Max Rossi/Reuters
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O Papa é um “marketer”?

O que se espera de um líder espiritual é que promova a difusão dos valores certos para uma sociedade justa e solidária. E é esta Estratégia que o Papa Francisco parece estar a tomar, o que pode fazer dele o “marketer” que salvou a Igreja

—  Gosto dele.

Está de cócaras, a deixar passar a areia por entre uma mão, como uma ampulheta humana, umas vezes atrás de outras. Para ela, o tempo e a pressa não existem, neste lugar de areia escura e cheiro intenso. Estamos em Hail, algures nas profundezas de uma civilização árabe, longe dos cruzamentos de fibra óptica e dos corredores onde se decidem acordos e tratados. Vejo-a olhar para cima, para mim, antes de esboçar um sorriso e repetir:

— Gosto muito dele, do Papa.

Sorrio, deliciado com tanta generosidade, com esta inocência tão autêntica que arrepia, que estremece. Levanto a cabeça para olhar o céu que tapa este lugar quase esquecido, à espera de uma chuva que salpique este calor que arrasa, quando me ocorre a melhor definição para alguém que se tornou tão relevante num lugar tão pouco provável: um “marketer”. Será que é isso que o papa Francisco é, um homem do Marketing?

A pergunta soa a provocação, como se pusesse em causa a autenticidade das suas acções, a legitimidade dos seus interesses. Mas para lá dessa primeira reacção despropositadamente impulsiva, volto a perguntar-me: será o Papa Francisco um “marketer”?

Pondero, encostando-me para trás. Onde estão os que criticavam a Igreja e os seus representantes por serem fechados, ortodoxos, fundamentalistas e parados no tempo? Suponho que uma parte deles está desempregada ou transformou-se em Velho do Restelo, com um discurso "à la marretas".

Desde que chegou, o Papa Francisco mostrou ser diferente, começando pela demissão de Bertone, o todo poderoso Secretário de Estado do Vaticano que manobrava a estrutura e era o principal bastião da resistência ao reformismo na Igreja Católica.

Curiosamente, o Papa Francisco seguiu as pisadas de Barack Obama, que rompeu com um posicionamento mais fundamentalista e acabou por se tornar mais credível com a estratégia de diferenciação pela tolerância. O mesmo se passa com o Papa: finalmente alguém que é capaz de admitir que as posições da Igreja que representa não são necessariamente as únicas e podem nem ser as melhores. Saber assumir essa possibilidade é tão raro quanto poderoso, porque abre mentes e aproxima os que, dentro da mesma religião, estão divorciados de fundamentalismos exarcerbados. Aceitar este cenário é fundamental, porque ainda hoje muitos dos debates entre Estados, clãs, religiões e pessoas mais não são do que gritos histéricos e discussões imaturas, desprovidas de razão, tolerância e procura de soluções e evolução mútua.

Este papa teve a sorte de chegar a um Vaticano cheio de vergonha de si mesmo e do cheiro a Idade Média que algumas das suas posições largavam. Acabou eleito pela pior das razões, quando os escândalos de pedofilia não cabiam nas gavetas do esquecimento. Isso é agora o menos relevante: quantas tragédias são o carburante de uma mudança para um estágio mais evoluído, neste mundo que todos queremos mais fraterno e igualitário?

O que se espera de um líder espiritual é que promova a difusão dos valores certos para uma sociedade justa e solidária, mas actualizada e consciente, ao mesmo tempo que exerce a sua macro influência em prol de todos e não apenas da sua Igreja e Estado. E é esta Estratégia que o Papa Francisco parece estar a tomar, o que pode fazer dele o “marketer” que salvou a Igreja e o líder espiritual que defende a uma escala global aquilo que, afinal, todos queremos: o Bem.