Putin desafia Obama a provar que a Rússia enviou tropas para a Ucrânia

"Não há nenhuma força russa, nenhum instrutor russo no Sudeste da Ucrânia. Não há, nem nunca houve", declarou Vladimir Putin.

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O Presidente russo disse que não vai evitar Obama e Poroshenko na sexta-feira MIKHAIL KLIMENTIEV/AFP

"Há provas? Então, que as apresentem!", disse Putin, numa entrevista à rádio Europe 1 e ao canal TF1.

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"Há provas? Então, que as apresentem!", disse Putin, numa entrevista à rádio Europe 1 e ao canal TF1.

O chefe de Estado russo lembrou o caso das armas de destruição maciça no Iraque, para comentar de forma irónica a capacidade norte-americana para apresentar provas das suas acusações. "Nós vimos, toda a gente viu, como o secretário de Estado norte-americano [Colin Powell] mostrou provas da presença de armas de destruição maciça no Iraque."

"Afirmar, é uma coisa; ter provas, é outra coisa. Vou repetir: não há nenhuma força russa, nenhum instrutor russo no Sudeste da Ucrânia. Não há, nem nunca houve", declarou Putin.

À acusação de que a Rússia interfere nos assuntos de outros países, o Presidente russo responde com uma consideração sobre a política externa dos Estados Unidos. "Não é nenhum segredo que a política mais agressiva é a política americana. Nós quase não temos forças no estrangeiro, mas reparem: por todo o mundo há bases militares americanas, há tropas americanas a milhares de quilómetros das suas fronteiras. Eles tomam parte nos assuntos internos de qualquer país, por isso é difícil acusarem-nos de violações", disse Putin.

Quem esteve na origem da crise na Ucrânia, afirma o Presidente russo, foram os Estados Unidos e a União Europeia, ao "apoiarem o golpe armado inconstitucional", numa referência ao período de violentas manifestações que levou à queda do Presidente Viktor Ianukovich.

O Governo interino da Ucrânia, os Estados Unidos e a União Europeia acusam a Rússia de enviar soldados para combaterem ao lado dos separatistas nas províncias de Donetsk e Lugansk.

Os próprios rebeldes confirmaram que há russos a combater ao seu lado, e pelo menos 33 foram mortos num combate pelo controlo do aeroporto de Donetsk, no início da semana passada. Também há provas da chegada ao Leste da Ucrânia de combatentes tchetchenos de uma brigada que combateu sob as ordens de Moscovo na guerra da Geórgia, em 2008, mas o Kremlin sempre afirmou que nenhum desses soldados e unidades foram enviados com a sua autorização.

Cumprimentos a Obama e Poroshenko
Quanto ao encontro com o Presidente norte-americano na próxima sexta-feira, em França, durante as comemorações do 70.º aniversário do Desembarque na Normandia, Vladimir Putin disse que, se depender dele, os fotógrafos vão poder registar um aperto de mão.

O Presidente russo diz não ter "razões para acreditar que o Presidente Obama não fale ao Presidente russo". "A escolha é dele, eu estou pronto a dialogar", disse Putin.

Se se cruzar com o recém-eleito Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, o comportamento será o mesmo, garante: "Não vou evitar ninguém e falarei, como é óbvio, com toda a gente."

Putin aproveitou a entrevista à rádio e à televisão francesas para deixar um recado a Poroshenko, em forma de apelo. "Penso que o sr. Poroshenko tem uma oportunidade única: ainda não tem sangue nas suas mãos, e pode suspender esta operação punitiva e dar início a um diálogo directo com os seus cidadãos do Leste e do Sul do país", disse o Presidente russo, numa referência à operação lançada por Kiev para pôr fim à onda separatista em Donetsk e Lugansk.

Vladimir Putin comentou também o negócio para a compra de dois navios de guerra da classe Mistral a França, que tem sido muito criticado pelos Estados Unidos e pela Polónia.

O negócio, assinado antes do início da recente crise na Ucrânia, fez entrar nos cofres franceses cerca de 1200 milhões de euros, e os russos só vêem duas hipóteses: ou Paris cumpre o acordo, ou devolve o dinheiro. Para convencer o Governo de François Hollande, Vladimir Putin acena com mais dinheiro.

"Esperamos que os nossos parceiros franceses cumpram as suas obrigações contratuais, e se tudo correr como está combinado, não afastamos a hipótese de fazer mais pedidos", disse o Presidente russo.