Um intruso convidado na Agência Espacial Europeia

Ao longo de dois anos, o fotógrafo Edgar Martins teve acesso privilegiado e pioneiro a dezenas de instalações da ESA que nunca tinham sido matéria-prima artística. A Fundação Gulbenkian, em Lisboa, inaugura A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito, uma exposição onde o espaço é protagonista.

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Luva de fato espacial, Centro de Treino de Cosmonautas, Cidade das estrelas, Rússia Edgar Martins
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Interior do maior simulador espacial da Europa, Noordwijk, Holanda Edgar Martins
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Câmara de testes electromagnéticos Maxwell, Noordwijk, Holanda Edgar Martins
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Plataforma de reabastecimento de naves espaciais, Kourou, Guiana Francesa Edgar Martins
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Cabos de alimentação das lâmpadas de simulador espacial, Noordwijk, Holanda Edgar Martins

A carta que Edgar Martins escreveu à Agência Espacial Europeia no final de 2011 tinha seis páginas. O entusiasmo perante a possibilidade de um dia poder fotografar as instalações de uma das mais importantes instituições ligadas à exploração espacial tolheram-lhe o poder de síntese. E a missiva foi longa. Quando a enviou, o fotógrafo português radicado em Londres teve receio que nem chegassem a lê-la até ao fim. Mas do outro lado veio um “sim”.

E, passados alguns meses, as portas da ESA abriram-se pela primeira vez (quase) sem restrições. Não foi só a Edgar Martins – abriram-se, sobretudo, a um olhar artístico e crítico como até então nunca tinha acontecido. Houve carta branca para fotografar instalações secretas, plataformas de lançamento, centros de treino e de simulação, laboratórios, equipamentos, maquinaria de todo o tipo, desde instrumentos microscópicos à câmara de vácuo do maior simulador espacial da Europa, instalado na Holanda.

Na apresentação da exposição “A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito”, que abre hoje ao público na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Edgar Martins (Évora, 1977) não escondeu a surpresa com que recebeu a autorização para trabalhar não só nas instalações que a ESA tem espalhadas pelo mundo inteiro mas também em muitos laboratórios, centros de testes e empresas privadas que com ela colaboram.

O impulso definitivo para desafiar a ESA a deixá-lo construir “a mais completa descrição de sempre” de uma organização científica surgiu depois de Edgar Martins ler o artigo de um director da Agência. Um dos desejos manifestados nesse texto era o de estabelecer “um diálogo mais directo e assíduo” entre a ESA e as pessoas. O espaço, as ficções à volta dele e a sua exploração andaram sempre na cabeça de Edgar Martins, mas esta frase foi a pedra de toque para o fotógrafo avançar. “Expliquei-lhes que o futuro da exploração espacial exigia um diálogo contínuo com a cultura e a sociedade, no qual as artes, e em particular a fotografia, poderiam vir a desempenhar um papel fundamental”. Durante cerca de dois anos, Edgar Martins visitou mais de 15 instalações diferentes em todo mundo, desde a Rússia até à Guiana Francesa, e teve acesso a espaços onde as câmaras fotográficas nunca tinham entrado, pelo menos acompanhadas por alguém com a intenção de “adoptar uma abordagem descritiva e simultaneamente especulativa” desses lugares. O propósito passava por documentar “o valor científico e histórico de muitos destes espaços” e, ao mesmo tempo, “desconstruir esses lugares e os objectos que deles fazem parte” de forma a revelar “as suas derivações poéticas, as suas ressonâncias culturais e ideológicas”. É na expressão desta “dupla face” que a curadora Leonor Nazaré vê a relação de Edgar Martins com a fotografia, que ora demonstra “um compromisso com a exactidão e a verosimilhança muito grande”, ora causa “uma estranheza quase poética”. Na apresentação aos jornalistas, a curadora da exposição na Gulbenkian, que reúne quase 60 imagens e que pode ser visitada até ao dia 8 de Setembro, socorreu-se de uma frase do fotógrafo onde esta postura ganha relevo: “Sou muitas vezes atraído por espaços onde posso dar prioridade à memória poética e não apenas a topografias”.

Logo na primeira sala da exposição, essa procura pelo lado enigmático das imagens (por mais científico que seja o seu conteúdo, como é o caso) é bem evidente quando vemos, por exemplo, a reprodução de um módulo circular da Estação Espacial Internacional (EEI) que podia muito bem ser o mecanismo de um relógio de bolso. Ou quando vemos as entradas de dois canais acústicos gigantes de um centro de testes de som que fazem lembrar as esculturas de formas curvilíneas do artista indo-britânico Anish Kapoor. Edgar Martins usa todos os recursos à disposição para, em certa medida, nos lançar no vazio, na confusão. Aquilo que poderia ser um reflexo neutral no modelo circular do módulo da EEI é, na verdade, a tentativa de recriar uma luminosidade espectral muito particular. “Todos os astronautas com quem falei dizem que a coisa mais extraordinária que sentem no espaço é a luminosidade. Nesta imagem da EEI tentei recriar alguma dessa luz.”

Em paralelo às imagens de espaços amplos e carregados de linhas de força, Edgar Martins (vencedor do prémio BESPhoto em 2009) isolou muitos objectos que fazem parte do quotidiano dos cientistas e investigadores ligados à ESA, bem como aqueles que fazem parte da sua história. Em muitas destas imagens, como a luva de um cosmonauta, há alusões à presença humana, elemento que muito raramente aparece nas fotografias de Edgar Martins. Nesta luva, explicou o fotógrafo, há “qualquer coisa de melancólico”, a ideia de “se ver a forma da mão mas não se ter propriamente a mão”. Estes dois recursos de estilo, um a olhar para o todo, outro a olhar para o particular, são apenas um dos muitos traços que ligam de maneira umbilical esta exposição e o trabalho anterior do fotógrafo, “The Time Machine”, um ensaio sobre as centrais hidroeléctricas em Portugal que lidava com conceitos e utopias tecnológicas dos anos 60 e da relação do homem e com as máquinas, mostrado em 2011.

Em conversa com o PÚBLICO, depois de uma visita guiada pela exposição, Edgar Martins confessou que o principal desafio ao longo destes dois anos de trabalho não foi nem conceptual, nem técnico – foi operacional e, por vezes, diplomático. Isto porque apesar de todas as autorizações e sinais verdes, houve que lidar com alguns imprevistos e um ou outro conflito de interesses, como aconteceu sobretudo nas instalações da ESA na Guiana Francesa, onde o fotógrafo confessa que foi difícil fotografar, ao ponto de ter que pedir ajuda à sede da Agência. “Foi preciso convencer algumas pessoas e explicar exactamente o que pretendia e o que estava a fazer.” É que, disse Leonor Nazaré, em muitos destes lugares, Edgar Martins não deixou de ser “um intruso convidado”. O fotógrafo concordou e acrescentou: “O fotógrafo é sempre um perpétuo intruso, por mais bem-vindo que seja”.