Editorial

A catástrofe ou a mudança?

O relatório do IPCC mostra que o tempo das ambiguidades quanto às alterações climáticas chegou ao fim.

O debate sobre as alterações climáticas tem conhecido várias mutações ao longo dos tempos.

A estupefacção que gerou inicialmente traduziu-se ao mesmo tempo em declarações de intenções e no estabelecimento de metas que nunca foram cumpridas e na persistência de um ruído de fundo contestando os avisos dos cientistas e a necessidade de mudança que estava implícita nesses avisos.

Num mundo dominado por uma crise global mais premente, a crise económica e financeira, a questão das alterações climáticas foi progressivamente saindo do topo da agenda. A dificuldade em alcançar consensos políticos à escala mundial acentuou essa tendência para desvalorizar uma realidade que nos está a bater à porta.

O documento do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), o segundo de três que fazem parte da avaliação do impacto das alterações climáticas deste organismo das Nações Unidas, que havia feito uma idêntica avaliação em 2007, deixa alertas muito sérios aos decisores políticos. E não deixa dúvidas quanto aos riscos que as mudanças climáticas representam para Portugal e para a Europa.

Num certo sentido, com este relatório parece ter-se virado uma página. Fala-se pouco de reduções de emissões de gazes com efeito de estufa, por exemplo, e muito de ameaças concretas nos planos da segurança alimentar e das cheias nas zonas do litoral . O impacto nos preços dos cereais da onda de calor que varreu a Rússia em 2009/2010 é um exemplo de como, numa economia interligada, os chamados eventos extremos, que tendem a ser cada vez mais frequentes, podem ter implicações à escala planetária. No caso de Portugal, e da Europa no seu todo, o aquecimento global obrigaria a respostas comuns à escala comunitária para enfrentar um novo mapa climático que se desenha.

Mais do que uma ameaça projectada no futuro, as alterações climáticas estão a exprimir-se através de cheias ou ondas de calor catastróficas, com custos humanos e económicos incalculáveis. Mas será isso suficiente para a humanidade mudar?