Opinião

A cara sincera

A minha cara denuncia agora os meus sentimentos, por muito que eu queira escondê-los.

Começa quando chegamos aos cinquenta anos: isto para avisar quem ainda não chegou. Sim, foi no fim do primeiro lustro do século XXI que começaram a dizer-me, sem indicação consciente minha, facial ou verbal, aquilo que me ia na alma.

"Estavas furioso", disse-me a Maria João anteontem, quando me viu cumprimentar um homem a quem eu pensava ter sido amável.

Uma das vantagens da velhice é deixarmos de nos preocuparmos com o que pensam os outros. Começa quando percebemos que somos nós - cada um de nós - que temos a única vida que vamos ter e que somos nós - cada um de nós - que vamos morrer sozinhos, cada um de cada vez.

O problema - que é provavelmente uma solução - é que deixamos de conseguir disfarçar. A capacidade de se ser sonso é um sinal de juventude. Quando somos novos queremos (se calhar porque precisamos) que os outros gostem de nós.

Quando passa o "mezzo del camino di nostra vita", na previsão hiper-optimista que duraremos até aos cem anos, alguma bomba consoladora de indiferença rebenta-nos na alma.

A minha cara - tal como as caras dos meus pais, das quais me lembro quando tinham a minha idade - denuncia agora os meus sentimentos, por muito que eu queira escondê-los. Que deve ser, recomendavelmente, pouco. Por uma questão de progresso.

Já que a falácia mais reconfortante de todas é aquela que nos permite pensar que, contra todos os sinais físicos, o acréscimo e a ilusão de sabedoria chegam para pô-las em causa.

Pois sim. Tomara.