Mentor da petição contra a exportação dos Mirós propõe consórcio de investidores

Mesmo que a colecção venha a sair do país, Carlos Cabral Nunes ainda acredita que será possível expô-la em Portugal antes do leilão da Christie's, previsto para Junho

Exposição de quadros de Joan Miró no Centro Georges Pompidou
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Exposição de quadros de Joan Miró no Centro Georges Pompidou Thomas Coex/AFP

O galerista e artista Carlos Cabral Nunes, mentor da petição pública que apela ao Governo para que mantenha em Portugal a colecção de obras de Miró, disse ao PÚBLICO que “qualquer solução que permita que as obras fiquem em Portugal é melhor do que vendê-las”, mas também reconhece pertinência aos argumentos invocados pela Parvalorem para não considerar a proposta de um determinado investidor, seja ele qual for, e preferir o leilão. “Os argumentos não estão errados”, diz, “porque num leilão se podem conseguir valores mais altos, e porque, a vender-se a um investidor, pode sempre aparecer depois outro a dizer que oferecia mais”.

A solução preconizada por Cabral Nunes passaria pela criação de um consórcio, que poderia integrar o empresário angolano de origens portuguesas Rui Costa Reis e “outras pessoas que apresentaram propostas de aquisição”, e que compraria a colecção pelo valor máximo esperado pela leiloeira Christie’s: cerca de 60 milhões de euros. Já a expectativa mínima ronda os 36 milhões de euros, menos do que os 60 milhões de dólares (44 milhões de euros) oferecidos por Rui Costa Reis.

Carlos Cabral Nunes está convencido de que “uma colecção como esta, se bem gerida, se paga a si mesma e gera retorno financeiro”, e defende que uma percentagem desse lucro deveria ser para o Estado português, ficando o remanescente para os investidores. O objectivo seria manter a colecção em Portugal, usando-a como ponto de partida para uma nova instituição museológica vocacionada para a arte do século XX, mas fazendo-a circular por museus nacionais e estrangeiros.

E acha que “seria interessante a colecção ficar no Porto”, uma vez que “Lisboa tem a colecção Berardo” e no Porto, observa, “não há nenhuma instituição que cubra este período, já que Serralves se centra sobretudo na segunda metade do século XX e na arte contemporânea”. Em Fevereiro, quando ainda não podia prever que um empresário angolano com raízes portuenses – a mãe de Rui Costa Reis nasceu na cidade, embora tenha ido para Angola ainda bebé – ia tentar comprar os Mirós e garantir que ficariam no Porto durante 50 anos, o vereador da Cultura da Câmara do Porto, Paulo Cunha e Silva comentou ao PÚBLICO, em tom de brincadeira: “Se o secretário de Estado da Cultura quiser oferecer-me a colecção, com certeza que lhe arranjaria um espaço na cidade”.

Independentemente do destino que a colecção vier a ter, Carlos Cabral Nunes continua empenhado em que ela possa ser exposta em Portugal. Um cenário que começa agora a parecer mais concretizável: a Parvalorem já assumiu que autorizaria, caso a Christie’s não levantasse objecções, e “uma importante instituição museológica do país” que Cabral Nunes não quis identificar já aceitou expor as obras no curto prazo disponível até à realização, em Junho, do leilão da Christie’s,  admitindo que este venha mesmo a concretizar-se.

Os responsáveis da petição já criaram mesmo um site – www.juanmiroportugal.wordpress.com –, no qual aceitam pré-reservas para a eventual futura exposição, que, a concretizar-se. dificilmente poderá estar patente mais do que um mês.

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