Crítica

O que fazer com estas imagens

De modos muito diferentes, Pedro Calapez e Pedro Sousa Vieira trabalham a herança que a história das imagens nos deixou

Trata-se, na realidade, de três exposições distintas: duas na Belo-Galsterer, e uma outra na Appleton Square. Mas as duas primeiras, de Pedro Sousa Vieira e Pedro Calapez, partilham mais do que o espaço elegante da galeria: há, nos dois artistas, uma vontade comum de trabalhar a imagem, ou o que dela resta depois de séculos de existência, que os aproxima de um modo bem mais estreito do que a vizinhança de lugares de exposições. Por outro lado, Calapez inaugurou ao mesmo tempo um projecto no cubo branco do espaço da Appleton Square que, se não abandona o mesmo propósito geral, o declina numa vertente mais arriscada. Antes, apresentara unicamente pintura. No segundo espaço, é sobretudo de desenho que se trata.

Comecemos por Sousa Vieira. A gaze from the back consta de uma série de 20 obras de pequeno formato, em que o artista se apropria de páginas de uma revista nazi, de uma outra sul-africana da época do apartheid e também de imagens bélicas avulsas. Todas estas imagens são trabalhadas através da pintura. Mas a imagem original guarda, contudo, todos os sinais da época em que foi publicada: tons esbatidos ou a preto e branco, papel que se adivinha frágil, iconografia habitual no tipo de suporte escolhido. O processo de Sousa Vieira consiste em tapar com pintura ou desenho certas partes da imagem, a fim de criar um espaço diverso do inicial e, no fundo, acentuar o que não é dito pela imagem primeira. É um processo quase idêntico ao das ocultações de Max Ernst. Mas, ao contrário do que sucedia nos movimentos dadaísta e surrealista, o objectivo não é agora o de criar uma nova linguagem plástica nem o de suscitar associações psíquicas. Trata-se, sim, de um trabalho que destaca sobretudo o seu processo, dando-o a ver, sem mais, na solução encontrada.

Na mesma galeria, Pedro Calapez apresenta uma série de peças de pequenas dimensões, quadradas e circulares, onde a pincelada alterna ritmicamente em formas horizontais e verticais. A associação com a linguagem binária dada pelo nome da série – Byte - é reforçada pelo gesto conciso que se adivinha, bem como pela parcimónia cromática que encontraremos também, em parte, na outra exposição do mesmo artista, inaugurada algumas semanas mais tarde. Há aqui, a par com a citação das imagens das abstracções do pós segunda guerra mundial, uma deriva assumida para a caligrafia, para o gesto processual fundador que será plenamente desenvolvido em algumas das obras na Appleton Square.

Pedro Calapez retoma incessantemente esta apropriação do gesto da pintura, conjugando-a com movimentos dos suportes no espaço, que com frequência avançam ou recuam em relação ao plano da parede. Em O burel da cortina antepara o céu opaco (do nome de um poema entretanto destruído de Joaquim Manuel Magalhães) esse tipo de trabalhos está também presente, mas desta feita associado a uma série de desenhos caligráficos a preto sobre papel; e, também, naquela que é a peça mais espectacular da exposição, um conjunto de impressões digitais de um desenho feito informaticamente, que se repete em painéis, ocupando toda a parede do fundo. Esta peça, que nos remete para a cortina de que o título fala, é também ecrã sobre ecrã, varanda sobre o infinito, e finalmente, repetição entrópica do mesmo até ao diferente. Formalmente, assemelha-se às peças que estiveram há tempos no Carpe Diem e, mais recentemente, a uma pequena individual apresentada em Torres Vedras. E é ela, no fundo, que acrescenta sentido e conclui este processo de interpretação da história das imagens.