Crítica

Rithy Panh lembra-se

O regime dos Kmers Vermelhos suprimiu a humanidade. É a derradeira “imagem” que este filme procura recuperar.

Em 1975, quando os Khmers Vermelhos entraram em Phnom Penh, Rithy Panh era um garoto de onze anos, filho de uma família da classe média urbana. O que a seguir aconteceu à sua família aconteceu a centenas de milhares de outras famílias cambojanas: foram expulsos de casa e enviados para um campo de trabalho, para servirem de mão de obra escrava no mesmo passo em que eram “reeducados”. Rithy Panh perdeu a família nos campos dos Khmers Vermelhos, e ele próprio deve a vida a ter conseguido escapar alguns anos mais tarde, então já um jovem adolescente. Não custa nada imaginar que tudo isto seja experiência que não se esqueça. E se Rithy Panh tem trabalhado por diversas vezes a memória do período do terror dos Khmers Vermelhos, incentivando o debate na sociedade cambojana, este é o filme em que o faz de modo mais autobiográfico. É o filme em que “se lembra”, é o seu amarcord. A “imagem que falta”, mencionada no título, tem também este sentido: é a imagem da sua família e a imagem da sua infância, a imagem que o filme, de forma bastante inesperada e singularmente tocante, tenta recuperar.


Quem conheça outros filmes de Rithy Panh sobre o terror do regime de Pol Pot, e nomeadamente o espantoso S21, a Máquina de Morte dos Khmers Vermelhos (sobre a prisão central do regime, onde se torturaram e mataram incontáveis cambojanos, e onde Panh promovia um inacreditável reencontro entre vítimas e torcionários), talvez comece por estranhar esta carga emotiva que a autobiografia traz (afinal de contas não há assim tantos exemplos, nem para o Holocausto, de cineastas que tenham podido contar a experiência do seu sofrimento), e ainda mais o modo figurativo que o realizador escolheu para a reconstituição - pequenos bonecos de argila pintada, que representam as personagens em sucessivos diaporamas retratando as mais diversas situações, sobretudo no campo de trabalho mas também antes dele (a casa familiar, que como Rithy Panh explica em entrevista foi o lugar de onde o filme partiu).

Mas é evidente que também esses bonecos são “imagens”, “imagens que faltam”, e do confronto entre a gravidade dramática, de que são investidos pela narração, e o seu aspecto de brinquedos de crianças nasce muito do poder do filme: é um “faz de conta” construído sobre memórias dolorosas, uma mise en scène (e quer desenho do espaço quer os movimentos de câmara, que geram toda a “animação” propriamente dita, lembram às vezes o estilo do checo Jiri Trnka) que une um destino pessoal a um trajecto colectivo, quase como num melodrama clássico, a que nem falta um apropriadamente elaborado trabalho sobre a música, a música popular cambojana mais tradicional ou mais “pop” que se ouvia em 1975 e rapidamente se deixou de ouvir. Por tudo isto, e ao pé de um filme como S21, A Imagem que Falta é o single de Rithy Panh, o filme com “refrões” que acolhem e enleiam o espectador a partir de procedimentos quase clássicos. Não espanta que tenha sido o seu filme com maior divulgação internacional, incluindo mesmo uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro: é um filme caloroso, apesar de todas as desgraças que narra.

Conduzi-lo da maneira irrepreensível como o faz já seria mérito suficiente, mas o grande atributo do filme está na capacidade de integrar esta narração autobiográfica numa estrutura bastante complexa, a que não escapa, no seu centro, uma reflexão - sempre as “imagens que faltam” - sobre a propaganda do regime Khmer Vermelho, e particularmente sobre as imagens produzidas por ela, na maior parte destruídas ou desaparecidas. É portanto também um filme de e sobre “imagens-arquivo”, um longo ensaio, ou antes uma sucessão de curtos ensaios, sobre imagens precisas, imagens dos campos, imagens de Pol Pot e outros altos funcionários do regime, imagens que na origem propunham a sua própria, tresloucada e inflexível, mise en scène da realidade. E o que nelas Rithy Panh procura, reinterpretando-as, “perfurando-as”, é sempre aquilo que elas suprimiam: a humanidade, derradeira “imagem” que este filme procura recuperar, a primeira “imagem” que os Khmers Vermelhos negaram.

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