Há menos estudantes do secundário a querer tirar um curso superior

Vontade de continuar a estudar baixou quase oito pontos percentuais desde 2008, crescendo o número dos que justificam a opção com as dificuldades financeiras da família.

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O número de estudantes que, à saída do ensino secundário, declara querer prosseguir a sua formação entrando no ensino superior não tem parado de diminuir desde 2008. A maioria dos jovens ainda pretende continuar os estudos, mas essa escolha tem vindo a perder peso. Razões económicas são mais apontadas para não querer continuar a estudar.

O inquérito aos estudantes à saída do secundário do ano lectivo 2012/13 foi publicado recentemente pela Direcção-Geral das Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) e revela que 67,9% dos estudantes pretendem continuar os estudos depois de concluir o 12.º ano. Apesar de ainda serem a maioria, o número dos que pretendem prosseguir a sua formação académica tem descido de forma consistente em relação a anos anteriores. Desde 2008, a quebra é de 7,7 pontos percentuais.

Todas as outras possibilidades após o ensino secundário estão em crescimento: no final do último ano lectivo, 17,3% dos estudantes pretendiam deixar de estudar após o 12.º ano (eram 12,8% em 2008) e 1,3% não queriam sequer acabar o ensino secundário (há cinco anos 0,7% manifestavam intenção semelhante). O mesmo estudo da DGEEC revela ainda que 13,5% dos estudantes ainda não tinha opinião formada na altura em que foi aplicado o inquérito, um número mais alto do que o registado em anos anteriores (10,9% davam, em 2008, essa resposta).

Desejo de trabalhar

Estes números acabam por ser coerentes com os que foram divulgados em Junho pelo Governo, aquando do início da época de exames do ensino secundário. Mais de 40% dos estudantes que iam fazer as provas nacionais não pretendiam prosseguir os estudos para o ensino superior.

Entre os estudantes inscritos nas provas, a maioria (57%) continuava a ser igualmente candidata ao ensino superior no ano lectivo seguinte, mas esse valor era quatro pontos percentuais inferior ao que tinha sido registado um ano antes, havendo menos 9356 estudantes finalistas que mostravam vontade de continuar os estudos nas universidades e nos politécnicos.

“Não creio que a explicação resida na ‘atractividade’ do ensino superior”, diz a socióloga da Educação da Universidade do Minho (UM) Fátima Antunes. “A minha convicção é que a situação económica de muitas famílias e as expectativas negativas quanto ao futuro serão o mais frequente e forte motivo de desencorajamento de projectos de frequência do ensino superior.”

Com a população portuguesa a empobrecer e muitas famílias com menos rendimento disponível, o projecto de prosseguir estudos “está a ser bloqueado”, aponta a mesma especialista. “Basta falar com professores do ensino básico e secundário ou olhar à nossa volta para encontrarmos situações em que os filhos mais velhos estão no ensino superior, mas os mais novos já não podem prosseguir ou situações de jovens que interromperam esse projecto porque um ou ambos os pais ficaram, ou temem ficar, desempregados”, ilustra a investigadora da UM.

Os dados do inquérito aos estudantes à saída do secundário do ano lectivo 2012/13 confirmam esta explicação. Um terço dos estudantes que declaram não pretender prosseguir estudos fazem-no por dificuldades económicas. Entre os motivos apresentados pelos jovens para justificar a não continuação dos estudos, esse é o que mais cresce nos últimos cinco anos. Em 2008, 22,4% os alunos davam essa justificação.

A razão que lidera a lista das mais referidas para não prosseguir estudos é também económica: a vontade de arranjar um trabalho para terem o seu próprio dinheiro (51,9%).

Não gostar de estudar é mencionado por 31,8%. Outro motivo frequente é considerar a entrada no ensino superior difícil (18,3%).

Expectativas elevadas

Fátima Antunes recorda que os candidatos do regime geral do concurso nacional de acesso ao ensino superior diminuíram face a 2008, mesmo tendo aumentado o número de diplomados do ensino secundário. A socióloga entende que esta tendência acompanha a redução do rendimento disponível das famílias e o agravamento do desemprego, bem como os cortes do financiamento do ensino superior e dos apoios sociais aos estudantes economicamente mais desfavorecidos.

O inquérito da DGEEC aos alunos que acabaram o ensino secundário no último ano lectivo mostra também que o percurso escolar e as expectativas profissionais tendem a ser diferentes tendo em conta as condições socio-económicas de base dos alunos.

O desejo de prosseguimento de estudos após o 12.º ano é tanto maior quanto mais elevadas as habilitações escolares das famílias dos estudantes (79%, no caso em que a habilitação dominante na família é ao nível superior, 44,2% no caso de não exceder o 1.º ciclo). Os estudantes provenientes de famílias com menos habilitações académicas são aqueles que mais consideram frequentar um curso superior politécnico (13,3%) ou uma formação especializada não superior (6,5%), apesar das suas expectativas serem maioritariamente tirar um curso superior universitário.

O estudo questionou também os jovens sobre o que acham que vai ser a sua actividade profissional aos 30 anos e cerca de metade diz que não sabe. Entre os alunos que têm expectativas profissionais já definidas, a maior parte das escolhas recai no desempenho de profissões inseridas no grupo dos “especialistas das profissões intelectuais e cientificas” (29,2%) e dos “técnicos e profissionais de nível intermédio” (9,7%).

“As opções escolhidas pelos estudantes revelam elevadas expectativas profissionais num futuro a médio e longo prazo, na medida em que as profissões identificadas inserem-se nos grupos profissionais que são mais prestigiados e valorizados socialmente”, sublinha o relatório da DGEEC que acompanha o estudo.