Sonhos e pesadelos na "Copa das Copas"

Vitória para o Brasil na organização, derrota no futebol. A imagem de competência conquistada fora dos relvados foi desbaratada dentro deles e a goleada sofrida frente à Alemanha poderá pesar nas eleições de Outubro.

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Dilma poderá ser afectada pela saída da selecção do Mundial pela porta dos fundos Sergio Moraes/Reuters

O Brasil jogou (viveu) dois Campeonatos do Mundo, em simultâneo, ao longo das últimas semanas. Num deles, ganhou. No outro, saiu derrotado. No primeiro saiu de cabeça levantada e com motivos de orgulho, dado o reconhecimento internacional da competência da organização, da qualidade dos espectáculos e da hospitalidade dos brasileiros. No segundo foi afastado sem honra nem glória, vergado a uma humilhante derrota que jamais será esquecida e que colocou tudo em questão. A selecção brasileira falhou o sonhado “hexa” e despediu-se do Mundial de que foi anfitriã sem nunca pisar o relvado mítico do Maracanã. Com isso deixou um país em choque, ofuscando aquele clima de festa que se viveu durante estas semanas, dentro e fora dos relvados, e fez com que este torneio fosse unanimemente considerado um sucesso.

Foi há um ano, mas parece que foi há um século. “Meu governo é padrão Felipão”, dizia a presidente Dilma Rousseff, após a conquista da Taça das Confederações pela selecção brasileira. Na altura, o Brasil atravessava uma onda de manifestações, com muitos milhares nas ruas de várias cidades a reivindicar serviços públicos de saúde e educação, por exemplo, com qualidade idêntica aos estádios construídos para o Mundial. A presidente tentava associar a sua imagem à do sucesso do técnico da equipa nacional. Mas, um ano e uma goleada histórica depois, o prestígio de Luiz Felipe Scolari está pelas ruas da amargura. E pode arrastar com ele o de Dilma Rousseff, que em Outubro enfrenta eleições. Com o início do Mundial subiram as intenções de voto na presidente em exercício, mas o desastre que ficará conhecido como “Mineiraço” terá certamente consequências. “Essa derrota vai fazer o Brasil acordar e ter lucidez para lidar com seus problemas, em termos de segurança, saúde e especialmente no mundo da política, já que a eleição está aí”, disse à BBC Brasil o antropólogo e escritor Roberto DaMatta.

Três palavras andavam na boca do Brasil antes do dia 12 de Junho: “Imagina na Copa”. Os preparativos estavam atrasados, corria-se em contra-relógio e parecia que nada ia funcionar. Como seria quando chegassem os milhares de adeptos de todo o mundo e o aparato da FIFA, com as suas exigências? Foi bom. Foi muito bom. Foi muito melhor do que se estava à espera. O futebol – golos em catadupa, equipas-surpresa e grandes actuações individuais – foi o centro das atenções, mas tudo em redor esteve à altura da ocasião. As autoridades aprenderam com o impacto inicial: o trânsito foi de pior a melhor nas cidades-sede, os transportes públicos foram parte da solução e alguns incidentes pontuais não ensombram o balanço globalmente positivo.

A organização quase sem falhas estava a apagar a imagem de incompetência, mas o pesadelo vivido pela equipa de Luiz Felipe Scolari trouxe-a de volta, para ficar. “É preciso ter em mente que 7 a 1 é mais que uma simples derrota, é uma demonstração clara de que estávamos vivendo uma ilusão”, acrescentou DaMatta. “O problema é que as autoridades nunca imaginaram um descalabro desportivo de tal magnitude. O futebol é uma religião no Brasil e agora vai converter-se em política. Uma variável de consequências imponderáveis que não se encontra nos manuais de teoria política. O des-milagre económico era mal suportado pelos brasileiros, o des-milagre futebolístico pode ser letal para a presidência de Dilma”, corroborou Jorge Zepeda Patterson, colunista do diário espanhol El País. A “Copa das Copas”, como Dilma Rousseff definiu este Mundial, foi-o só até certo ponto.

“O país experimentará misto de alívio, ressaca, orgulho e desilusão [após o final]. Terminada a Copa, finalmente 2014 terá começado. A previsão antecipada de caos deu lugar ao sucesso absoluto. Estrangeiros elegeram o Brasil anfitrião sem igual para a Copa”, notava Paula Cesarino Costa no diário brasileiro Folha de S. Paulo. Os elogios são afagos ao ego colectivo, mas não há tempo para saboreá-los. “A Olimpíada [2016, no Rio de Janeiro] está aí e, com essa derrota, será preciso lidar com as questões nacionais, porque ela vai colocar o país em xeque de uma maneira brutal, especialmente na área da política pública”, vincou Roberto DaMatta.

O governo brasileiro tem tentado separar a prestação desportiva do Brasil no Mundial do desempenho da organização. “Uma coisa é perguntar sobre o sucesso administrativo da organização da Copa. Outra coisa é o jogo de futebol. Nós, é claro, como brasileiros, torcíamos para que o Brasil chegasse à final. Não podemos confundir uma coisa com a outra. O que importa para o governo é o seguinte: houve sucesso na organização administrativa? Sucesso absoluto”, realçou o vice-presidente do governo de Dilma Rousseff, Michel Temer, destacando os aeroportos, acessos aos estádios e os próprios recintos que acolheram o torneio.

Mas a modernidade dessas infra-estruturas convive lado a lado com a miséria quotidiana. A poucas centenas de metros do Itaquerão, o moderno estádio cujo custo terá ascendido a 1200 milhões de reais (398 milhões de euros), a comunidade de Vila da Paz vivia sem água corrente até há poucas semanas. A electricidade está prometida para Setembro, já o saneamento básico ninguém sabe quando chegará. E isso é uma derrota tão má ou pior ainda do que a goleada sofrida frente à Alemanha. “Afinal de contas, o que é o subdesenvolvimento se não a derrota cotidiana, a humilhação de cada dia e da cada hora? E é uma ignomínia que venha alguém dizer a esse povo desesperado: – ‘Vá perdendo! Continue perdendo! Aprenda a perder!’”, escrevia o cronista Nelson Rodrigues no pós-Mundial 1966, onde o Brasil de Pelé, Tostão e Garrincha foi eliminado na fase de grupos.

E, ainda assim, este é um país que não se conforma. O legado do Mundial, diz Juca Kfouri, uma voz crítica e muito respeitada no comentário desportivo brasileiro, não se vê apenas nos estádios modernos, nas estradas e infra-estruturas urbanas. O Brasil deve orgulhar-se por “desmascarar a FIFA”, escreveu: “A prisão no Copacabana Palace de Raymond Whelan, director da Match, o braço da FIFA para venda de ingressos, é mais um dos golos que a polícia brasileira faz nesta velha prática da transnacional do futebol e um legado inestimável nesta Copa brasileira”.