Um exército que é já uma alternativa à Al-Qaeda no jihadismo internacional

O Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS) anunciou a criação de um “califado islâmico”. Como é que este movimento evoluiu?

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Imagem da execução de um grupo de soldados iraquianos por parte dos homens do ISIS AFP

Fundação
O ISIS é uma emanação do Estado Islâmico do Iraque (ISI), o ramo iraquiano da Al-Qaeda dirigido por Abu Bakr al-Baghdadi. Em Abril de 2013, Baghdadi anunciou a fusão do ISI e da Frente al-Nusra, grupo jihadista ligado a Al-Qaeda que combate na Síria contra o regime de Al-Assad, para se tornarem um só grupo, o Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS). Mas a Al-Nusra recusou aderir a esta nova entidade e os dois grupos acabaram por combater entre eles na Síria. O ISIS nunca jurou lealdade à Al-Qaeda e contestou abertamente a autoridade do seu líder, Ayman al-Zawahiri, recusando a exigência deste de deixar a Síria para a Al-Nusra e ficar só a combater no Iraque.

Efectivos
Charles Lister, investigador do Centro Brookings em Doha (Catar), estima que o ISIS conte com cinco a seis mil combatentes no Iraque e seis a sete mil na Síria. O que é mais difícil de quantificar é o tipo de apoio que o ISIS tem das comunidades sunitas iraquianas que perderam o poder e a influência que tinham durante o reinado de Saddam Hussein.

Nacionalidades
Na Síria, a maior parte dos combatentes são sírios, mas a maioria dos comandantes são estrangeiros que combateram no Iraque, na Tchetchénia ou no Afegansitão. No Iraque, a maioria dos combatentes são iraquianos, muitos deles pertencentes às fileiras do desmantelado Exército de Saddam. De um lado e do outro da fronteira, o ISIS conta com muitos ex-operacionais da Al-Qaeda. Segundo Romain Caillet, do Instituto Francês do Médio Oriente, na hierarquia das lideranças militares do ISIS, o topo é ocupado por iraquianos e líbios, seguidos de sauditas ou tunisinos. O ISIS conta ainda com vários combatentes europeus.

Ideologia
O grupo reivindica a mesma ideologia jihadista da Al-Qaeda e sempre declarou querer instituir um Estado islâmico numa região situada entre a Síria e o Iraque. Para Charles Lister, “o ISIS apresenta-se hoje como uma alternativa ideológica superior à Al-Qaeda nos meandros da comunidade jihadista, o que faz com que se tenha transformado num movimento transnacional com objectivos imediatos que vão muito para lá do Iraque e da Síria”.

Patrocinadores
O ISIS não beneficia do apoio aberto de nenhum Estado e, segundo os peritos, o grupo é essencialmente financiado por dadores individuais e organizações islâmicas de assistência social, muitos deles instalados no Golfo. No Iraque, o grupo recebe apoio financeiro de líderes tribais locais. Para além disso, o grupo conseguiu importantes somas de dinheiro, vendendo clandestinamente petróleo dos campos que controla no Leste da Síria e contrabandeando antiguidades e outros objectos de valor pilhados.

No terreno
Nas áreas que controla na Síria, o ISIS já instalou tribunais e escolas islâmicas, bem como outros serviços de assistência à população. Em Raqqa, a sua “capital” na Síria, já existe, por exemplo, uma nova autoridade de protecção alimentar. O grupo estabeleceu uma reputação, que é facilmente comprovada nas redes sociais, de extrema brutalidade para com os seus inimigos e todos aqueles que violam o código de sanções previstas pela sharia (a lei islâmica). Crucificações, amputações de membros e decapitações são punições comuns, bem como execuções sumárias que são filmadas e trabalhadas digitalmente para sublinhar ainda mais o horror que querem incutir.