O arquitecto dos tubos de papel

Shigeru Ban é o terceiro japonês nos últimos anos a receber o Pritzker, o mais importante prémio no mundo da arquitectura. Em 1986 começou a construir edifícios com tubos de papel.

Fotogaleria
Shigeru Ban fotografado esta terça-feira no seu atelier em Paris AFP PHOTO / JOEL SAGET
Fotogaleria
o museu Centre Pompidou-Metz, em França REUTERS/Benoit Tessier
Fotogaleria
A vista de uma das janelas do museu Centre Pompidou-Metz, em França REUTERS/Benoit Tessier
Fotogaleria
A catedral Cardbord na Nova Zelândia Bridgit Anderson
Fotogaleria
A catedral Cardbord na Nova Zelândia Bridgit Anderson
Fotogaleria
Paper Tower, Londres, 2009
Fotogaleria
Um pormenor das suas construções com tubos de papel (em cima) da Paper Tower (2009)

Com o Prémio Pritzker este ano atribuído a Shigeru Ban, arquitecto japonês, está relançado o tema da arquitectura “social”. O consenso generalizado é que foi premiado um arquitecto com “consciência social”, em detrimento de uma vedeta das formas. A “ética” venceu por fim a “estética”; a parasitária “arquitectura iconográfica” foi derrotada pela boa vontade.

Não é assim tão simples, é claro. Primeiro, porque a arquitectura de Shigeru Ban é altamente iconográfica; não me refiro apenas ao expressionismo tardio do Pompidou de Metz, mas também aos “tubos de papel” da catedral que construiu na Nova Zelândia. Segundo, porque a dimensão “social” existe em muitos arquitectos premiados com este galardão ao longo dos anos.

O que Shigeru Ban representa, de acordo com o “espírito do tempo”, é uma visão do arquitecto como figura assistencial, especialmente em momento de catástrofe, e já não em momento de expansão. Na tradição moderna, a questão “social” não ocorre depois do desastre, tsunami ou outro qualquer. Está inscrita na desigualdade a que as cidades dão habitualmente expressão física. Visa uma totalidade, que é hoje, em todo o caso, uma ideia romântica. Mas até no plano urbano a detestada “arquitectura iconográfica” visa estabelecer simetrias ou uma nova relação entre regiões periféricas e o centro, como é o caso do Guggenheim de Bilbau ou da Casa da Música, no Porto.

O que este prémio significa é a legitimação do arquitecto assistencialista, no momento em que a escassez de recursos, real ou fomentada, se transforma numa ideologia. A criatividade e a inovação têm hoje um bónus, se não envolverem dinheiro. Basicamente, decorrem da esfera da economia. Embora se elogie o carácter efémero das suas estruturas, Shigeru Ban fica contente, como é natural, quando as populações se afeiçoam e os edifícios permanecem.

A obra de Ban – esquecendo o discurso de não querer trabalhar para os “privilegiados” e construir o Pompidou – é um modo legítimo de a arquitectura continuar a desempenhar um papel, numa sociedade agora em superabundância de museus e equipamentos culturais. Significa também um modo legítimo de os arquitectos continuarem a ser úteis, agora que a expansão das cidades tende a ser cada vez menos necessária ou desejável.

O contexto japonês explica o resto. A urbanidade forte e a natureza violenta do Japão têm servido de estímulo para respostas arquitectónicas desafiantes e belas – que têm merecido, aliás, vários prémios Pritzker. A sofisticação da arquitectura tradicional, os ensaios “metabolistas” dos anos 1960 e as experiências “minimalistas” das últimas décadas estão presentes na obra de Shigeru Ban. Do lado ocidental, a tradição “orgânica” da arquitectura moderna de Alvar Aalto, a abordagem tecnológica de Buckminster Fuller e de Frei Otto (com quem colaborou), a visão poética de John Hejduk, com quem estudou na Cooper Union, em Nova Iorque, permitem traçar uma genealogia rápida: muito arquitectónica, quase historicista.

O que é importante notar é que Shigeru Ban se insere num quadro cultural que é esteticamente hostil à tradição clássica, europeia, depois continuada pela arquitectura moderna. Os tubos de cartão ou de papel significam isso mesmo: não têm aparente firmeza, utilidade, ou beleza. Mais do que as veleidades sociais, é essa abordagem não-europeia que surge como vitoriosa neste prémio, como já tinha acontecido no ano passado com Toyo Ito.

Em Sensing Spaces, a exposição actualmente patente no Royal Academy of Arts, em Londres, existe uma tensão desse tipo entre a intervenção dos dois Pritzkers portugueses, Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura, e a intervenção dos asiáticos Kengo Kuma, Li Xiaodong, e também do africano Diébédo Francis Kéré. A intervenção dos portugueses remete para o mundo clássico num modo crepuscular: a origem da coluna ou a sua ruína (Siza), e o intradorso de duas portas em representação fantasmagórica (Souto de Moura). A esta representação espectral contrapõe-se a alegria informal das outras intervenções, na lógica do Prémio Pritzker deste ano.

Os arquitectos construíam para os ricos, porque todos íamos ser ricos, entre 1988 e 2008. Agora querem construir para os pobres, porque todos vamos ser pobres.

Precisam de saber para onde o vento sopra. Shigeru Ban tem a vantagem e a autenticidade de quem começou cedo, em 1986, a construir edifícios com tubos de papel.

 
Crítico de arquitectura