Restauro de retábulo manuelino da Sé assinala 500 anos da Diocese do Funchal

Intervenção, envolvendo os laboratórios José de Figueiredo e Hercules, custou mais de 375 mil euros.

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A Diocese do Funchal, criada em 12 de Junho de 1514 através da bula do Papa Leão X, iniciou as celebrações dos seus 500 anos de existência com a apresentação da obra de restauro do retábulo e cadeiral da capela-mor da Sé do Funchal.

De inegável valor cultural, como sublinha o prof. António Candeiras, coordenador da intervenção iniciada há um ano, “o retábulo da capela-mor, de raiz gótica final, é o único que ainda permanece in situ”. Foi mandado executar pelo rei D. Manuel I entre 1512 e 1517.

Alguns estudiosos atribuíram a execução e as imagens da estrutura retabular ao mestre flamengo Olivier de Gand, autor dos retábulos da Sé Velha de Coimbra e da Igreja de São Francisco, em Évora, hoje desmantelado, e do cadeiral do Convento de Cristo, em Tomar, pelas semelhanças entre as várias obras. As pinturas que completam o dispositivo iconográfico do retábulo têm sido atribuídas, por diversos estudiosos, a Francisco Henriques, ao núcleo luso-flamengo do anónimo mestre da Lourinhã (que algumas hipóteses indicam ser o pintor Álvaro Pires) ou ainda a uma obra de parceria de vários artistas pertencentes à mesma oficina, para concluir rapidamente uma obra régia.

À semelhança do retábulo, o cadeiral foi executado no reinado de D. Manuel I. Esta estrutura foi atribuída recentemente ao mestre Machim Fernandes, envolvido até 1512 na construção do cadeiral de Santa Cruz de Coimbra. A sua estrutura arquitectónica filia-se nos modelos tardo-góticos com alguns elementos proto-renascentistas, apresentando semelhanças com o cadeiral da Catedral de Yuste, em Espanha.

O valor da intervenção ultrapassou os 375 mil euros, sendo comparticipada pela World Monuments Fund – Portugal (219 mil euros), pelo Governo Regional da Madeira (128 mil) e Diocese do Funchal (cerca 28 mil). Os trabalhos de restauro resultaram de uma parceira destas entidades com o Laboratório José de Figueiredo, da Direcção-Geral do Património Cultural, e Laboratório Hercules, da Universidade de Évora.

Além da apresentação do retábulo restaurado, as comemorações desta quinta-feira dos 500 anos da diocese incluem uma celebração eucarística, presidida pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. O dia foi assinalado, ao meio-dia, com o toque de sinos de todas as igrejas da Madeira.

No próximo dia 15 realiza-se a Assembleia Diocesana Jubilar, que conta com a presença do cardeal Fernando Filoni, enviado especial do Papa Francisco. O programa prevê também a realização, entre 17 e 20 de Setembro deste ano, de um congresso internacional sobre os 500 anos da Diocese do Funchal: A Primeira Diocese Global: História, Cultura e Espiritualidades.

A Diocese do Funchal foi a primeira diocese portuguesa da Igreja Católica instituída fora do continente europeu, na sequência das viagens marítimas de descoberta que potenciaram a experiência de globalização. Criada em 12 de Junho de 1514, através da bula Pro excellenti præeminentia, do Papa Leão X, após a elevação da vila do Funchal ao estatuto de cidade pelo rei D. Manuel, a nova diocese foi, 19 anos mais tarde, a 31 de Janeiro de 1533, elevada à dignidade arquidiocesana.

A Diocese do Funchal tornou-se, durante 22 anos, a maior arquidiocese metropolitana do mundo, tendo como sufragâneas as dioceses do Império Colonial Português nos Açores, Brasil, África e Oriente. Depois desmembrou-se nas dioceses de Angra, de Cabo Verde, de São Tomé e de São Salvador da Bahia. Até começos do século XX, os bispos do Funchal usaram o título de "bispos da Madeira, do Porto Santo, das Desertas e de Arguim".