Phil Noble/Reuters
Foto
Phil Noble/Reuters

Megafone

Gostar de Gerrard

Com Gerrard aprendi a admirar os que não perdem tempo odiar os adversários, e se dedicam a devolver a cor à camisola que amam

Lembro-­me exactamente do dia em que comecei a odiar o Liverpool: vestido com a t­shirt grená que fantasiava ser a oficial do Anderlecht (que vencera o Benfica na final da Taça UEFA), passara a tarde num terreno de gravilha a rasgar os joelhos na tentativa pífia de impedir contra­-ataques. Quando me instalei no sofá já a transmissão começara, mas não se viam 22 homens em campo – antes corpos entalados contra as grades espalhadas pelas bancadas.

Heysel Park, 29 de Maio de 1985: os relatadores repetiam que a tragédia era culpa da claque do L'pool – e se antes estava pelos Reds (que em 83 ou 84 haviam depenado o Benfica na Luz), naquele fim de tarde dei por mim a aceitar o (falso) penalty que deu a vitória à Juventus, enquanto remoía um sentimento de culpa por ter desejado que houvesse jogo apesar das mortes.

Desde 84 que eu odiava a Juve. O sentimento estendeu­-se a todas as equipas italianas, pelo que quando em 2005 o Liverpool foi à final da Champions com o Milan, vi o jogo de coração cerrado. Só que, quando o L'pool levantou a taça após recuperar de um 0­-3, o romântico que há em mim efervesceu perante tamanha demonstração de crença.

O furacão que atravessou o relvado na segunda parte teve epicentro em Steven Gerrard, um pato desengonçado que com a bola nos pés devinha cisne. O L'Pool não ganhava nada importante há década e meia e depois da Champions Gerrard pensou sair para o Chelsea, onde certamente angariaria mais troféus.

Mas o amor pelo clube falou mais alto e Gerrard permaneceu de vermelho, vendo, ano a ano, a sua equipa descer mais e mais na tabela classificativa. O meu amor por Gerrard começou aí, quando trocou a possibilidade de ir ganhar campeonatos num clube mais rico pelo amor ao emblema do seu coração.

Atleta local, fanático do L'pool cujo terreno frequentava desde pequeno, Gerrard crescera nas camadas jovens do clube desde os 13, e perdera um primo na tragédia de Hillsborough, em 1989 (um acidente semelhante a Heysel). Desde então tornou sua a missão de reerguer o clube e conquistar um campeonato – para que a morte do primo não fosse em vão.

Steven nunca teve o controlo do tempo de jogo de Scholes, a técnica de Gazza, a capacidade ofensiva de Lampard, a defensiva de Keane, mas desempenhava com mestria todas estas tarefas, o que fazia dele o médio universal quase perfeito.

O problema de Gerrard era só um: a vontade louca de guiar o seu clube à vitória toldava-­lhe o julgamento. O futebol tem dois tempos: a acção (recepção, passe, remate) e a decisão (quando e a quem passar, etc). A fornalha no lugar do coração de Gerrard quer sempre atacar, o que faz dele magnífico de ver – e incerto a decidir.

O futebol tem muitas formas de ser cruel e no passado fim­-de­-semana excedeu-­se: o Liverpool recebia o Chelsea, podendo vencer o campeonato pela primeira vez em 24 anos. Por afeição a Brendan Rodgers, o treinador, a Suarez e a Gerrard, eu estava pelos Reds. E então deu­-se o impossível: Gerrard escorregou, deixou a bola livre para Ba e o L'pool perdeu. Steven, o último dos românticos, o melhor dos jogadores incompreendidos, um dos raros casos de jogador que nunca conheceu mais que uma camisola, acabará a carreira sem ganhar um campeonato para dedicar ao primo.

A minha t­shirt grená, não sei onde pára. Na verdade, ela era azul e adquirira essa cor após um raro descuido maternal na lavagem. Duvido que, mesmo que a encontrasse, a vestisse ao meu filho.

Com Gerrard aprendi a admirar os que não perdem tempo odiar os adversários, e se dedicam a devolver a cor à camisola que amam.