Casa de papel

A mulher sagrada

A Pilar del Río é uma mulher sagrada. Vários amigos perguntam-me pelos seus amores, admiram-na à distância cheios de encanto e receio. Todas as mulheres intimidam os fracos. Algumas intimidam os fortes. Raríssimas intimidam heróis. A Pilar é desta última espécie.

Alguns amigos apaixonam-se por ela sem coragem para se medirem com a sua inteligência, beleza ou elegância. Guardam-na na terra dos sonhos ou nesse lugar meio desligado da realidade onde estão as figuras do cinema e das capas das revistas estrangeiras.

Sacralizamos as pessoas pelo que simbolizam. A Pilar é a memória viva de um dos homens mais importantes de sempre da nossa cultura mas é, sobretudo, um ser humano cidadão, reclamando para si uma identidade sem paralelo. Quando pensamos em como é o mundo, usamos a Pilar para aludir à evolução, à democracia e à liberdade, como um nome que pode sumariar os nomes de mulheres e homens que, por toda a história, esperaram por um respeito maior.

Eu compreendo bem a ansiedade ao pé da Pilar. Também fico ainda atrapalhado, autoconsciente, a querer ser mais inteligente, ter melhores palavras, mais cabelo, menos barriga, a camisa bem passada, estar mais perfumado. Compreendo a ansiedade e leio as entrevistas que a Pilar dá, que são invariavelmente lições de grande conversa em que efectivamente muito do que acreditamos pode mudar.

Que segurança pode ter um tipo perante uma mulher capaz de o mudar? E, ao mesmo tempo, haverá maior fortuna do que a de encontrar uma mulher que nos fascine o bastante para que corrijamos tudo e sejamos melhores?

Gostar de alguém é sempre queremos ser melhor. Isso é basilar. A questão está em saber se melhoramos o suficiente para resistirmos quando comparados com a mulher em causa.

Uma e outra vez, quando me perguntam se sei da Pilar, se há algum homem novo na sua vida, porque o tempo vai passando e ela é uma mulher muito nova e tão impressionante e a vida é recomeçar a cada dia, eu respondo que aguardo notícias. Pareço aguardar novidades acerca de algum cavaleiro educado que resgate uma donzela da sua torre, do seu altar, da extrema virtude ou da saudade infinita. Faço contos antigos de embalar. Gosto disso. Penso em cavaleiros muito corajosos que tenham valor humano bastante para derrubar todas as barreiras.

Encontro homens e mulheres que pensam na Pilar assim, como impecavelmente sentada, quieta, profunda, no centro de uma sala limpa, infinita, luminosa, branca, para adoração. Uma mulher sagrada, de facto. Que é o mesmo que dizer consumada, definida, completa, absoluta. Deve ser o mais perto do perfeito que possamos conceber e deve ser por isso, sem dúvida, que nos assusta. É uma demasia. Ao menos durante um tempo, enquanto estiver sozinha, a Pilar é uma demasia. Precisará da sua e da coragem de um grande homem para regressar à perdida e puramente humana condição.

Todas as viúvas de grandes homens que conheci trazem uma companhia invisível. Poucas são as que souberam afastar essa dimensão quase fantasmática de sobreviverem àqueles que acompanharam anos a fio. Essa companhia invisível somos nós que a percebemos. Manifesta-se na ansiedade que guardamos de que ainda nos tragam algo novo, nunca ouvido, não sabido, de quem já não está. A admiração por alguém que morreu resulta também na expectativa de que os seus sejam ainda uma sua emanação. E são. Mas isso não pode esgotar todo o seu propósito. Isso não pode esgotar quem sobreviveu.

Lembro-me de entrar na casa de Ângela de Oliveira, viúva de Carlos de Oliveira e de ela falar do Carlos como se fosse um Carlos gente, gente como a gente. Alguém. De cada vez que dizia o seu nome, eu achava que ele podia surgir de uma porta. A normalidade do seu nome na boca daquela senhora fazia com que ele estivesse presente. Era arrepiante e lindo. Bebemos água. Até a água me pareceu mexer sem que lhe tocássemos.

A Pilar diz José. O José está por ali. Sabemos bem disso. Mas Saramago não ia em conventos. E o amor é mutante. Não se perde. Imagina-se de outra forma.