Crítica Arte contemporânea

É bonito, mas é arte?

Depois de ter navegado pelos canais de Veneza durante a Bienal de Artes Visuais de 2013, o “pavilhão flutuante” Trafaria Praia de Joana Vasconcelos chega agora ao Tejo convertido num barco de cruzeiros.

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ENRIC VIVES-RUBIO
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Joana Vasconcelos ao pé do Trafaria Praia no Tejo ENRIC VIVES-RUBIO

Esta sexta-feira, no Cais do Sodré, e longe do ambiente festivo das comemorações do 25 de Abril, o Trafaria Praia de Joana Vasconcelos chegou às águas do Tejo e abriu as portas ao publico português. A artista refere-se a esta sua obra como “pavilhão flutuante” porque foi este barco que constituiu a representação oficial portuguesa à 55.ª Bienal de Veneza de Artes Plásticas. Agora, no Tejo de onde partiu, a aura de obra de arte vai servir os cruzeiros que a Douro Azul, sua proprietária, vai realizar.

Dir-se-á que a inauguração foi um sucesso com direito a tenda montada à beira-rio e muitos fotógrafos e até um drone a sobrevoar os convidados, que se trata de uma obra sem igual, mas falar sobre esta obra implica recordar o modo como a escolha da artista para representar Portugal, em contraste com as anteriores edições da Bienal de Veneza e com muitas das restantes presenças internacionais, foi feita não por um júri que pudesse validar a pertinência, oportunidade e vantagens desta representação, nem sequer por um comissário que com base numa estratégia cultural optasse pela exposição mais conveniente, foi uma nomeação do Governo. Esta é uma memória importante porque mostra que o motor desta obra não é um projecto artístico alicerçado na cultura popular portuguesa, como alguns textos argumentam, mas uma ideia de regime artístico pautado pela oportunidade política. Aliás, são os seus defensores os primeiros a afirmar que esta obra é exemplar porque conseguiu obter apoios privados e diversas colaborações. Sobre as suas qualidades artísticas, as únicas que deveriam servir para “pôr” um artista em Veneza, nem uma palavra.

Os políticos que a escolheram, e que esta sexta-feira não faltaram ao cruzeiro inaugural, dirão ter-se tratado de uma escolha evidente dado o sucesso da artista, mas haveria muito a dizer sobre este seu sucesso e sobre o furor criado à sua volta e pelo modo como é uma espécie de artista preferida por uma certa imprensa que gosta de números, efeitos vistosos e muito espectáculo. Depois é verdade que Joana Vasconcelos vende muito e caro mas quem é que compra?

Quem gosta de museus e de arte e presta alguma atenção ao que se passa nas galerias, sabe que não importa só vender, mas sim vender para a colecção certa, para o museu legitimador e, por exemplo, Joana Vasconcelos não tem obras no museus que importam como a Tate em Londres, ou o MOMA em Nova Iorque, ou o Pompidou em Paris. Este tão importante reconhecimento pelos pares escapa a esta artista, a qual se encerrou num magnífico isolamento imune aos que seriam os seus interlocutores mais válidos. Na inauguração era notória a ausência de pessoas ligadas à cultura, de outros artistas e dos actores principais do meio em que artista escolheu trabalhar.

A estratégia do seu “pavilhão flutuante” foi extremamente pragmática. E foi-o por diferentes razões. Não só porque conseguiu resolver problemas dramáticos de orçamento e de lugar para a realização da exposição (um insuficiente, o outro inexistente), mas também porque tira partido de uma ruína industrial que o nosso gosto contemporâneo tanto aprecia e, depois, porque qualquer coisa que se faça num barco revestido com uma réplica de o Grande Panorama de Lisboa (excepcional painel de azulejos datado de cerca 1700 no qual esta desenhada uma vista panorâmica de Lisboa a partir do rio) que transporta os seus visitantes num cruzeiro através dos canais de Veneza não pode ser senão irresistível.

Mas é o barco e agora o Tejo e a vista sobre Lisboa que são belas, não é a arte. E repetir em entrevistas e textos que se trata de uma “obra de arte total” é um engano. Em rigor o elemento artístico (que é a obra propriamente dita) está confinado a uma sala do Cacilheiro, o resto são espaços bem desenhados com um aproveitamento eficaz dos materiais dos patrocinadores e mais uma loja, música ambiente e até um bar. 

Não há dúvida que a atmosfera deste cacilheiro, tal como se viu na inauguração do Trafaria Praia, é “cool”, mas está longe de ter a força crítica, a vitalidade actuante e a pertinência estética, política e cultural que a arte deve ter. E ao contrário da estratégia que dominou a construção deste pavilhão, a heterogeneidade e multiplicidade de elementos presentes não ajudam a obra, mas são distracções que atiram o olhar, a atenção e a concentração de tal modo para longe da sala escura das Valquírias (nome da obra da artista instalada no barco) iluminadas a leds de Joana Vasconcelos que a determinado momento só apetece perguntar, como fez um convidado durante a inauguração, "onde está a arte?"

Outra pergunta que não se pode deixar de fazer, dando ecos de um texto da historiadora Mariana Pinto dos Santos na revista Intervalo, “é bonito, mas é arte?” E fazer esta pergunta não equivale a esquecer as lições do modernismo, das vanguardas artísticas e, claro, de Duchamp. Sabemos que até um urinol pode ser arte, mas também sabemos que só o pode ser depois de uma acção metamorfoseadora do artista e esta metamorfose Joana Vasconcelos não soube fazer.

Crítico de arte