Arissa, La sombra y el fotógrafo. No lugar da arte

160 fotos na primeira exposição antológica de uma referência da vanguarda espanhola

Sem título, 1930-36. Além da exposição, a Telefónica promove workshops, palestras e um concurso Instagram, tudo em torno da fotografia de Arissa
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Sem título, 1930-36. Além da exposição, a Telefónica promove workshops, palestras e um concurso Instagram, tudo em torno da fotografia de Arissa

O que servia de estímulo visual para Antoni Arissa: pipeta no gabinete de um químico, compasso e pinça, letras para a composição a chumbo, caixa de graxa, chapéu pendurado no bengaleiro. O fotógrafo amador que nasceu em 1900 e arrumou a máquina aos 36 anos, com o estalar da Guerra Civil, merece pela primeira vez uma antológica, “o elo perdido que faltava para contar a história da arte de vanguarda espanhola”, justificam os comissários Rafael Levenfeld e Valentín Vallhonrat.

No terceiro piso da Fundación Telefónica há dois Arissa para descobrir. O pictorialista, que usava paisagens com personagens lá dentro — quando não as próprias filhas, e teve quatro —, que homenageava o trabalho campestre e o despontar do discurso feminista. E o conceptual, exímio na composição gráfica, na geometria do padrão, na experiência com a luz, naplongée (impossível não ver aí a mão de Moholy-Nagy e a linguagem da Bauhaus).

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A fotografia não lhe dava de comer — trabalhou sempre na tipografia da família — mas valeu-lhe prémios, participações em festivais e edições especiais das revistas Art de la Llum e El Progreso Fotográfico. É a entrevista de Arissa que faz a capa da Progreso Fotográfico em 1928 que se expõe também em vitrina. Excerto: “Assim… está muito bem. Quietos por um momento. Ah! Mexeu-se. Vou repetir mas tem de ter presente que a está a conquistar. Diga-lhe frases ternas… chore! Para ver o que acontece à expressão dos olhos”. Sim, o Arissa-pictorialista media por antecipação o cenário desejado.

É quando a câmara se desloca do campo para o ambiente urbano que somos surpreendidos. Explica um dos comissários: “É quando se converte num fotógrafo experimental”. É quando tenta trazer para a sua produção o lugar de género artístico. E vemo-lo a substituir personagens de carne e osso por objectos que escolhe com minúcia, deixando para trás o tom nostálgico e optando por composições visuais próximas da perfeição. Aprodução de Arissa esmoreceu nos anos da guerra e esteve à beira de cair na efemeridade. Uma exposição em 1990 (Las Vanguardias fotográficas en España) recuperou meia dúzia de cópias e aí começou o processo de redescoberta, que culmina nesta antologia com 160 fotografias, algumas raríssimas cópias em papel que o próprio fez à época.

Arissa. La sombra y el fotógrafo pode ser vista até 14 de Setembro da Fundación Telefónica (www.fundacion.telefonica.com