Crítica

A complexa vida dos heterónimos

Analisar e reconstruir a lógica dos sistema heteronímico pessoano, na origem do qual está o “Mestre Caeiro”, eis a tarefa ensaística de José Gil

Este livro, composto por quatro ensaios sobre a heteronímia pessoana, surgiu poucos meses antes do centenário do “dia triunfal”, 8 de Março de 1914, o dia que Fernando Pessoa, na célebre carta a Casais Monteiro, indicou como a data precisa em que se deu a génese dos heterónimos (este centenário foi motivo de um colóquio internacional de pessoanos, que teve lugar na Gulbenkian). A multiplicação heteronímica e o estatuto dos heterónimos – assim como a relação entre eles – são, como sabemos, a questão pessoana por excelência e aquela que mais implicações teve nas várias elaborações interpretativas que tentaram uma visão de conjunto da obra do poeta. Desde o seu Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações que José Gil se debate com esta magna questão, tendo mobilizado para o efeito conceitos e categorias de diversos domínios – estéticos, literários, filosóficos, metapsicológicos – e construído assim hipóteses de interpretação à altura da complexidade do sistema pessoano. Neste recente livro, vai mesmo directo à questão do que são os heterónimos (“Qual o estatuto – ficcional, literário, ontológico – de que gozam?”), mostrando que, em Pessoa, toda a passagem do plano da vida para o plano da literatura supõe a noção de “vida heteronímica”, constituída por afectos, visões, sensações, etc. E aí abre-se um vasto campo a explorar: por um lado, os heterónimos são dotados de uma forte autonomia, ao ponto de poderem manter entre si um diálogo e uma relação polémica; mas, por outro, a constelação compreende um lugar tutelar, ocupado pelo “Mestre Caeiro”, precisamente aquele que se quer subtrair ao pensar, a toda a metafísica, para se deixar conduzir apenas pela ciência do ver e do sentir (o ver é, nele, uma condensação de todos os sentidos). Porque é que Caeiro é o heterónimos de onde os outros derivam e porque é que goza da prerrogativa do “mestre”? Esta é a questão central que conduz o percurso interpretativo de José Gil e que o leva a construir uma lógica do sistema heteronímico pessoano que faz de Caeiro a origem e o fim – a origem dos heterónimos e “a própria heteronímia realizada”. Para perceber este estatuto do “Mestre Caeiro”, José Gil mostra como ele, na sua maneira de sentir, fornece a resposta a algo que atravessa todos os outros heterónimos: o que é uma sensação? Como se dá esse redobramento que resulta na consciência da consciência da sensação? Como é fácil perceber, José Gil faz da poesia de Caeiro uma realização plena da estética sensacionista. E, noutro plano, analisa a morte de Caeiro como um acontecimento necessário na lógica do sistema. A importância da análise das sensações leva-o, aliás, a fazer uma distinção de onde decorrem questões essenciais: a distinção entre estética e poética, o que supõe esta verificação: cada heterónimo supõe uma poética diferente, mas não implica necessariamente uma estética própria (e isto significa, desde logo, considerar que o sensacionismo é uma teoria estética e não um movimento literário). Como se passa da sensação (do plano estético, no sentido primeiro da palavra) para a “sensação poética”, eis o vasto e complexo campo de análise a que se oferece a proliferação de poéticas heteronímicas. O último ensaio, o que dá o título ao livro, prolonga estas questões através da identificação e análise minuciosa das Stimmungen fundamentais (as “afecções” recorrentes) que operam no Livro do Desassossego: o cansaço, o tédio e o desassossego. Mais fácil se torna assim perceber porque é que Fernando Pessoa configurou na sua obra o sentido e a forma de uma época, como Baudelaire, com o seu spleen, também o tinha feito. 

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