Crítica

Portugal visto do exterior

Uma compilação dedicada ao país físico e jubiloso do zouk bass

Nas notas para a imprensa às tantas lê-se que “alguma coisa está a acontecer em Portugal e não tem nada a ver com fado”, contextualizando que os Buraka Som Sistema iniciaram há alguns anos uma pequena revolução que contribuiu para legitimar em Portugal linguagens musicais até aí confinadas à invisibilidade. 

É isso. A editora e plataforma holandesa Generation Bass tem feito ao longo dos últimos tempos um trabalho intensivo na procura de novos valores que, em Portugal, operam no território onde colidem o kuduro, a kizomba ou a tarraxinha com recentes configurações urbanas, provocando novos híbridos, como o chamado zouk bass, do qual aqui falámos em Fevereiro. 

A Generation Bass não é nenhuma multinacional do disco. O seu propósito não é descobrir o novo Robbie Williams. Mas é uma das mais persistentes e credíveis plataformas de revelação de novos agentes que operam em torno da chamada “cultura bass global”, ao lado da Mad Decent do americano Diplo ou da Enchufada dos Buraka Som Sistema, que lançou há pouco uma compilação com propósitos algo semelhantes: We Call It Zouk Bass. Se juntarmos a estes sintomas a notável actividade da editora Príncipe, que tem servido para impulsionar internacionalmente nomes como Marfox, Nigga Fox ou Maboku, não é difícil constatar que algo se passa há muito. Apenas em Portugal quase não se dá por isso, embrenhados que estamos em resistências e algumas confusões identitárias, não abraçando aquilo que se passa aqui, agora, neste momento, como sendo verdadeiramente nosso. 

E que Portugal é este que a Generation Bass nos apresenta? Um Portugal físico, jubiloso e colorido, já não apenas debaixo da sombra do serpentear vertiginoso do kuduro — apesar dos temas de Pedro Cardoso (DJ N.K.) ou de Joel Ildefonso (Diamond Bass). Aqui procuram-se configurações rítmicas mais lentas, ainda com o olho na pista de dança, mas fazendo-o com mais sensualidade e voluptuosidade, seja através do chamado zouk bass — como no momento espacial Tygp, de Felisberto Reste (Bison) e Miguel Afonso (Squareffekt), ou no minimalista Tropical, dos DZC Deejays – ou então a partir de modelos mais próximos do afro-house, como acontece com Nuno Gomes (Paparazzi) em African roots ou em E kilape de Danilo Furtado (DJ BeBeDeRa). 

Para além dos oito temas oficiais, existem mais quatro extras — da autoria de Beat Laden, King Kong, Toxic Bungula (Infestus) que recria Yah!, dos Buraka, e do conhecido DJ Ride — que promovem outros encontros electrónicos, reforçando a ideia de que existe um manancial de produtores e DJ a operar neste momento em Portugal que constitui garantia de qualidade e universalidade.