Reportagem

“Eh, pá já chega de troika, desabafou-se em bom português entre alemães

Adeptos alemães e portugueses viram o jogo nos jardins do Instituto Goethe, pequeno para tanta gente. Mas a emoção dos portugueses foi traída pelo futebol da equipa alemã

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A festa foi alemã Nuno Ferreira Santos

No acolhedor jardim no interior do Instituto Goethe em Lisboa perto das 16h, fazendo jus à boa pontualidade alemã, famílias, grupos de amigos e membros da embaixada da Alemanha já se encontram sentados na esplanada e aguardam calmamente pelo início do Alemanha-Portugal, que começa uma hora depois.

Vão pedindo cerveja Veltins, marca alemã, e a acompanhar trocam os conhecidos tremoços por Pretzel e pelas famosas salsichas no pão. Como está muito calor e há poucos locais com sombra, vão também partilhando o protector solar.

Stefan Glasmaches, estudante alemão, a tirar uma pós-graduação na Universidade Clássica de Lisboa, é também árbitro amador nos tempos livres. Escolheu este local para ver o jogo com os amigos, porque dá a sensação de estar “em casa”. Contou ao PÚBLICO que era um dos árbitros auxiliares durante o controverso jogo amigável, disputado na Alemanha em 2012, entre o Benfica e o Düsseldorf em que Luisão, capitão do Benfica, foi expulso por alegadamente ter agredido o árbitro. À pergunta: que jogadores de Portugal conhece, para além de Ronaldo? Respondeu “Luisão”, que por acaso é brasileiro.

Com o aproximar do jogo, o jardim vai-se tornando demasiado pequeno para tantas pessoas, principalmente alemães. Também há muitos portugueses. Como Liliana Bento, jovem enfermeira de 25 anos. Ela e as suas amigas não se cansam de cantar por Portugal e por Ronaldo, contrariando a passividade alemã. Liliana acabou o curso de enfermeira há três anos e desde então nunca conseguiu trabalhar na sua área. Está a tirar o curso de alemão neste instituto para poder ir trabalhar para um hospital em Munique. “Eu e as minhas amigas estamos a tirar o curso de alemão e vamos todas trabalhar para lá”, conta apontando para as seis amigas.

Na mesa onde estão sentados Stefan Glasmaches e os amigos passa uma folha onde se pode apostar no resultado do jogo — no fim quem acertar ganha uma cerveja. Dos 19 inscritos, apenas duas pessoas apostaram na vitória de Portugal, uma delas o repórter. A outra chama-se Dorothea, trabalha “na embaixada alemã e gosta muito de Ronaldo”, explica um amigo de Stefan.

O jogo é transmitido no ecrã gigante por um canal de televisão alemão. Apesar da esmagadora maioria ser alemã, o hino germânico não é cantado por todos e os que o fazem é de forma descontraída. Segue-se o hino português e, para grande espanto da maioria dos alemães, o jardim é tomado de assalto pelos portugueses que levantados, cantam-no efusivamente.

O jogo começou muito dinâmico, o que fez com que todos os presentes estivessem bastante expansivos no apoio às respectivas equipas, até depois do penálti convertido pela Alemanha. Só após a expulsão de Pepe é que a situação se tornou desequilibrada, com os alemães, mesmo cantando pouco, visivelmente contentes com o sentido da partida. A primeira parte termina com três golos de vantagem para a equipa de Low e ao fundo do jardim e em bom português ouve-se: “Eh, pá, já chega de troika.”

A segunda parte decorre “em velocidade de cruzeiro”, devido ao resultado. Tempo para se confraternizar e pôr a conversa em dia.

No final da partida os alemães espalhavam optimismo. “Este ano temos uma equipa muito forte e muito bem organizada”, disse Ulrich Bradenburg, embaixador da Alemanha em Portugal, ao PÚBLICO. Admitiu depois que a expulsão de Pepe ajudou a que o resultado fosse “tão desnivelado”. Ulrich confidenciou que não liga muito a futebol. “A minha mulher gosta muito mais do que eu. Espero continuar a ver aqui os jogos e com sorte mais um com Portugal”, concluiu o embaixador.

Oxalá, era sinal que Portugal ia à final contra a Alemanha.

Texto editado por José J. Mateus