A palavra ao poder

TIBOR BACHRATY
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TIBOR BACHRATY

Na próxima quarta-feira, Joris Lacoste abre o Alkantara Festival com Suite nº1: ABC — e muitas pessoas em palco a falarem ao mesmo tempo

Há uma diferença substancial que distingue Suite nº1: ABC, de Joris Lacoste, da miríade de espectáculos que nos últimos anos têm enxameado os palcos com statements sobre o poder político da palavra. É que a política, aqui, não tem lugar. Ou, pelo menos não no sentido reivindicativo, de marcar uma posição, de querer agitar consciências, de pretender fazer-se a um desejo de participação que nunca abandona a passividade.

Aqui, com estas vozes e estes corpos, o discurso é outro. Diz Joris Lacoste, prolífico defensor da palavra como matéria viva, que Suite nº1: ABC, o espectáculo de abertura do Alkantara Festival (4ª, dia 21, e 5ª, dia 22, no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa) nos ensina a ouvir, como se antes da acção — ou em preparação para a acção — a escuta fosse o gesto mais importante. Em palco, uma massa de actores, organizada em inventivas disposições que rejeitam a normalização dos diferentes discursos através de um empenho na interpretação que tem mais a ver com ética do que dramaturgia. Lacoste explica que o texto surgiu do encontro de um conjunto de fontes diversas, retiradas da Internet ou registadas nas ruas e em outros locais públicos, apanhadas em filmes e programas de televisão — juntas, todas essas palavras funcionam como uma espécie de cápsula dos tempos modernos. “Há muitas texturas e coloraturas que funcionam como ganchos, prendendo a atenção de quem ouve”, argumenta. Mas o que se ouve é menos do que aquilo que se vê porque, aqui, ver implica uma concentração no som e um enfoque num dispositivo sonoro que é, sobretudo, intuído.

“Desde o início, com a escrita, houve um desejo de identificar, e depois compreender, quais os elementos que melhor poderiam servir a partitura. O que as coisas significam depende não só do modo como são ditas mas também do modo como são ouvidas”, continua o encenador. Condicionando a palavra a um uso, Suite nº1: ABC, que é parte do projecto mais vasto Encyclopédie de la Parole, tenta perceber que sentido damos ao que escutamos. Na altura da estreia do espectáculo em Paris, em Novembro passado, Joris Lacoste explicava que “um dos efeitos mais perturbadores” surgia da “deslocação das palavras para um contexto teatral, onde se produz uma dissociação entre o contexto e o conteúdo”. E acrescentava, em entrevista incluída no programa, que, automaticamente, “somos levados a escutar de modo mais atento formas de discussão, de sedução, de explicação, de afirmação até então escondidas pelo nosso insaciável desejo de perceber o sentido do que é dito”.

Ouvir antes de falar

Porque em Suite nº1: ABC “as palavras são tratadas como se fossem uma partitura exacta, revestem-se de uma estranheza que nos permite ouvi-las de outra forma”. Joris Lacoste procurou não a heterogeneidade dos discursos, ou mesmo das vozes, mas antes colocar-se no ponto imediatamente posterior à emissão de um discurso, o momento da escuta: “O modo como cada um fala e ouve está ligado ao modo como cada um interpreta o que ouve”, insiste. Se daqui se puder inferir um sentido político para a palavra, porque se relaciona com a possibilidade de intervenção individual que nos está reservada enquanto seres pensantes, então Lacoste pede que esse sentido seja mais intuitivo do que reactivo. É por isso que a escrita, criada sob princípios semelhantes aos de uma partitura musical (um processo coordenado por Nicolas Rollet), consiste no equilíbrio entre interpretação e repetição, através da “reprodução de um conjunto de palavras gravadas sem que isso signifique imitar pessoas ou representar situações, e menos ainda criar personagens”. Foi o que quis fazer experimentando diferentes modos de interpretar a célebre frase de Taxi Driver, “Are you talking to me?” — como um convite à atenção, através de uma coreografia cénica que explora as tonalidades da voz, os seus efeitos no corpo, e a experiência de partilha, primeiro entre os intérpretes e, depois, com o público.

É aqui que entram os convidados especiais que, em todas as passagens, de Seul a Roterdão, de Nova Iorque a Nyon (exemplos contrastantes apenas para dar noção da escala e do impacto de um projecto sobre a palavra em contextos linguísticos muito diferentes), são chamados a interpretar o espectáculo não para lhe darem uma moldura regional mas para ampliarem a dimensão da palavra enquanto elemento unificador. A lengalenga tradicional que dizem, juntamente com os intérpretes — todos de diferentes nacionalidades —, brinca com as palavras, do mesmo modo que o segundo excerto usado, uma gravação de um noticiário, explora a dimensão pretensamente histórica (e por isso tendencialmente ficcional) que um texto ganha quando lido a posteriori.

Joris Lacoste reforça que estes participantes, diferentes em cada país, possibilitam não que o espectáculo pisque o olho à comunidade que se senta na plateia, mas que fique sujeito ao risco do improviso, da reacção e do desconforto. “Não somos conscientes da forma das palavras”, diz Lacoste, que dá o exemplo da respiração como um modo primário de comunicação: “Há qualquer coisa que se joga quando duas pessoas respiram em simultâneo.” O trabalho combinado entre o silêncio, a palavra, o corpo e o olhar potencia o surgimento intuitivo de um espectáculo onde “se expõe o vocabulário de base”: “Brincamos às traduções ou ao canto, na alternância de línguas e de registos; falamos não para falar mas pelo prazer de dizer, pelo gosto pela língua.” E, no meio de tudo isto, “as rupturas, as pistas falsas, que não são se não desvios que suspendem ou perturbam [o que ouvimos]”. É esse desejo de não-normatividade que distingue Suite nº1: ABC dos espectáculos que levam as massas para o palco mas não deixam que as ouçamos.