Regressa um dos mais carismáticos circuitos portugueses a Vila Real

O 44º Circuito Automóvel de Vila Real vai duplicar a população da cidade só num fim-de-semana.

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Adriano Miranda

Durante várias décadas, milhares de pessoas visitavam anualmente Vila Real para assistirem às corridas de automóveis, que se tornaram, segundo o presidente da câmara, Rui Santos, “um dos maiores eventos de Trás-os-Montes e Alto Douro” até terminarem em 1991, depois de uma sucessão de acidentes graves. O anterior executivo retomou o circuito em 2007, mas o evento só se realizou até 2010.

Quatro anos depois da realização do último Circuito Automóvel de Vila Real, o espectáculo volta à pista transmontana que, embora não mantenha o trajecto original, continua a ter um certo carisma entre as provas de referência que se realizam em Portugal. O regresso das corridas de automobilismo à cidade transmontana foi uma das bandeiras da campanha eleitoral do actual presidente da câmara, eleito nas últimas autárquicas, que afirmou que “mais de que uma promessa cumprida trata-se de um sonho realizado para a maioria dos vila-realenses que tanto se identificam com as corridas de Vila Real. As corridas fazem parte do ADN dos vila-realenses", explica.

As corridas arrancaram em 1931, tendo sido as primeiras provas que se realizaram em Portugal, constituindo, assim, um marco para o mundo automóvel. O circuito foi criado por Aureliano Barrigas que, em conjunto com um grupo de amigos, escolheu um traçado de 7150 metros desde o centro de Vila Real até ao Palácio de Mateus. As curvas rápidas e descidas vertiginosas constituíam um verdadeiro desafio aos limites de pilotos e máquinas. Gaspar Sameiro, irmão do conhecido piloto Vasco Sameiro, foi o primeiro vencedor. Em 1934 arrancaram as corridas de motos e só em 1950 a prova alcança uma vitória estrangeira, do italiano Piero Carini.

Em 1958 foi a vez de Stirling Moss entrar na história do circuito, mas o período áureo das corridas de Vila Real deu-se nos finais dos anos 60 e início dos anos 70, com a chegada dos Fórmula 3 e dos Sport-Protótipos, que colocaram Vila Real no “mapa-mundi” dos motores. Mais tarde, por ali passaram nomes como David Piper, Jorge de Bagration, Vic Elford, Ronnie Peterson e, nas motos, Angel Nieto, Carl Fogarty e Joey Dunlop.

A 20ª edição do circuito, disputada em 1973, foi a última com projecção internacional pois a partir daí, as corridas passaram a contar apenas com corredores nacionais. Nos automóveis, a última edição do Circuito Internacional de Vila Real foi ganha por Carlos Gaspar, ao volante de um Lola T290. Mais tarde, depois de um grave acidente, o Circuito fecharia portas em 1991, reaparecendo em 2007 com uma nova versão, mais adaptada às exigentes normas de segurança.

Agora, depois de uma nova paragem, os vila-realenses mostram-se satisfeitos com o regresso das corridas, lembrando a importância que este evento tem para a cidade. “Já era esperado há muito tempo. Todo o vila-realense ama o desporto automóvel. Está no sangue de cada um de nós. Eu tenho 48 anos e vejo corridas em Vila Real desde que nasci”, afirmaAntónio Guerra. Para Bernardo Andrade, do departamento de comunicação da VC POWER Team, equipa do piloto Manuel Pedro Fernandes, “apesar de ser necessário um enorme esforço quer logístico quer financeiro, as corridas são uma tradição que vale a pena manter. A cidade vive, nestes fins-de-semana de corridas, dias únicos”. Recorde-se que durante a campanha do candidato Rui Santos foi realizado um inquérito que concluiu que, dos cerca de mil inquiridos, 81% defendiam o regresso das corridas.

O Circuito Automóvel de Vila Real, que decorre este fim-de-semana, entusiasma os pilotos e o público pela velocidade da pista e pretende ser uma oportunidade de negócio para a cidade. “Esperamos mais de 100 mil pessoas em Vila Real este fim-de-semana. O concelho na sua totalidade duplica. É um evento de uma dimensão gigantesca”, garante José Silva, da Associação Promotora do Circuito Internacional de Vila Real (APCIVR).

“Vila Real tem de se afirmar no panorama nacional. Para isso tem de apostar na diferenciação e na criação de uma marca própria. Como é evidente isso é fundamental quer para a atracção de investimento e desenvolvimento de actividades económicas quer como cartaz de atracção turística”, adianta Rui Santos. A restauração da cidade e dos concelhos vizinhos prepara-se para uma grande enchente. De acordo com o autarca, " a procura ultrapassou todas as expectativas, os hotéis e os restaurantes já estão praticamente esgotados", continua.
Neste fim-de-semana são esperados cerca de 200 pilotos, alguns dos quais estrangeiros, espalhados pelas oito provas, com destaque para o Historic Endurance. “O Historic Endurance será talvez a prova mais emblemática. Vai trazer de volta alguns dos míticos carros que participaram nos anos de ouro na nossa cidade, nas décadas de 60 e 70”, salientou José Silva. Os pilotos vão correr para o Campeonato Nacional de Velocidade, o Campeonato Nacional de Clássicos, o Classic Super Stock, o Super Seven by Kia, o Troféu 500 Abarth, o Challenge Desafio Único, o Single Seater Series e o Historic Endurance.

Manuel Pedro Fernandes, filho do piloto Manuel Fernandes, vai agora regressar à competição e correr em duas provas, uma para o Campeonato Nacional de Velocidade e outra para o Troféu 500 Abarth. Já conta com uma longa carreira no Campeonato Nacional de Fórmula Ford e no Campeonato Nacional de Velocidade e alcançou o terceiro lugar na geral em 2007. “Já só faço uma prova por ano, agora em Vila Real. Sinto uma grande alegria em poder voltar a correr aqui por ser na minha terra, por o meu pai ter corrido cá tantos anos e por causa do público, sinto-me quase na obrigação moral de o fazer”, diz.

Levar Vila Real além-fronteiras é um dos grandes objectivos da autarquia, que pretende que as corridas se realizem todos os anos e que a sua internalização possa ocorrer a partir de 2015. "Vamos continuar a investir na segurança do circuito no sentido de que ele seja homologado para provas internacionais", garante Rui Santos. Para melhorar as condições, o município está a preparar uma candidatura a fundos comunitários no valor de 500 mil euros, onde se inclui a adaptação de um espaço para paddock, mas que servirá também para a realização de outros eventos.

O 44º Circuito Automóvel de Vila Real vai custar à autarquia cerca de 125 mil euros.