O perigo do Gana vem dos corredores laterais

Equipa académica analisou o último adversário de Portugal na fase de grupos.

Fotogaleria
As movimentações mais comuns na selecção do Gana
Fotogaleria
Como jogou o Gana na partida frente à Alemanha

Na figura “rede de acções” do Gana-Alemanha, vemos as acções realizadas com a bola pelos jogadores, tais como passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos e cruzamentos. O tamanho dos nós (jogadores) é definido pelo número de jogadores com que interage cada jogador. A largura das ligações aumenta em função do número de acções realizados entre dois jogadores. Os nós mais amarelos significam menor precisão nas acções, mais vermelho indica maior precisão.

A rede de acções do Gana mostra que os defesas laterais são os elementos que realizaram ligações mais fortes, no caso do corredor direito entre Afful e Atsu e no corredor esquerdo a ligação Asamoah-Mensah. Estes jogadores fazem a ligação com os jogadores atacantes. Os dois corredores são ligados sobretudo por Muntari, havendo uma tendência de circular a bola da direita para a esquerda e pouco no corredor central em direcção à baliza adversária. Os golos do Gana surgiram de um cruzamento da linha lateral e de um contra-ataque.

A rede da Alemanha tem uma densidade superior à do Gana. Construiu o jogo de trás para a frente, com Lahm a jogar perto dos dois defesas centrais e a ser acompanhado pela subida dos laterais. Lahm apresenta-se como o jogador que dinamiza, pelo elevado número de interacções, a segunda fase de construção do ataque ligando a defesa ao meio campo. Kroos continua a ser o jogador a fazer a ligação entre o meio-campo e o ataque, sendo ainda procurado para a circulação de bola de um corredor lateral para outro (ligação com Khedira e Ozil). Neste jogo a Alemanha teve preferência em utilizar os jogadores do corredor esquerdo, em comparação com o jogo com Portugal em que utilizaram mais o corredor direito (tal como fizeram os EUA). Gotze e Muller são os jogadores alemães com mais remates e simultaneamente com maior precisão (à baliza) e apresentaram ligações com os elementos do meio-campo superiores às ligações do Gana entre médios e atacantes, demonstrando posse de bola em zona do campo mais avançadas e centrais. Os golos surgiram de um canto e de um cruzamento em diagonal dentro do corredor central. O Gana rematou menos do que a Alemanha, mas teve mais jogadores a rematar à baliza. Em relação ao jogo Gana-EUA, os ganeses neste segundo jogo apresentaram menos interacções ao longo do jogo.

Em termos da intensidade das interacções ao longo do tempo do jogo, a Alemanha foi dominante praticamente em todo o jogo, mostrando mais ligações antes de marcar o primeiro golo e antes de ganhar o canto que originou o segundo golo (Gotze 51’ e Klose 71’). Mas é interessante constatar, no caso do Gana, que apresenta uma fase em que manifesta superioridade de interacções da qual acontece o primeiro golo (A. Ayew 54’). Já o segundo golo (A. Gyan 63’) surgiu de um contra-ataque num momento em que a Alemanha apresentava maior intensidade de interacções que o Gana.

Na rede de acções que sintetiza os dois jogos realizados neste Mundial pelo Gana, realça-se a ligação forte do triângulo: Mensah-Asamoah-Muntari. Estes dois últimos ligam-se ao extremo esquerdo A. Ayew, o qual tem pouca precisão, não dando seguimento a muitas jogadas. Em termos de precisão nas interacções (menos perdas de bola e passes falhados), destaca-se o defesa esquerdo Asamoah, o médio Rabiu e o extremo Atsu. Ambos os corredores laterais são muito usados no ataque, com especial destaque para o corredor direito. Os defesas laterais ligam-se directamente ao avançado centro Gyan. Por outro lado, os dois médios Muntari e Rabiu ligam-se pouco. No jogo com Portugal, Muntari não irá jogar devido a acumulação de cartões amarelos.

PÚBLICO -
Foto

A dinâmica de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede de acções. A rede é constituída por nós (jogadores posicionados aproximadamente como em campo) e ligações (setas) entre os nós. A análise da dinâmica da equipa implica que se incluam os jogadores substituídos (tempo de jogo à frente do nome), por isso mais de 11 jogadores podem fazer parte da rede. Do mesmo modo, jogadores que não tenham feito um mínimo de 3 passes podem não aparecer na rede e deste modo temos as ligações mais estáveis na dinâmica da equipa.

Projecto do Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa em parceria com o Programa Doutoral em Ciências da Complexidade (ISCTE-IUL e FCUL).

Coordenador
Duarte Araújo (FMH-UL)

Equipa
Rui Lopes (ISCTE-IUL e IT-IUL)
João Paulo Ramos (ISCTE-IUL e FEFD-ULHT)
José Pedro Silva (FMH-UL)
Carlos Manuel Silva (FMH-UL)