Há mais do que uma maneira de fazer música em Cabo Verde

A música é o único recurso natural que Cabo Verde acredita ter potencial para alavancar a sua reconversão económica. Mas num país em que os direitos de autor só existem no papel, nem sempre é uma maneira de ganhar a vida.

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Nascida em Lisboa, onde viveu até agora, Lura acaba de instalar-se em Cabo Verde Paulo Pimenta
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Batchart, porta-voz da geração que não aceita ver o hip-hop despromovido como “chuinga” (pastilha elástica) Tó Gomes/Atlantic Music Expo

Aos 58 anos, Daniel Fernandes gostaria de já ter podido reformar-se do seu trabalho no porto de São Filipe, ilha do Fogo, onde continua a ganhar a vida a conferir mercadorias. Isto aos dias da semana – às sextas, aos sábados “e às vezes aos domingos”, como uma parte da população cabo-verdiana que todos acreditam ser invulgarmente significativa mas ninguém ainda quantificou, Daniel é por umas horas aquilo que queria ter sido a tempo inteiro, e não apenas em bares, hotéis e restaurantes, nem apenas durante as horas que dura uma festa de casamento ou um almoço de baptizado.

“É muito má a vida de um músico no Fogo. Não dá de comer”, diz ao PÚBLICO segundos antes de a conversa ser interrompida por uma desconhecida que lhe pode mudar a vida ou então deixar tudo exactamente na mesma.

O CD que Daniel, aliás Putchôta, tem para dar a Nadine McNulty – radialista canadiana e directora artística da Batuki Music Society, que se dedica à promoção da música africana feita no continente e na diáspora – é tudo o que pôde gravar desde que aos 14 anos começou a tocar chocalho nos bailes, “com os antigos”. “Na altura pagavam três escudos, que eu dava à minha mãe: era muito dinheiro. Agora pagam três mil escudos [cerca de 30 euros] para tocar cinco horas seguidas, sem parar, das nove da noite às duas da manhã – três mil escudos que tenho de dividir com os meus músicos”, reclama. Em 1998, também esperou que esse CD, gravado por iniciativa de um casal francês que o viu a cantar no Fogo “e gostou muito”, mudasse alguma coisa. “Não aconteceu nada.” É por isso que faz questão de não se entusiasmar agora que lhe traduzimos o que Nadine tem para lhe dizer: “O Daniel Fernandes é o tipo de cantor e de compositor de que ando sempre à procura e raramente encontro, porque não estão no circuito e é preciso ter tempo, dinheiro e alguma sorte para os encontrar. Se ele pudesse sair em digressão agora, não hesitava em agendar-lhe concertos no Canadá. Mas vou levar o CD e se a gravação for boa é garantido que o passarei na rádio.”

É provável que não seja: não há nenhum estúdio de gravação no Fogo e o CD de Daniel Fernandes é o típico objecto amador que caracteriza uma parte substancial da produção discográfica cabo-verdiana. Que, à margem de qualquer circuito de distribuição minimamente formal, ele tenha ido parar à mala de uma programadora canadiana não é bem um fenómeno paranormal: aconteceu logo no primeiro dia de showcases do Atlantic Music Expo (AME), o mercado vocacionado para o espaço transatlântico com que o Governo cabo-verdiano quer sinalizar que a música (o mais intangível dos bens intangíveis) é o único recurso natural com potencial para alavancar a pesada agenda de transformação económica do país, e que por uma semana transformou a Cidade da Praia “na capital da world music” (palavras do primeiro-ministro).

Não é propriamente uma opção política, antes uma imposição da realidade, explicou entretanto a ministra das Finanças e do Planeamento, Cristina Duarte, numa conferência de imprensa só para os jornalistas estrangeiros: “É por isso que é muito fácil governar Cabo Verde. Ao contrário de outros países africanos, nós não temos alternativas. O AME está a ajudar-nos a construir a nossa marca e todos sabemos que para competir hoje no mercado internacional a marca importa. Se até 2016 não conseguir financiar-se a 100 por cento, como é nosso objectivo, através do sector privado e dos apoios internacionais, nós estaremos lá. Não vamos perder a oportunidade nem ceder este nicho a terceiros.”

Um icebergue de precariedade

É um nicho que ninguém sabe exactamente quanto vale: anteontem o ministro da Cultura (e músico) Mário Lúcio, citado pela Lusa, lembrava aos jornalistas locais que o sector que tutela representa 10,6% da força de trabalho de Cabo Verde, empregando mais de 21 mil funcionários, e que só a música tinha gerado seis milhões de euros de receitas nos últimos três anos. Horas depois, Cristina Duarte ressalvaria contudo que não há estatísticas especializadas, e que grande parte desta economia é informal, quando não mesmo declaradamente paralela, não beneficiando sequer os artistas mal ou bem alimentados pelo absurdamente dinâmico circuito de música ao vivo que põe Cabo Verde no mapa. A questão dos direitos de autor, cuja cobrança a lei prevê mas não parece passar do papel (“uma lacuna monstruosa”, classifica Lura, uma das artistas cabo-verdianas mais internacionalizadas da geração pós-Cesária Évora), é só a pequena ponta de um icebergue de precariedade que atinge músicos de fim-de-semana como Daniel Fernandes mas também quem vive da música a tempo inteiro e em regime profissional.

“Em Cabo Verde um músico só ganha se tocar. Na prática não há direitos de autor. Estou sempre a ouvir músicas minhas em separadores e publicidades. Há uns anos até o Ministério da Justiça usou uma música minha sem autorização”, conta Hernâni Almeida, que começou por aprender a tocar de forma autodidacta, quando foi passar férias a casa de um tio em Portugal, e só depois recebeu uma bolsa para estudar no Conservatório do Porto. “O meu tio tinha um piano em casa. Um dia liguei a televisão e estava a dar uma música do Stevie Wonder; sentei-me ao piano e comecei a tocar de ouvido. Quando o meu pai viu aquela cena, perguntou-me: queres um brinquedo desses? Não sei o que é que ele tinha na cabeça: eu queria ser piloto e o meu pai acabou com a minha carreira”, ri-se.

 Ao contrário das gerações anteriores e de muitos dos mais reconhecidos nomes da música tradicional cabo-verdiana, Hernâni – que trabalha sobretudo como produtor musical (além dele, só conhece mais dois em todo o arquipélago) e como guitarrista contratado (até 2007 com Tcheka, agora sobretudo com Michel Montrond) –, teve uma educação musical formal, ainda que inesperada e, num certo sentido, indesejada: “O [ex-presidente da Câmara Municipal do Porto] Nuno Cardoso viu-me no Mindelo a tocar com o Bau e perguntou-me se eu não queria estudar música. No dia seguinte tinha uma vaga para mim. Foi tudo muito estranho: sempre tinha tido facilidade em improvisar e agora vinham dizer-me que para isso tinha de aprender uma técnica; era obrigado a ler partituras quando para a mim a música sempre tinha sido uma coisa de ouvir, não de ver; e as aulas de história da música só diziam respeito à tradição ocidental, que não era a minha. Fui um dos piores alunos de guitarra clássica, o que é normal porque em vários anos a tocar com o Bau já tinha criado a minha personalidade e ali vi-me obrigado a resistir imenso para não a perder.”

Embora ela esteja mais nos dois discos que gravou a solo (Afronamim, de 2008, e Caalma, de 2010) do que nos concertos em que acompanha outros artistas e nos álbuns que lhes produz, Hernâni não está muito interessado em continuar a compor. “Aqui vendes mil discos e acabou-se, não há mais gente para comprar. Perdi a motivação porque gosto de compor mas também gosto de comer. Ganho bem a produzir discos – e hoje, com três estúdios, já se pode gravar um trabalho com qualidade sem ter de ir lá fora, pelo menos até à fase da mistura – mas não é o caso da generalidade dos músicos. Há muitos que andam por aí a beber grogue para esquecerem que não conseguem ter uma carreira e evoluir como artistas”, diz. Evoluir passa por garantir formas justas de retribuição, mas também pela formação, que Hernâni reconhece tê-lo tornado capaz de descodificar os problemas que um músico tem de resolver: “Todos os cabo-verdianos são músicos: se uma pessoa não toca é porque canta. Mas ainda que parte do encanto da música cabo-verdiana seja a espontaneidade, precisamos de evoluir, de ter mais gente a sair, e mais profissional. Pode ser muito romântico para um turista estar num bar às cinco da manhã a ver alguém cantar depois de muito grogue, mas na hora de assinar um contrato não é disso que a indústria anda à procura.”

Da tradição ao hip-hop

Lura, que há vários anos sabe o que a indústria procura (pelo menos desde que em 2007 gravou com o incontornável Djô da Silva o disco Di Korpu ku Alma, o primeiro em que teve “estúdio a sério, promoção a sério, concertos a sério”), sugere que por trás disso pode estar a falta de “agentes capazes de gerir uma carreira e cuidar de um artista com seriedade”. “A forma como as coisas acontecem ainda é demasiado precária. Vai a passar ali na avenida a Lúcia Cardoso – que eu saiba, é a única professora de canto em todo o país. Devia haver mais, isso faz toda a diferença. Mas vai começando a haver estúdios, os músicos estão cada vez mais exigentes, apareceram escolas e lojas de instrumentos, há um circuito de bares e salas com programação mais séria e nos últimos anos criaram-se acontecimentos muito válidos, como os Cabo Verde Music Awards, que são importantíssimos como estímulo, e o AME, que é importantíssimo para a internacionalização”, aponta.

A instalar-se pela primeira vez em Cabo Verde para ficar, depois de anos a ir e vir, Lura acredita que o facto de ter nascido e crescido em Lisboa lhe deu não só uma identidade musical como uma vantagem competitiva. “Ser filha da emigração foi determinante para que me tornasse uma cantora apaixonada pela tradição de Cabo Verde, até porque a distância e o romantismo alimentam essa paixão: a música para mim é regresso às origens e saudades de uma coisa que nunca vivi. Não sei como teria sido se tivesse nascido e crescido cá: se calhar teria tido um filho aos 14 anos, ou seria mais uma daquelas cantoras que fazem bares e lutam anos e anos por um lugar. Aqui há outras contingências”, diz. Como a de os voos para Paris serem mais caros, embora isso não a preocupe tanto neste momento como “o risco de perder o mistério” num país de menos de 500 mil habitantes onde toda a gente se conhece: “É diferente o público conhecer-me dos palcos ou ver-me às compras no centro comercial. A gestão da minha imagem vai ter de ser muito mais cuidada.”

No caso dela, continuará a ser feita por agentes em Portugal. Mas mais longe da tradição – e até em guerra aberta com ela –, uma nova geração educada na exposição a linguagens urbanas não-locais como o hip-hop está a fazer-se com as suas próprias mãos, os seus próprios meios. É aqui que entra o fato preto de Batchart (uma espécie de Jay Z, se pudéssemos imaginar Jay Z a lançar os discos gratuitamente na Internet). Descendente de uma família de músicos (o bisavô escreveu aquela que é considerada a primeira canção de intervenção cabo-verdiana nos anos 40, a grande pianista Tututa Évora era sua tia-avó, e ainda há o tio que foi um dos introdutores do rap em Cabo Verde), Batchart formou o seu primeiro grupo de hip-hop em 2003; dez anos depois, lançou o seu primeiro álbum, Wikileaks, em modo totalmente freelance: “Cheguei num tempo em que é possível usar ferramentas alternativas não só de produção como de promoção e essa foi a minha sorte. Se hoje tenho popularidade é porque percebi a necessidade de usar canais alternativos: as rádios não passavam a minha música, há muitos corredores de interesses por trás.” É mais do que isso: no ano passado, tornou-se o porta-voz da geração que não aceita ver o hip-hop despromovido como “chuinga” (pastilha elástica) e reivindica o mesmo direito a ser ouvido que a música tradicional.

O facto de Wikileaks ter atingido num dia o volume de downloads que era esperado num mês prova que há outras maneiras de fazer música em Cabo Verde, como no resto do mundo: forçando a porta da indústria com as ferramentas do marketing digital (YouTube, Facebook, blogues), pedindo dinheiro emprestado, fazendo 1001 contas de cabeça para poupar custos e fazer o brilharete de lançar o disco em seis ilhas diferentes sem com isso ir à ruína. Talvez Jay Z não conseguisse.

O Público viajou a convite da Tumbao.