O Mundial de Portugal à lupa: fluxo do jogo maioritariamente pela direita

Equipa académica analisou a forma como os jogadores da selecção portuguesa interagiram.

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As interacções dos jogadores da selecção portuguesa na soma dos três jogos no Mundial 2014
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Interacções no jogo com o Gana
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Interacções na primeira parte do jogo com o Gana
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Interacções na segunda parte do jogo com o Gana

O terceiro jogo de Portugal na fase de grupos do Mundial foi com o Gana. Apresentamos a análise deste jogo, ligando-a ao desempenho de Portugal nos restantes jogos. Na figura “rede de acções” do jogo Portugal-Gana, vemos as acções realizadas com a bola pelos jogadores, tais como passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos e cruzamentos. O tamanho dos nós (jogadores) é definido pelo número de jogadores com que interage cada jogador. A largura das ligações aumenta em função do número de acções realizados entre dois jogadores. Os nós mais amarelos significam menor precisão nas acções, mais vermelho indica maior precisão.

A rede que caracteriza a dinâmica de interacções de Portugal revela que as ligações mais fortes ocorreram de e para João Moutinho, com Nani, William Carvalho e Ronaldo. Moutinho fez a ligação entre o meio-campo e os jogadores avançados, sendo quem mais interagiu com os três jogadores atacantes. Estabeleceu também a ligação com o corredor direito, para João Pereira. Estas ligações de Moutinho foram diferentes nas dinâmicas de Portugal em jogos anteriores, onde os defesas laterais eram quem apresentava mais ligações com os médios alas. A mudança pode ter sido espoletada com a inclusão do médio Amorim.

Por outro lado, William Carvalho foi essencial na primeira fase de construção do ataque, circulando a bola entre os defesas centrais. Fez também a ligação com o corredor esquerdo, para Veloso. Participou na segunda fase de construção do ataque, sendo um elemento de ligação entre a defesa e o meio-campo, ligando-se a Moutinho e Amorim. Revelou também fazer a ligação de um corredor para outro, fazendo chegar a bola aos médios alas.

Os jogadores do meio-campo ligaram-se pouco a Éder, tal como tinha acontecido em jogos anteriores. No entanto, os defesas Bruno Alves e João Pereira solicitaram-no em ataques rápidos. Na defesa as ligações mais fortes são do lado esquerdo, com Pepe a ligar com Moutinho e Bruno Alves. Bruno Alves e Veloso procuraram preferencialmente William Carvalho.

A rede de acções do Gana mostrou uma forte ligação dos defesas laterais para os médios alas. Asamoah apresentou uma forte ligação com Mensah. Badu substituiu Muntari, realizando um padrão na circulação de bola para o corredor direito, para o defesa Afful e deste para o médio Atsu. Os dois alas ligam-se ao avançado Gyan sem reciprocidade, uma vez que é um jogador de finalização, mas com fraca precisão. O remate que acertou na baliza fez golo. A precisão dos jogadores portugueses foi bem maior do que a dos ganeses, tendo sido Cristiano Ronaldo o jogador que mais rematou à baliza.

No gráfico da intensidade de passes ao longo do tempo de jogo, verifica-se que os ganeses poucas vezes fizeram mais de seis passes seguidos, o que demonstra a grande apetência para explorar o contra-ataque. O golo do Gana surge de contra-ataque após recuperação de bola do lado direito, no meio campo (Gyan, 57’). O golo surge num momento em que Portugal praticamente não tem interacções.

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Os dois golos de Portugal surgem aquando das duas variações mais altas seguidas de intensidade de passe, quer na 1ª parte (aos 31’), quer nas duas variações mais altas sucessivas de intensidade de passe na 2ª parte (Ronaldo, 80’).

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Ao longo dos três jogos, a equipa de Portugal teve várias alterações de jogadores nos vários sectores:
1) na defesa: Pereira e Amorim à direita; Veloso, Coentrão e A. Almeida à esquerda; Pepe e Costa no centro;
2) no meio campo: Meireles e Amorim; Veloso e Carvalho;
3) no ataque: H. Almeida, Postiga e Éder;
4) na baliza: Patrício, Beto e Eduardo.

Estas alterações são expressas na dinâmica da equipa, pela ausência de interacções estáveis em muitos dos seus elementos. O padrão se pode verificar é precisamente entre os jogadores mais utilizados: Pereira-Moutinho-Nani.

Para a ligação da defesa ao meio-campo verifica-se a importância  de B. Alves a receber muitos passes e a ligar com Meireles/Veloso e Moutinho. Na exploração de situações de ataque, verifica-se a ligação entre os defesas laterais e Moutinho e deste para Ronaldo e Nani. João Moutinho foi muito procurado para circular a bola entre corredores, ligando-se fortemente aos dois laterais e aos dois médios alas. Éder foi mais procurado pelos defesas, indicando a procura de jogo directo para o ataque português. Manifestou também ligações com os jogadores posicionados mais à direita como é o caso de Moutinho e Nani.

A dinâmica de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede de acções. A rede é constituída por nós (jogadores posicionados aproximadamente como em campo) e ligações (setas) entre os nós. A análise da dinâmica da equipa implica que se incluam os jogadores substituídos (tempo de jogo à frente do nome), por isso mais de 11 jogadores podem fazer parte da rede. Do mesmo modo, jogadores que não tenham feito um mínimo de 3 passes podem não aparecer na rede e deste modo temos as ligações mais estáveis na dinâmica da equipa.

Projecto do Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa em parceria com o Programa Doutoral em Ciências da Complexidade (ISCTE-IUL e FCUL).

Coordenador
Duarte Araújo (FMH-UL)

Equipa
Rui Lopes (ISCTE-IUL e IT-IUL)
João Paulo Ramos (ISCTE-IUL e FEFD-ULHT)
José Pedro Silva (FMH-UL)
Carlos Manuel Silva (FMH-UL)