição com substâncias químicas em elevada concentração, as poeiras contaminadas e a secagem de veios de água são outros dos factores negativos apontados pela população, além da abertura de barragens cuja água não poderá ser utilizada”.

A maioria dos deputados mostrou-se desfavorável ao empreendimento mineiro e pediu às autoridades centrais que “invistam noutras áreas que tragam emprego de longo prazo, de forma sustentável, sem riscos consideráveis para as populações.”

A Quercus adianta que o projecto prevê a detonação de 340 toneladas de explosivos/ano, “com ruído acentuado e a emissão constante de poeiras”, que causará elevados impactes sobre a qualidade de vida das populações das localidades vizinhas. A busca de ouro exige ainda a destruição de áreas de montado de sobreiros e azinheiras, estando previsto o abate de quase sete mil árvores adultas.

Uma estimativa anteriormente avançada pela empresa SRK Consulting prevê que o teor médio de ouro é de 1,57 gramas por tonelada que podem vir a ser extraídos nos dois depósitos da Boa-Fé, a que correspondeo total de 214 mil onças (seis toneladas) de ouro.