Aguinaldo C. Vera-Cruz/Rugby Photo Store
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Aguinaldo C. Vera-Cruz/Rugby Photo Store

Megafone

Balde d'água gelada

Perdido o jogo com a Espanha, perdidos dois lugares no ranking do IRB, perdida a confiança que ligava adeptos e equipa, o que se pode fazer?

Ainda sinto arrepios! Com 18-6 ao intervalo e 21-6 logo no início da segunda-parte tudo parecia ter o caminho único da vitória. Mas o caminho, numa espécie de castigo da mistura de deslumbramento com desfoque dos objectivos essenciais - a quem ninguém soube pôr termo - mostrou-se agreste e terminou em derrota.

Como foi possível? Como foi possível tornar um jogo ganho - ao intervalo o pensamento na bancada era que a diferença das duas equipas se iria traduzir em cerca de trinta pontos finais - numa derrota, numa desilusão… e afinal o último jogo de António Aguilar e João Correia ficará - espero mesmo que fique! - na memória, mas pelas piores razões: perder um jogo que estava ganho!

O que se terá passado?

Entre outras, esquecimento de coisas elementares: de que uma competição de alto rendimento tem regras inalteráveis, que o diabo está nos pormenores, que num desporto de combate não há adversários meio enterrados e apenas mal enterrados, que uma vitória desportiva só existe quando o árbitro termina o jogo, num conjunto de elementaridades a conhecer e a utilizar. E que uma equipa é mais, tem que ser mais, do que a soma dos seus membros.

É verdade que - não matando, mas moendo - a expulsão (acertada) de Kevin da Costa obrigou a selecção portuguesa a jogar durante uma hora, contra a meia-hora da mesma situação para a Espanha, com 14 jogadores. Mas mesmo assim, não existiam dúvidas: a selecção espanhola não tinha capacidades para a portuguesa.

E durante quase uma hora foi assim, os portugueses dominaram, jogaram como queriam, marcaram e colocaram-se a 15 (quinze!) pontos da Espanha. E num repente, com a saída por lesão de Julien Bardy aos 50', Portugal deixa de jogar e entrega os trunfos todos à Espanha (ver estatística no XV contra XV).

Vivíamos das rupturas de Bardy - de que resultaram os dois ensaios - provavelmente também do seu comando e exemplo na linha defensiva. A sua saída atirou-nos para aquilo que não percebíamos que estava a acontecer - que éramos uma equipa desarticulada, sem norte e sem cola. Deslaçada. Num repente, os espanhóis perceberam isso, que os estávamos a deixar respirar.

Veja-se como: pontapé de penalidade dentro do nosso meio-campo - o treinador através do director de equipa gritou: “palos! palos!”. Os jogadores espanhóis ignoraram-no, chutaram para fora, alinhamento, maul dinâmico e ensaio de penalidade. De um possível 21-9 passaram a um real 21-13. E começaram a viragem... Por um desrespeito feito de orgulho. De recusa na entrega.

Esqueceu-se a equipa portuguesa que há uma exigência de tenacidade, como terá acontecido na Batalha Real que gostámos de citar, que transforma os momentos de possíveis em reais. Perdido o jogo, perdidos dois lugares no ranking do IRB, perdida a confiança que ligava adeptos e equipa, o que se pode fazer? O que se deve fazer?

Rever o que foi feito durante a época, o que foi feito para e em cada jogo, que atitude houve antes, durante e depois de cada jogo. De que força era feita a procura da vitória. E, claro, ver e rever cada jogo para retirar de cada um os erros, tornando-os em lições transformadoras.

E, naturalmente, pensar e repensar estrategicamente a nossa organização rugbística num quadro em que os nossos adversários directos se profissionalizam e elevam o seu nível competitivo. Sendo, em Portugal, a profissionalização uma enorme dificuldade pelas parcas receitas possíveis - lembre-se as falhadas tentativas das ligas profissionais de basquetebol e andebol - outras soluções têm que ser encontradas para nos conseguirmos manter num bom nível de competição desportiva internacional.

Para o que será também necessário encontrar formas organizativas que articulem actividades desportivas de alto rendimento com actividade escolar e enquadramento de carreira profissional pós-competição. Ou seja, que o sistema desportivo de alto rendimento, articulando estruturas e instituições, proporcione a vida de atletas necessária à superação desportiva com garantia de futuro pós-competição.