Alterações climáticas vão limitar barragens e regadio no Sul da Europa

IPCC alerta para probabilidade de “falhas sistémicas” envolvendo vários sectores, em vários países, devido a eventos climáticos extremos.

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Mudanças climáticas vão ter impacto negativo na produção de energia hidroeléctrica nos países do Sul Nuno Oliveira
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Nuno Oliveira
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Cheias na Europa em 2013, algo que se poderá tornar mais comum CHRISTOF STACHE/AFP
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Fenómenos extremos, como secas, serão igualmente mais comuns NICOLAS ASFOURI/AFP

Construir mais barragens e apostar na agricultura de regadio são algumas opções recentes de Portugal que podem vir a estar em causa no futuro, devido à subida do termómetro global, segundo um novo relatório da ONU sobre as alterações climáticas. Uma Europa mais quente irá enfrentar mais “falhas sistémicas”, afectando inúmeros sectores e países ao mesmo tempo.

Com um clima mais seco e com menos água nos rios, a produção hidroeléctrica no Sul da Europa pode cair até 15% em 2050, em relação aos níveis de 2005. Pelo mesmo motivo, a rega não será boa alternativa para compensar os efeitos das alterações climáticas na agricultura, onde pode haver perdas de até 25%, num cenário extremo.

A contradição entre as apostas de hoje e o que pode acontecer no futuro é um dos alertas que emergem do novo relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), cuja síntese é divulgada esta segunda-feira em Yokohama, no Japão. É o segundo volume de uma série de três sobre as causas, as consequências e as soluções daquele que é tido como o maior desafio da civilização humana neste século.

Cientistas e governos discutiram palavra a palavra, em Yokohama na útlima semana, a redacção final do “sumário para decisores políticos”, um documento com cerca de 30 páginas que é agora divulgado. O resumo baseia-se num documento maior, com mais de 2000 páginas, com uma avaliação minuciosa sobre o que a ciência sabe acerca dos impactos do aquecimento global, e que será disponibilizado nos próximos dias.

Segundo o rascunho final deste documento alargado, visto pelo PÚBLICO, os impactos na Europa – que ocupam um dos 30 capítulos do relatório – serão sentidos sobretudo nos países do Sul, incluindo Portugal. Sectores como a saúde, o turismo, a energia, as florestas e a agricultura serão particularmente afectados.

O relatório porá em evidência a complexa ramificação de efeitos que os europeus vão sentir num mundo mais quente. Um bom exemplo é o da energia. As necessidades de aquecimento podem diminuir 11% a 20% até 2050 e as de arrefecimento podem subir 74% a 118% até 2100, na Europa como um todo. Como há menos casas hoje com ar condicionado do que com aquecimento central, o saldo final pode ser positivo, ou seja, a Europa vai consumir menos electricidade para produzir calor e frio.

O sistema eléctrico vai ter, no entanto, de se preparar para mais picos de consumo no Verão, sobretudo em países que hoje têm temperaturas moderadas nessa estação.

Além disso, a forma como a electricidade será produzida enfrentará novas dificuldades. Até 2050, não estão previstas grandes alterações na energia eólica, mas na segunda metade do século o seu potencial pode decrescer. Com as mudanças regionais na quantidade de chuva, a produção hidroeléctrica pode aumentar 5% a 14% na Escandinávia, mas diminuir em 6% a 36% na Europa continental e 5% a 15% no Sul até 2100.

As centrais térmicas enfrentarão problemas com os seus sistemas de arrefecimento no Verão, devido à menor disponibilidade de água nos rios. Pode haver uma queda de 6% a 19% na sua operação durante o Verão.

Na agricultura, o Norte da Europa sairá beneficiado, com aumento na produtividade, mas o Sul poderá sofrer grandes prejuízos. Se a temperatura média na região subir 5,4 graus Celsius – um cenário extremo –, as culturas de sequeiro podem ter perdas de até 25% em 2080, sacrificando 1% ao PIB.

Aumentar o regadio “pode não ser uma opção viável”, devido à redução da água que corre nos rios e está depositada no subsolo, segundo a versão preliminar do relatório do IPCC. Um estudo referente à Itália, citado no relatório, estima que os custos do regadio podem subir até 27%.

O risco de incêndios florestais vai aumentar ainda mais no Sul da Europa, com estações de fogos mais longas, mais dias de perigo elevado e um aumento da área em ardida em três a cinco vezes, num dos cenários mais desfavoráveis de subida da temperatura até 2100.

Eventos extremos
Um dos principais alertas que o relatório do IPCC trará é quanto ao aumento da probabilidade de que eventos extremos, como ondas de calor e cheias na Europa, causem “falhas sistémicas” em vários sectores, de vários países, ao mesmo tempo.

Ondas de calor mais frequentes não só aumentarão a mortalidade no Verão, sobretudo no Sul da Europa, como terão também efeitos simultâneos na agricultura, florestas, produção e uso de energia, transportes, turismo, produtividade do trabalho e construções.

O mesmo vale para as cheias no litoral – como as que ocorreram neste último Inverno em Portugal. Se nada for feito, espera-se que a população em risco na costa, em toda a União Europeia, no final do século aumente em 775 mil a 5,5 milhões de pessoas e que os custos atinjam 17.000 milhões de euros por ano.

A palavra-chave obrigatória é adaptação, já que muitos efeitos apontados no relatório serão sentidos com um aumento de apenas um grau Celsius em relação a meados do século XIX. E a temperatura média da Terra já subiu 0,8 graus e na Europa 1,3 graus. 

Algumas estimativas colocam o custo desta adaptação em 3500 milhões de euros por ano para o litoral, em 2100, e de 7900 milhões de euros por anos para as cheias dos rios, em 2080.

O relatório do IPCC salientará que medidas de adaptação podem ser eficazes na protecção dos riscos da subida do nível do mar. E irá referir também que muitos países europeus já têm estratégias climáticas para o futuro. Mas alerta para o facto de não haver provas de que estejam mais bem preparados para enfrentar um dos maiores problemas previstos, as ondas de calor.

O leque de possíveis efeitos das alterações climáticas é enorme. A diversidade de animais e plantas pode diminuir no Sul da Europa e aumentar no Norte. As aves, por exemplo, podem passar a fazer os seus ninhos até 550 quilómetros a nordeste de onde hoje fazem, em 2100.

O relatório citará também efeitos em áreas tão específicas como a produção de vinhos, os acidentes rodoviários ou o património cultural.

Em Setembro passado, o IPCC já tinha divulgado um primeiro relatório a realçar a responsabilidade humana no aquecimento global mais recente e a projectar um aumento de até 4,8 graus na temperatura global e uma subida de até 82 centímetros no nível médio do mar até 2100.

Em Junho, será divulgado um terceiro relatório sobre o que fazer para minimizar o problema. Os três relatórios formam a quinta avaliação do conhecimento científico sobre as alterações climáticas feita pelo IPCC desde a sua criação em 1988. A avaliação anterior tinha sido realizada em 2007.

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