Retratos de papel. Deus está no detalhe

35 anos de política, cultura, desporto e sociedade nos retratos de Chema Conesa

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O Palácio da Moncloa, sede do Governo espanhol, está às escuras. Apenas uma janela se ilumina para revelar Felipe González encostado a uma parede branca, o primeiro socialista a chefiar um Governo da Espanha democrática. O retrato de González aparece misturado entre mais de cem. Dá-se por ele porque é um corpo quase estranho no meio de fotografias que recorrem a artifícios de cenário e de iluminação, traços comuns na obra de Chema Conesa (ainda que sem os excessos de Annie Leibovitz).

Retratos de Papel pode bem vir a ser uma das exposições mais mediáticas do PHotoEspaña 2014. A culpa é partilhada entre retratados — figuras imponentes da cultura, das finanças, da política, do desporto — e quem os retrata, um repórter que esteve na fundação do diário El País e que pela primeira vez expõe o que sempre viu impresso em papel de jornal.

É Conesa quem recebe os jornalistas na galeria Alcalá 31. Estar do outro lado da barricada não lhe tira o sentido de humor: “Sabem que a economia de meios e a indústria nos dá pouco tempo [para trabalhar]. Por isso, é fundamental ter uma ideia, uma intenção que, sabemos, terá de ficar implícita editorialmente”, e sorri mal acaba de falar. A seguir, vira-se para Ramón Masats para o apresentar como cúmplice em Retratos de Papel, por o ter ajudado na selecção. São amigos separados por duas gerações e modos muito diferentes de fazer e pensar a fotografia. Masats está com 83 anos e escusa-se a muita conversa. Para perceber o que os une e os separa é preciso ir até à página 241 do catálogo que La Fabrica fez para acompanhar esta exposição. E aí temos uma entrevista a dois, com Conesa a defender a técnica como valor supremo e Masats a questioná-lo se alguma vez se deu ao trabalho de revelar as suas próprias fotografias.

Conesa-o-retratista vê-se até obrigado a lembrar que em 35 anos também fez fotografia de rua, Parlamento, manifestações.

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Trupe de Pedro Almodóvar (Madrid, 1996) e Severo Ochoa (Madrid, 1989)

O legado de Conesa, como lembra a escritora Rosa Montero, sua colega no El País e que assina um texto no catálago, “é esse homem-orquestra, esse híbrido, um artista renascentista capaz de fazer o que houver para fazer”. E exímio na arte do retrato. O que mais lhe custou (e quase lhe custou a vida) foi o retrato de Sandro Pertini. A data é 7 de Dezembro de 1983. Conesa e Montero eram os enviados do El País a Roma para entrevistarem Pertini, então Presidente de Itália. O voo estava programado para as 8h30 mas à última hora resolveram sair mais tarde de Madrid e mudaram-no para as 12h30. O avião da Iberia das 8h30 chocou com um DC-9, incendiou-se, o aeroporto de Barajas fechou e dos 93 passageiros sobreviveram 42 feridos graves. Até hoje, a única fotografia que Conesa tem em casa é a de Sandro Pertini.

Na Alcalá 31, os 109 retratos de Conesa representam um fotojornalismo que tem a linguagem muito própria dos anos 90, quando os jornais diários começaram a apostar nas suas edições de fim de semana. Justifica o fotógrafo: “Perceberam que tinham de entreter o leitor”. É nessa filosofia que se enquadram os retratos do realizador Pedro Almodóvar e sus chicas; de Ângela Molina e Paco Rabal; de Alejandro Aménabar; de Penélope Cruz (antes da sua descolagem para Hollywood). São clássicos na iluminação e no enquadramento, coerentes na linha de fotografar de Conesa. Mais supreendente é a série que faz em 2000 (Sara Montiel, Fernando Savater, Nacho Cano…), impressas como negativos queimados e sem artíficios de cenário que podem distrair do olhar dos retratados.

Conesa dispõe de dois pisos para documentar a Espanha da imprensa escrita, das grandes entrevistas, dos perfis, das biografias. Fizeram, na sua larga maioria, as capas do El País Semanal e El Mundo Magazine. Pela primeira vez, edita-las ele próprio em livro. “Sinto-me um velho”, graceja.

Retratos de Papel está na Alcalá, 31 até 27 de Julho (www.madrid.org)