Outros reis

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Protocolo, que a Mala Voadora estreia no D. Maria II esta terça-feira, é uma farsa porque todo o poder é uma encenação. Mas também é um modo de olhar para a ordem e de lhe chamar teatro

Quando olhamos para o palco extirpado de efeitos de luz e ainda sem a relva artificial que se vai colar aos pés dos espectadores, os passos que Anabela Almeida e Jorge Andrade ensaiam, sob indicação do coreógrafo Victor Hugo Pontes, revelam os condicionalismos que a forma impõe ao conteúdo. Admitamos que a dificuldade maior com que se debatem os dois intérpretes tem mais a ver com a necessidade de conferir pompa ao gesto do que com a vontade de nos dar as chaves para interpretação de um código de boas maneiras que, de tão inscrito no tempo, se tornou difícil de decifrar.

Expliquemo-nos: Protocolo, o espectáculo que a Mala Voadora estreia na próxima terça-feira, dia 3, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, no âmbito do Alkantara Festival (e que depois leva ao seu espaço no Porto de 11 a 15 de Junho), parte de um livro, Manuel de la Politesse des Usages du Monde et du Savoir-Vivre, que remonta ao quotidiano de Luís XIV e acusa a decadência da civilidade desde então, estipulando a etiqueta para o século XIX. De Versalhes, numa altura em que a cabeça ainda comunicava com o pescoço, propunha-se uma nova ordem social que a Europa, mesmo aquela onde reinavam cortes desavindas, se apressou a seguir. Outros tempos. “É um livro fascinante”, diz Jorge Andrade antes do ensaio. “E muito difícil”, retoma o encenador ao fim de cada passagem das diversas coreografias deste Protocolo. Difícil também porque, no correr do texto, se vão expondo as contradições com que a aplicação directa de tais, e tantos, termos (democracia, povo, regras, convenção, normas, preceitos, responsabilidade, poder) estreita a nossa margem de liberdade. É por isso que os actores tentam encontrar na repetição do gesto o sentido da acção. Como se um pudesse justificar o outro. Se isto não é um modo de dialogar, o que é? Diz a dada altura a actriz, exasperada mas sem ter mais nada a acrescentar: “Não convém demorar demasiado tempo na apresentação de uma ideia. Massacras as pessoas. Sabes o que é que te falta? Capacidade para avaliar as situações e uma certa noção do tempo teatral.” Ficção a quanto obrigas.

Esclarece José Bouza Serrano em O Livro do Protocolo (Esfera dos Livros, 2011) que vários autores “distinguem o quadro que cria a atmosfera na qual se vão desenrolar as relações entre os estados”, o cerimonial, das regras que presidem ao Cerimonial e que têm como finalidade estabelecer as prerrogativas, privilégios, precedências (e até imunidades) que são devidas aos Estados e aos indivíduos que os representam”, o protocolo. “Tudo é teatral e se tudo é teatral, nada é teatral”, comenta Jorge Andrade, para logo acrescentar que “graças a estas regras Luís XIV tinha na mão todas as ambições, todas as cobiças de toda a nobreza e, com a nobreza, todo o reino”. Afinal, e como fez saber José Saramago através do seu Tertuliano Máximo Afonso, em O Homem Duplicado, “ter um lugar para cada coisa e ter cada coisa no seu lugar sempre foi uma regra de ouro nas famílias que prosperam”.

Quem realmente manda

Há antecedentes no percurso da Mala Voadora que permitem olhar para Protocolo e perceber que a ideia de poder que o colectivo persegue está directamente relacionada com uma ideia de ritual. Deixando de lado peças em que a ordem estava presente das formas mais diversas — a ordem social em Casa e Jardim (2012) e Wilde (2013), a ordem ideológica em Os Justos (2004), a ordem comunitária em Overdrama (2011) — e olhando para peças de câmara como O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros (2008), Chinoiserie (2009) e Memorabilia (2011), por exemplo, percebemos que esta ideia de ritual se reinventa a partir da ficcionalização de pressupostos reais e quotidianos.

O teatro, enquanto sistema, permite que o discurso da companhia se organize em termos de sequência de forma e de discurso, a partir de um território comum entre o que é intencional e estratégico para a dramaturgia de cada espectáculo e o que é reconhecível pelo espectador frequente da Mala Voadora. De resto, a animosidade que possa existir entre as duas personagens de Protocolo tem um passado, uma biografia performática, como se trouxessem vidas e memórias de outras peças.

Ao apontarem para nós, as cadeiras vazias, os dois actores elencam uma hierarquia que nem a profunda distância temporal e ideológica afasta do nosso contexto. Mas avisam: “Esquecem-se é que esta aparente igualdade, para além de tornar tudo isto mais chato, mais cinzento, nada mais faz do que ajudar o senhor absoluto de agora, aquele que realmente manda, o que decide, a passar despercebido. Podendo assim gozar de um poder absoluto sem que ninguém o reconheça. Que a corte, uma espécie de corte, continua a existir ninguém duvida. Só não está é em cena. A verdadeira corte, quero eu dizer.”

Séculos depois, decapitada a monarquia, e aparentemente mortos os salões em que se fazia política antes da democracia, “Sua Majestade precisa de limpar-se”. A estrutura do texto segue o quotidiano do rei, do pequeno levantar ao grande deitar, mas aquilo de que se fala é de outra coisa, “porque os artistas estão sentados à mesa” dele. E podem (ainda podem?), mesmo que hoje sejam outros os senhores, outras as leis, outros os reis. “O rei disto, o rei daquilo. O rei da distribuição, o rei da importação ilegal de objectos históricos com certificados falsos, o rei do pacote financeiro dentro do pacote financeiro, o rei da programação musical de Verão, o rei da informação privilegiada, o rei da captação de investimento para áreas em expansão e o rei das áreas em expansão.” Se isto não é poder, o que é o poder?