Obikwelu e o "caso" Nelson Évora: “Nunca pensei que acontecesse em Portugal”

Atleta estava no grupo barrado à porta da discoteca Urban Beach, em Lisboa. Évora queixa-se de ter sido vítima de racismo.

Obikwelu estava no grupo barrado à porta de uma discoteca de Lisboa
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Obikwelu estava no grupo barrado à porta de uma discoteca de Lisboa DR

O atleta Francis Obikwelu, que fazia parte do grupo dos 16 que iam celebrar os 30 anos de Nelson Évora na noite de 19 de Abril na discoteca Urban Beach e barrado à porta apesar de terem mesa reservada, classificou de “mentira” uma das justificações do presidente do conselho de administração do Grupo K, Paulo Dâmaso, proprietário da discoteca.

Dâmaso disse à Lusa que o porteiro da discoteca não permitiu que o grupo entrasse porque “havia uma ou duas pessoas que estavam desenquadradas em termos do ambiente que é normal no Urban Beach”. Ao PÚBLICO, Obikwelu respondeu: “Isso é mentira, é brincar com a cara das pessoas.” E contou que o filho do treinador João Ganço na altura falou com um dos responsáveis da discoteca, que lhe justificou a decisão de não os deixar entrar por “serem demasiados pretos” – tal como Nelson Évora relatou. “Não reagimos. Fomos a outra discoteca”, lembrou Obikwelu.

Apesar de já ter sofrido episódios de discriminação em Portugal, Obikwelu diz, porém, que a resposta que ouviu o chocou, foi “uma coisa que nunca pensei que acontecesse neste país”. E acrescenta: “É triste estarmos no século XXI e que as pessoas ainda possam pensar coisas destas”.

Na segunda-feira, o campeão olímpico (Pequim 2008) e campeão mundial (Osaka 2007) do triplo salto publicou na sua página de Facebook um post em que contava o episódio: “Na noite de 19 de Abril os meus amigos fizeram-me uma surpresa e levaram-me para a discoteca Urban Beach. Éramos um grupo de 16 pessoas com mesas pré-reservadas e não é que somos surpreendidos pelos responsáveis daquele espaço público. Porquê? ‘Demasiados pretos no grupo!!!’”, escreveu.

No post tinha uma fotografia onde aparecia a segurar uma banana, um símbolo do combate ao racismo que se tornou viral com a campanha #somostodosmacacos, lançada pelo futebolista brasileiro Neymar no Twitter.

“Estarei a exagerar ou foi mesmo racismo?”, questionava. “Mais de metade” do grupo com quem se passou o episódio relatado era formado por atletas que representam Portugal internacionalmente, como Francis Obikwelu, Naide Gomes, Carla Tavares, Susana Costa e Rasul Dabó.

Entretanto, Paulo Dâmaso comentou no Facebook de Évora ter sido surpreendido com a publicação “no mural da sua página do Facebook de uma foto com conotação xenófoba, com o objectivo de denunciar uma alegada situação de ‘racismo’, supostamente praticada por um funcionário do Urban Beach”. E acrescentava: “Confesso a nossa incredulidade no que refere à situação que relata, pois não existe qualquer tipo de instruções por parte da administração da empresa para excluir seja quem for por razões raciais, políticas, religiosas ou outras. (…) Temos igualmente alguma dificuldade em entender o propósito de fazer publicamente essa acusação infundamentada, uma semana após a suposta ocorrência.” No final, porém, referiam que se o que Évora relatou fosse verdade pediam “desculpas”.  

Nelson Évora não quer fazer mais comentários sobre o caso, segundo a sua agente disse ao PÚBLICO.