Estudo mostra que 24% das portuguesas foram vítimas de violência

Percentagem está abaixo dos 33% da média europeia. Ao mesmo tempo, 30% das portuguesas disseram desconhecer a existência de leis de protecção às vítimas

Comunidades têm diferentes percepções do que é a violência doméstica
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Comunidades têm diferentes percepções do que é a violência doméstica Paulo Pimenta

Quase um quarto das mulheres portuguesas já foi vítima de violência física ou sexual infligida pelos respectivos parceiros. A percentagem de respostas positivas (24%) fica abaixo da média europeia (33%), segundo o inquérito à escala europeia apresentado esta terça-feira pela Agência para os Direitos Fundamentais da União Europeia (EU). Trata-se do maior estudo sobre violência de género alguma vez realizado e é baseado em 42 mil entrevistas a mulheres de 28 Estados-membros.

Quando a pergunta muda para se alguma vez experienciou violência física perpetrada por um não parceiro, 10% das portuguesas inquiridas neste inquérito respondem que sim, contra uma média europeia de 20%. A diferença reduz-se quando a questão é sobre a violência psicológica exercida pelos parceiros: 36% das portuguesas respondem que sim, contra uma média europeia de 43%.

Apesar disso, é maior a percentagem de portuguesas que classifica a violência contra mulheres como muito comum: 60% das portuguesas responderam “sim”, ao mesmo tempo que na média europeia a percentagem desce para os 27%. Logo a seguir, 33% das portuguesas classificaram o problema como “bastante comum”, contra 51% da média europeia.

Questionadas sobre se conhecem alguém, no seu círculo familiar ou de amigos, que já foi vítima de algum tipo de violência, 37% das portuguesas responderem que sim (na média europeia, a percentagem de respostas positivas subiu para os 39%). Quando questionadas sobre se consideram que os médicos deviam perguntar às doentes se os ferimentos que apresentam foram provocados por comportamentos violentos, 97% das portuguesas responderam que sim, contra 87% da média europeia.

Segundo o estudo, 30% das portuguesas ignoram a existência de leis que protegem as mulheres vítimas de violência doméstica, ao mesmo tempo que 34% não sabem que há leis e políticas nacionais de prevenção. Por outro lado, as campanhas contra a violência doméstica são conhecidas por 70% das portuguesas, ou seja, mais do que a média europeia (50%).

Em termos globais, a violência de género na União Europeia assume contornos "chocantes", segundo os responsáveis pelo estudo, citados pela agência Lusa, nomeadamente porque uma em cada três mulheres da UE foi vítima de pelo menos um episódio de abuso sexual, físico ou psicológico. E, nos 12 meses anteriores à realização do estudo, 3,7 milhões de mulheres sofreram violência sexual e 13 milhões foram alvo de violência física.

O estudo sublinha por isso a necessidade de formar os profissionais de saúde “para saberem ler os sinais", já que a "grande maioria" das mulheres recorre aos serviços de saúde quando querem denunciar um caso de maus-tratos. 

Em Portugal, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) divulgou recentemente dados sobre as queixas recebidas em 2013 concluindo que a crise está fazer baixar o número de pedidos de apoio e, por outro lado, a dificultar a resposta às vítimas. “As pessoas aparecem não só com o problema da vitimação mas com uma série de problemas relacionados, como a necessidade de casa, emprego, alimentação e saúde. E, com a crise, os técnicos têm muita mais dificuldade em responder a essas necessidades”, adiantou ao PÚBLICO José Duque, da APAV.

Em 2013, esta associação apoiou menos 212 vítimas directas de crime (8.733, contra as 8.945 de 2012). É uma descida que contrasta com as consecutivas subidas verificadas nos últimos anos. Por outro lado, apesar do menor número de pedidos de ajuda, foram necessários mais 14.475 episódios de atendimento para garantir o respectivo encaminhamento: 37.222 atendimentos em 2013, contra os 22.747 do ano anterior. “E os resultados são muito menos evidentes. Os técnicos têm muita mais dificuldade em conseguir emprego e mudança de casa, e às vezes de cidade, para uma vítima de violência conjugal, por exemplo”, acentuou José Duque.

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