Crítica

Cadências Obstinadas

Cadências Obstinadas, que começa por ser um raio de um título, é a segunda longa-metragem realizada por Fanny Ardant, depois da estreia, há meia-dúzia de anos, com Cinzas e Sangue. Infelizmente também é um raio de um filme, confuso e desajeitado à beira do desastre. Rodado em Portugal, mas mantendo uma aura “insituada” que só realça o seu desenraizamento (pois nenhum lugar verdadeiramente “vive”), o aspecto mais curioso é o seu elenco, razoavelmente heteróclito: os portugueses Nuno Lopes e Ricardo Pereira, a italiana Asia Argento, essa velha glória do cinema italiano que é Franco Nero, o romeno Tudor Istodor, o belga Johan Leysen, e last but not the least o imenso Gérard Depardieu num pequeno papel (de padre). A história, cheia de desvios e alçapões (ambição não falta a Ardant), centra-se numa crise conjugal: Asia Argento, em modo muito mais “composto” do que o registo “boneca selvagem” a que nos habituou durante anos, largou a sua carreira musical por amor ao marido (Lopes), que nem por isso deixou de se dedicar obsessivamente ao seu trabalho de arquitecto. A possibilidade de um come-back, espicaçado pela frustração, serve de faísca para a crise.


Depois Cadências Obstinadas é um corrupio, um vai e vêm de personagens em cenas normalmente curtas onde é possível perceber (ambição, de facto, não falta a Ardant) uma vontade de imprimir à narração um sentido vertiginoso que corresponda também a uma “cadência” musical, elemento sempre presente (o violoncelo de Asia é “dobrado” pela conhecida Sónia Wieder-Atherton). O problema é que Ardant rapidamente perde a mão nessa vertigem, e Cadências Obstinadas, pesem todas as suas potenciais boas ideias, parece apenas um filme descontrolado, uma roda morta-viva onde toda a gente se agita muito e se angustia muito sem que alguma vez o filme consiga traduzir isso, dar substância às angústias, às obsessões e às paixões das suas personagens. Não é um falhanço indigno, mas é um falhanço sem remissão.