Vhils construiu uma cidade

Sem sair da rua, sem apagar os rostos dos que vivem na cidade, Vhils (aka Alexandre Farto) afirma-se, definitivamente, como artista, em Dissecção, no Museu da Electricidade, em Lisboa.

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No interior do Museu da Eletricidade, vêem-se bocados, partes de uma cidade. Uma cidade imaginária mas que borbulha lá fora. Uma cacofonia visual enervante, com momentos onde a contemplação dá lugar à vertigem
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É o artista português que mais trabalha na e com a rua

Alexandre Farto chega vestido com roupa de trabalho – há nódoas nas calças, poeira sobre a camisa – e arrancamos, sem demora, na direcção do Bairro do Rego onde fica o seu atelier. Foi o lugar escolhido para acolher a primeira parte da conversa, mas antes que as palavas comecem, o artista faz questão de fazer as apresentações.

Guia-nos pelo interior do edifício (a sede de uma antiga empresa de construção), descrevendo as salas. Aqui fica o escritório, com uma larga mesa e vários computadores, acolá o atelier propriamente dito, onde se fazem as peças, outra sala, mais escondida, serve de depósito dos materiais recolhidos na rua. E há espaços que guardam trabalhos de artistas amigos. Mas não se vê vivalma, as salas estão vazias. A equipa que rodeia e apoia Alexandre Farto mudou-se para o Museu da Electricidade, onde o alter-ego de Alexandre, Vhils, inaugura, a 4 de Julho, Dissecção.

É agora o artista português que mais trabalha na e com a rua que toma a palavra: Vhils. O que é Dissecção? Uma retrospectiva? “Não. A ideia foi fazer uma reflexão sobre a cidade como um organismo que se estende pelo mundo inteiro. Hoje há 50% da população a viver em espaços urbanos e essa era uma realidade que queria abordar no meu trabalho. Verifica-se um desenvolvimento acelerado e imparável, associado à necessidade de crescimento, mas, ao mesmo tempo, perdem-se, pelo caminho, muitas coisas”. Vhils não é maniqueísta. Garante que nesse processo nem tudo é mau, que existem aspectos positivos, mas a realidade, testemunhada em Lisboa e nas suas viagens impeliu-o a conceber um projecto que se confrontasse com mundo e, sobretudo, com a cidade. “Quis reflectir sobre ela. Daí o termo ‘dissecação’. Quero dividir o corpo [da cidade], identificar os seus órgãos, ver onde está a doença, o que pode provocar a sua morte”.

Contrastes

Já no interior do Museu da Eletricidade, vêem-se bocados, partes de uma cidade. Uma cidade imaginária mas que borbulha lá fora. Uma cacofonia visual enervante, com momentos onde a contemplação dá lugar à vertigem. Logo à entrada, duas colunas de televisores agitam-se no escuro. Sobre os ecrãs foram colocadas imagens de pessoas, ruas, edifícios, transportes públicos e privados. Criam o efeito de um zapping visual, a concentração é impossível. Diante das imagens e do som (concebido pelo rapper Chullage), há duas alternativas: ou a indiferença, de quem já não reage a estímulos, ou o passo rápido, em fuga. Mais à frente, irrompe uma imponente cidade de esferovite. Arranhas céus abespinham-se junto a outros arranha-céus. A escala razoável desta instalação e a impossibilidade de circular à sua volta parecem impedir ao espectador uma aproximação, mas Vhils aponta para um andaime. É preciso subir as escadas, para se ter uma vista geral.

“É uma peça sobre os contrastes que marcam e fazem uma cidade. Para vermos este trabalho em condições, é necessária uma certa relação entre a luz e a sombra. Procurei reproduzir aqui essa relação que tendemos a esquecer no dia-a-dia. Raramente se olha para as sombras que os edifícios novos fazem sobre a rua”.

Voltamos a circular pelo Museu. Não faltam obras que remetem para os projectos em que Vhils esteve envolvido com associações e comunidades de bairros de Paris, do Rio de Janeiro, de Lisboa ou Xangai. “Foram coisas que fiz nos últimos quatros anos e de alguma forma esta exposição é um prolongamento das preocupações que as motivara. A expansão das cidades, a uniformização dos lugares. Vais a qualquer cidade e encontras o mesmo tipo de comunicação, o mesmo tipo de publicidade, de organização urbana. Provavelmente, até, as mesmas políticas de urbanização ou de combate à pobreza. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que mundo se entende melhor hoje do que há 50 anos atrás, mas temos que reflectir sobre necessidade e o rimo deste crescimento que se está a fechar sobre as estruturas das comunidades. A questão é: até onde queremos ir em nome do nosso conforto?”.

Não tem dúvidas. O tema não está encerrado. “Claro que não. A sustentabilidade desse crescimento deve ser discutida. Somos formados pelo meio em que crescemos e vivemos. Eu vivi e vivo na Margem Sul. Lembro-me da minha zona ser ainda muito rural, com um ou dois prédios, e assisti ao boom da construção, vi a cidade a chegar e a transformar o espaço à minha volta. O facto de ter estado, depois, envolvido em projectos de associativismo, ajudou-me a perceber que esse desenvolvimento também tem aspectos positivos, mas é uma transformação violenta que dilui as diferenças. É desse processo que quero falar aqui.”

Rostos numa cidade

O que usa, o que faz Vhils para falar desse processo, destas transformações? “Não tem nada a ver com o graffiti, com a street art”, responde. “O que é? Não sei? Vim desse background, comecei a fazer graffiti com 13 anos, a participar em concursos. Não tenho vergonha de o assumir. Foi o que me deu a experiência, o que me deu um olhar diferente sobre as coisas, a vontade de fazer e participar, de intervir”. O passado de Vhils como artista urbano, autor de graffiti, já foi suficientemente comentado. Basta aceder ao seu site e consultar os artigos de jornais publicados nos últimos seis anos. Salienta-se agora o que provocou o clique, a passagem para outro contexto, a descoberta de outras necessidades. “Comecei a reflectir sobre o que era trabalhar no espaço público, o que era um muro, o que era um espaço expositivo.” O encontro, nos anos 80 e 90 com os vestígios dos murais políticos dos Pós-25 de Abril instigou essa viragem. “Remetiam para uma história que não conhecia, mas que me tinha afectado. E reparei que estavam queimados pelo sol, a cair de podres, que partilhavam as ruas com os billboards, com a publicidade. Era como se as paredes da cidade estivessem engordar”. A obsolescência brilhante que escorria dos edifícios, a acumulação de camadas e referentes visuais, a sobreposição de tempos e memórias, serviam como metáfora dos efeitos do desenvolvimento urbano. Acrescentar-lhes mais signos, mais imagens seria redundante. “Optei por não acumular mais coisas. Preferi descascá-las, trabalhá-las como fragmentos do passado. Só lhes acrescentei rostos anónimos, pois essas camadas afectaram a vida das pessoas nas cidades”.

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A equipa que rodeia e apoia Alexandre Farto mudou-se para o Museu da Electricidade, onde o alter-ego de Alexandre, Vhils, inaugura, a 3 de Julho, Dissecção

Os rostos. O que representam os rostos que nesta exposição aparecem a cada esquina, nas paredes, nas peças de madeira, de papel ou de ferro? “Resultam de um questionamento sobre a identidade, sobre o modo como ela é diluída ou é afectada pela cidade. Remetem também para a identidade das cidades. Ligam os espectadores às suas cidades e às comunidades das cidades. São rostos anónimos”. A intenção de Vhils não é obscura. Mesmo nas obras, onde os rostos parecem desaparecer na abstracção, nos jogos entre elementos visuais (da publicidade, das formas da arquitectura e do mobiliário urbano), eles perduram e não apenas nas paredes. Recordem-se as intervenções realizadas no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, em 2012. “Com as Olimpíadas e o Mundial, as autoridades começaram a deslocar as pessoas do morro para fora da cidade, desmembrando as comunidades. Propus-me identificar as pessoas que lá viviam. Procurei-as, entrevistei-as e cravei os seus rostos no que restava das casas. Chamei a atenção para a ligação entre as pessoas e a cidade, e os meios de comunicação de social e as autoridades acabaram por intervir no processo de outra maneira.”

Saímos do museu para olhar a pintura com que o artista cobriu um dos silos da antiga instalação eléctrica. E aproveitamos o momento para interrogar Alexandre Farto sobre a recente cobertura, em Alcântara, de dois murais de graffiti por telas publicitárias do Centro Comercial Colombo. “O contrário nunca aconteceria”, comenta. “Nem se faria algo semelhante aos painéis do Abel Manta [na Avenida Calouste Gulbelkian] É uma discussão muito interessante, que deve ser levantada”. Faz uma pausa, enquanto olha, de relance, o silo e desabafa: “Será que as pessoas querem toda esta quantidade de publicidade ou de arte urbana? Não sei, se calhar não querem”. 

Notícia corrigida a 2 de Julho: alteração da data de inauguração da exposição e grafia do apelido "Gulbenkian"