Crítica

Dar rosto ao medo

Paula Rego, Victor Willing, Bartolomeu Cid dos Santos e Eduardo Batarda: quatro formas de resistir pela arte

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Muito próxima da Pop, mas sem o fascínio pela sociedade de consumo, a arte de Paula Rego servia também para dar um rosto ao medo

Sob a égide do ano de 1961, a Casa das Histórias Paula Rego (CHPR) reúne um notável conjunto de obras de quatro artistas. Paula Rego, como é evidente, mas também o seu marido Victor Willing que, com Bartolomeu Cid dos Santos e Eduardo Batarda, formaram parte do núcleo de amigos que a artista possuía em Londres, na época em que frequentava a Slade School.

 A este grupo, teríamos também que acrescentar Menez, grande amiga da pintora, cuja obra possui características estilísticas e temáticas muito diferentes das que aqui se apresentam, e que por essa razão não está incluída em 1961: Ordem e Caos, o nome que a exposição recebeu.

1961 é um ano importante não apenas na vida da artista como na história portuguesa. Foi neste ano que, já então a viver em Londres, enviou as primeiras obras para serem expostas em Portugal, na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Na altura, e isso é muito bem contado no catálogo editado pela CHPR, Paula Rego dava os primeiros passos naquele que haveria de se tornar o seu estilo próprio. Aconselhada a pintar “apenas aquilo que conhecia”, educada pelo pai no asco da ditadura do Estado Novo, elaborou uma figuração expressiva e por vezes até obscena onde tratava temas e sentimentos que a pátria distante lhe inspirava. Nesta exposição, destacou-se a pintura-colagem “Quando tínhamos uma casa de campo…” a que Paula Rego, para a ocasião, censurou a segunda parte do título: “dávamos festas maravilhosas e depois íamos para o mato matar pretos.”

É que, de facto, em 61 já a Guerra Colonial tinha começado. Já Goa tinha sido invadida e anexada pelo exército indiano e mesmo, há pouco tempo, o paquete Santa Maria fora sequestrado por forças inimigas do regime político vigente em Portugal. Viviam-se os primeiros dias do fim. Por causa da censura e da polícia política, não se podia dizer muito. Mas podia-se dizer alguma coisa, e sobretudo podia-se criar. Mesmo que, como no caso de Paula Rego e dos seus amigos que aqui expõem, essa mensagem mais política e interventiva que a arte devia ter fosse sempre mascarada por uma figuração sem mimesis (Rego), pelo humor caricatural (Batarda), pela metáfora adaptada da iconografia histórica (Bartolomeu). Ou, até, no caso mais distante deste sentir resistente, pelo questionamento dos modelos modernos da pintura (Willing).

A exposição é ambiciosa. É a melhor oportunidade para rever as importantes obras da artista feitas nesta década – a começar por “Salazar vomita a Pátria”, a mais conhecida de todas -, quase sistematicamente através da justaposição de pintura e colagem de papéis coloridos; mesmo a grande tapeçaria em patchwork “Alcácer Quibir”, datada de 1965 e que habitualmente está exposta na entrada do museu, releva, no fundo, da técnica da colagem. Foram necessários empréstimos consideráveis, tanto da FCG, a instituição de fora que mais contribuiu para a selecção, como da Fundação Manuel de Brito, o Museu do Chiado, a Galeria 111 e inúmeros coleccionadores particulares, sem deixar de referir Eduardo Batarda e os herdeiros de Bartolomeu Cid dos Santos, completados por um importante empréstimo vindo da Biblioteca Nacional, composto por catálogos e brochuras de exposição da época considerada.

O que é surpreendente, nesta exposição, é em primeiro lugar a constatação de que o comentário de cariz político não pertence, nesta época, exclusivamente à figuração de Joaquim Rodrigo, como certa historiografia pensa, nem está ensimesmado nos movimentos políticos de raiz surrealista ou neo-realista que se atribuíram, no imediato pós-guerra, a função da denúncia do status quo vigente. Pelo contrário: ele perpassa pela obra dos artistas mais jovens, como estes quatro que aqui se apresentam, e mesmo pela obra que nos habituámos, na leitura que hoje fazemos da história da arte da década de 60. Muito próxima da Pop, que aliás nascera em Londres uns três ou quatro anos antes, mas sem o fascínio pela sociedade de consumo que é característico desse movimento, a arte servia também para dar um rosto ao medo, como Paula Rego gostava de dizer. E o medo não será o medo de décadas futuras, povoado de Vivian Girls, de personagens de ficção, de seres fantásticos saídos de contos infantis. Não. Este é o medo quotidiano, o medo que se adivinha num Portugal ainda longínquo, mas sempre, como é evidente aqui, muito presente.