Entre o real e a aparência

Em Guimarães, duas grandes antológicas contam-nos histórias da fotografia: de um lado, Carlos Relvas; do outro, Ernesto de Sousa. Ambos se serviram da fotografia para interrogar o real — e descobriram que essa interrogação não tinha fim

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Um, Carlos Relvas, viveu e trabalhou no século XIX, a sua obra dando hoje a ver-se simultaneamente como apropriação do mundo e de uma nova técnica, a fotografia; o outro, Ernesto de Sousa, foi uma das personagens mais fascinantes do século XX português, multifacetado investigador, curador e, como ele próprio dizia, “operador estético” que encarou a fotografia como instrumento documental, ainda que submetido a imperativos artísticos. Cronologicamente muito distantes entre si, os dois artistas são os grandes temas das novas exposições do Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), Carlos Relvas / Um Homem Tem Duas Sombras: Paisagens, (Auto)Retratos, Objectos e Animais Ernesto de Sousa e a Arte Popular: Em torno da exposição Barristas e Imaginários — ambas abertas até 6 de Julho em Guimarães.

Nuno Faria, director artístico do CIAJG, salienta os pontos de contacto entre estas duas obras e a de José de Guimarães: em todas encontramos abertura a diferentes formas artísticas. A fotografia, técnica novíssima de que Carlos Relvas é um dos pioneiros em Portugal, e a escultura popular, que nunca até meados do século XX tinha sido considerada arte e que Ernesto de Sousa inventaria exaustivamente, encontram paralelo nas múltiplas colecções que José de Guimarães tem reunido ao longo dos tempos e que encontraram lugar no CIAJG. Das máscaras africanas à arqueologia oriental, da arte contemporânea portuguesa a escolhidos artistas de épocas passadas, a criatividade e os interesses do pintor português desdobram-se em múltiplas direcções que parecem alimentar e interrogar a sua obra plástica. A montagem da colecção permanente do museu, de resto, associa objectos de artesanato à escultura de Rui Sanches ou aos trabalhos de muito jovens artistas como Francisco Queimadela e Mariana Caló. E é com este objectivo de alargar os sentidos possíveis de leitura de uma obra de arte que tanto Carlos Relvas como Ernesto de Sousa ou os escultores tradicionais do Norte têm, aqui, cabimento.

Carlos e os espectros

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A história de Carlos Relvas tem contornos de novela camiliana. Há nela um pouco de tudo: talento, fortuna, uma filha renegada, a suspeita de um crime de honra, um filho (o republicano José Relvas) que se zanga com o pai e, dizem na Golegã, sua terra natal, uma maldição que se perpetua de geração em geração. Como sempre sucede nestes casos, não se sabe bem hoje o que releva da verdade histórica e o que não passa de ficção. Certo é que Carlos Relvas se apaixonou pela fotografia muitos poucos anos depois da sua invenção, não se poupando a esforços nem a despesas para se munir dos mais modernos aparelhos para a época. A Casa-Estúdio Carlos Relvas é ainda hoje exemplo magnífico de um estúdio fotográfico do século XIX. Aproveitando as então recentes tecnologias do ferro e do vidro, possuía as melhores condições de iluminação e espaço para a prática da fotografia.

E Carlos Relvas tirou centenas e centenas de fotografias. As obras que vemos em Carlos Relvas/Um Homem Tem Duas Sombras: Paisagens, (Auto)Retratos, Objectos e Animais são, na sua maioria, impressões recentes das chapas primitivas, completadas numa segunda sala com alguns originais, através dos quais é possível ver o trabalho de enquadramento que Relvas realizava antes da tiragem definitiva. Mais interessante ainda é a selecção que os comissários, Nuno Faria e Luís Pavão, realizaram. Agrupando as imagens em quatro núcleos, transportam-nos para aquilo que a fotografia dá a ver para além do visível: a encenação, o adereço, o cenário, tudo aquilo, enfim, que pretende dar a ilusão do real. 

Há nesta exposição uma fotografia magnífica que nos mostra Carlos Relvas a cavalo, de perfil, montado em frente a um muro sobre o qual está representada uma paisagem exótica. A imagem destinava-se sem dúvida a um enquadramento posterior que destacasse animal e cavaleiro, e que retirasse dela tudo o que deixasse ver a encenação forçada. A fotografia faz-se aqui documento do real, é certo, mas também modo de o transformar, deixando perceber a qualidade fantasmática da sua concretização. O mesmo sucede nas dezenas de retratos em que conseguimos vislumbrar os espectros dos assistentes que seguravam a tela de fundo sobre a qual os retratados se imobilizavam, provavelmente tremendo-a para que a imagem daí resultante se aproximasse mais da abstracção do cinza puro do que da impressão de um qualquer tecido. São estes efeitos que hoje nos parecem significantes à luz da nossa condição contemporânea, e que possibilitam a aproximação ao trabalho de Ernesto de Sousa aqui recriado.

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Ernesto e os quatro ingénuos

Não foi Ernesto de Sousa descobriu os barristas tradicionais portugueses. Geralmente, aponta-se o nome do pintor António Quadros, que se encantou com o trabalho de Rosa Ramalho, Mistério, Franklin Vilas Boas e Quintino Vilas Boas Neto ressalvando a sua originalidade no seio dos códigos estritos da prática artesã. A exposição do CIAJG, que revisita uma outra, de 1961 — Barristas e Imaginários, na Galeria Divulgação, em Lisboa —, actualiza não só a obra destes quatro autores como a investigação levada a cabo por Ernesto de Sousa em torno da expressão artística “ingénua”, como preferia chamar-lhe. 

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Nesta investigação, a fotografia adquire um lugar de primazia. Tal como com Carlos Relvas, Nuno Faria preferiu reproduzir as imagens originais com a indicação dos cortes a efectuar, em vez da simples reprodução da imagem já impressa. A obra destes quatro artistas, presente na exposição graças à colaboração de diversas instituições públicas e privadas, possui com efeito características próprias que a aproximam, aos olhos do erudito, da Arte Bruta ou das expressões artísticas africanas, que, recordemos, José de Guimarães colecciona. Numa das peças de Franklin, inclusive, Ernesto de Sousa consegue realizar uma aproximação a uma escultura africana só possível através da fotografia. Noutras, esculpidas em madeira recolhida na praia, é apenas graças à fotografia que podemos distinguir o pormenor, a ausência de expressão, a semelhança com o nosso muito privado museu imaginário.

Há também aqui a possibilidade de rever a originalíssima e muito copiada obra destes quatro autores. E de perceber, à distância que o tempo criou, como a sua obra se insere provocatoriamente num meio artístico ainda marginal, como o era o português de inícios da década de 60, mas já suficientemente sofisticado para procurar a autenticidade noutras paragens. Ernesto de Sousa, com o seu leque de interesses diversificado que não encontrou paralelo no país, tanto abordava o cinema como a fotografia ou a escrita: recorde-se o filme que assinaria no ano seguinte, Dom Roberto, que dava continuidade, em certa medida, ao universo das expressões artísticas populares. O filme chegou a ganhar uma menção especial do júri em Cannes, em 1963, embora o seu realizador não a tivesse podido receber pessoalmente por se encontrar preso. Para as gerações que se seguiram, Ernesto de Sousa foi sobretudo o magistral organizador da Alternativa Zero, a grande exposição de arte portuguesa contemporânea, feita em 1977, que incidiu sobre a “arte conceptual”. E a fotografia, com o texto, foi também o grande médium desta última vanguarda, ponto final no espírito moderno.