Eric Vives-Rubio
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Eric Vives-Rubio

Quando o metro de Lisboa volta a ser a casa dele

António Jorge Gonçalves transformou um espaço publicitário do metro num recanto de cultura. "Desenhos de Cordel" é uma pausa entre o silêncio da espera e o ruído ensurdecedor da partida

É muito fácil encontrar António Jorge Gonçalves no metro de Lisboa. "É um espaço que eu habito", diz o ilustrador que o P3 foi encontrar no cais da estação São Sebastião, linha azul, onde até ao dia 25 de Março estão 20 mupis com vinte desenhos que o autor tem publicado em obras literárias (de Dinis Machado, Ondjaki, Mário de Carvalho, Jorge Amado, João Tordo...). "Neste momento, em que tudo é medido em função dos números, em que existe uma obsessão pelo dinheiro e pela rentabilidade das coisas, é importante que um espaço de publicidade seja ocupado pela literatura, que é uma coisa que exige tempo, uma linguagem que tradicionalmente não é 'fast'."

Às tantas, entre o silêncio da espera e o ruído ensurdecedor da chegada, António parece fazer parte deste espaço. "Qualquer coisa que eu possa fazer no metro é-me sempre muito familiar", comenta num volume de voz que se adapta aos altos e baixos. "Não sei se por isso, o destino encarregou-se de me trazer muitas vezes para o metro." António Jorge Gonçalves assinou uma intervenção plástica nos tapumes das obras da Alameda em 1995, lançou o livro "Subway Life" em 2010 e volta a casa em 2014 com a exposição "Desenhos de Cordel", um piscar de olho à tradição renascentista da literatura de cordel. "São tudo coisas que têm acontecido quase acidentalmente."

"O metro é um espaço muito convidativo à introspecção. Como não se passa nada com o que uma pessoa se possa distrair... É uma espécie de elevador onde quase toda a gente tem que inventar alguma coisa para fazer: ler um livro, ouvir música... o que quer que seja. Eu, ora tenho ideias para aquilo que vou fazer, ora tomo notas de conversas que ouço... No geral é um espaço muito interessante para se estar", explica, enquanto fotografa as pessoas que vão lendo as breves citações (escolhidas pelo próprio) inscritas em rodapé e que, na sua opinião, "funcionam como ganchos para a descoberta das obras". "É uma pequena janelinha para as pessoas descobrirem alguns autores".

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António Jorge Gonçalves

"Das coisas que eu acho mais fascinantes no metro é que seguimos trajectórias muito abstractas. Estamos aqui em baixo e não sabemos muito bem onde estamos, não temos propriamente pontos de referência. Isto é uma coisa típica do metro: é um espaço que não é habitado, que apenas é ocupado; e a ocupação é cada vez mais o paradigma da cidade moderna. Já nada reside propriamente no espaço da cidade. O espaço é ocupado temporariamente. E o metro tem muito essa característica. É um sítio onde se sente muito o pulsar da própria cidade."

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Metro, o contrário de uma galeria

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Na estação São Sebastião (a exposição já esteve na estação do Saldanha e segue para a Alameda, entre os dias 26 de Março e 1 de Abril), cruza-se uma parte da sua carreira, uma "área muito específica e, no conjunto, não muito visível". São capas de livros, desenhos que acompanham escritores. "Normalmente, cada desenho está na sua obra. Agora estão juntos. É um pouco como nós, que no metro estamos em trânsito por percursos que não iríamos seguir à superfície."

O convite da MOP, que explora os espaços publicitários no Metropolitano de Lisboa, surgiu aquando do livro "Subway Life". "Mas as linhas finas sobre fundo branco com personagens dispersas nunca iria funcionar", explica o seu criador, que assim pensou neste plano B. "O metro é um sítio muito volátil. O que normalmente ocupa este espaço é publicidade, é uma comunicação muito dura e que grita muito forte 'olhem para mim, olhem para mim'. O metro não é sítio para subtilezas. É um sítio duro, desse ponto de vista. Nunca iria ter a pretensão de ter a atenção de maior parte das pessoas, a não ser talvez se pusesse aqui imagens de raparigas com menos de 25 anos, nuas. Aí talvez conseguisse. Mas, exceptuando essas batotas, nunca conseguiria sonhar com a atenção das pessoas."

Batotas à parte, também a crise parece fruto do destino. "Acredito que, embora este convite já tenha quatro, cinco anos, esta possibilidade se manteve muito por causa da crise. Há possibilidades que se abrem. E eu quis aproveitar esta. Quero acreditar que é uma janela que se abriu para outras pessoas."

"Este espaço é o contrário de uma galeria, onde todo o contexto é trabalhado para a pessoa entrar e focar-se na arte. Aqui, o que eu acho interessante é o exercício de convivência da arte com a comunidade. As galerias tratam-nos e à nossa arte como crianças: trazem-nos ao colo. São circunstâncias privilegiadas para se contactar com os objectos artísticos, mas também fazem falta sítios como este. Na idade média a arte estava nos vitrais das igrejas, onde toda a gente ia. E as esculturas estavam nas praças e espaços públicos onde todas as pessoas passavam. A actividade artística não deve estar só em auditórios, em salas ou em museus e galerias, que são espaços restritos. Isso vai criar uma espécie de guetos ou de reservas."