Ina Fassbender/Reuters
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Megafone

Era um Intercidades para a mesa do canto, sff

Tudo isto é muito mais eficaz que a redistribuição dos rendimentos, as pensões ou o acesso a ensino e saúde tendencialmente gratuitos – coisas que, em termos científicos, são uma aberração anti-natural

Como seria de esperar, a esquerda empertigou-se contra a última e extraordinária medida do nosso Desgoverno – a oferta aleatória de um Audi a quem pediu facturas, dizem, desvirtua a função dos impostos, que é redistribuir a riqueza de modo a diminuir as desigualdades. Picuinhices.

Não faço a mínima ideia de como o sorteio decorreu, se é necessário remeter uma cópia das facturas para as Finanças, se há um mínimo de facturas que o contribuinte tem de recolher ou um valor mínimo de “arrecadação” para se poder concorrer. Vou pressupor que não – mas só porque me dá jeito.

Estabelecidos os parâmetros de honestidade intelectual de que parte a minha análise, posso então laudar a extraordinária mensagem que, através desta iniciativa, o Desgoverno faz passar aos portugueses e que reside na palavra aleatório. Pouco importa se o concorrente (o antigo contribuinte, outrora conhecido por cidadão) pode ou não fazer muitas compras, se amealhou umas facturas e fugiu a pedir outras: toda a gente pode receber um Audi. E o que é o que Audi premeia? Nada: em última instância, basta que um comerciante cometa o deslize de entregar ao contribuinte o talãozinho no fim da compra e pumba, temos concorrente.

O cidadão dará por si com o objecto ideal para enciumar a vizinhança – o que é particularmente pertinente quando se vive numa barraca sem saneamento ou se recebe 750 euros por mês. Em todo o caso o vencedor pode sempre vender o carro e assim manter a economia a rolar – neste país os cidadãos podem até morrer mas a economia ninguém a pára.

O que o concorrente (ex-contribuinte, ex-cidadão) tem de enfiar na cabeça, é que neste país não se premeia por mérito ou justiça. Para a ciência, vencem as espécies que se adaptam; para o Desgoverno, vence qualquer palerma. Quem acusa este Desgoverno de promover o Darwinismo social está enganado: isto não é Darwinismo, é Delatismo. De delator.

E porque não ir mais longe? Um ladrão escapa a polícia? Todo o contribuinte que conseguir arrear no bicho candidata-se a um Intercidades. Não é preciso apanhá-lo, que isso seria promover o mérito; basta arrear-lhe e tirar uma "selfie" enquanto arreia, para servir de prova. Isto aumentaria a violência e consequentemente as mortes, diminuindo o desemprego.

Os tabagistas custam milhões ao Estado em combates ao cancro do pulmão? À vista de um fumador o contribuinte dá-lhe uma patada no peito e habilita-se a um conjunto de facas Ginsu – que bem precisará na nova sociedade que estamos a criar.

Os velhos custam milhões em reformas? É premiar quem dê um carolo num que (vamos supor) escarrasse de forma demasiado sonora para o seu lenço, que aquele escarrar incomoda. O prémio? Um seguro de saúde (privado). E a morte de mais uns velhinhos, poupando ao Estado uns trocos.

Estas propostas têm o defeito de premiar alguma coisa, que mais não seja, pessoas que atacam outras, ao contrário da presente iniciativa, que tem o genial condão de premiar, bem, nada. Mas qualquer uma delas seria uma progressão rumo a um país melhor: em que todos se vigiam, todos catam o erro do outro, todos delatam, e, de preferência, todos entregam ao Estado o máximo de dados possíveis sobre os restantes concorrentes, de modo a que o Desgoverno possa punir-nos mais eficazmente.

Tudo isto é muito mais eficaz que a redistribuição dos rendimentos, as pensões ou o acesso a ensino e saúde tendencialmente gratuitos – coisas que, em termos científicos, são uma aberração anti-natural. E como sabemos, a natureza escolhe os mais aptos e tem sempre razão.