A invasão da Crimeia já começou e tem o selo de Ianukovich

Vieram de mansinho. Cercaram as bases, exigiram a rendição. À noite, os soldados russos chegaram em força vindos de ferry. Na ONU, foi dado o toque final, com uma carta do Presidente deposto.

Pessoal militar, que se pensa ser russo, na Crimeia
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Pessoal militar, que se pensa ser russo, na Crimeia Baz Ratner/REUTERS

Quando surgiu a notícia do ultimato russo a todas as unidades militares ucranianas da Crimeia para se renderem até às 5h00 da manhã de hoje, já a base de Bachchisarai estava cercada por dezenas de soldados de uma força especial russa, ainda que relutantes em identificar-se como tal.

Aconteceu o mesmo onde quer que houvesse uma base ucraniana: tropas russas chegaram, fortemente armadas, e tentaram uma rendição, antes de o embaixador da Rússia nas Nações Unidas lançar a verdadeira bomba, à noite, em Nova Iorque, no Conselho de Segurança, ao revelar uma carta do Presidente ucraniano deposto, Viktor Ianukovich, a apelar a uma intervenção russa para repor a lei e a ordem na Ucrânia. Não se sabe em quantos casos terão sido bem-sucedidas, mas está confirmado que camiões com soldados russos estão a entrar na península de ferry boat, através do estreito de Kerch, desde a princípio da noite de ontem. De forma pacífica ou violenta, tudo indica que a invasão estará consumada hoje de manhã.

“Nós queremos apenas proteger a base”, disse ao PÚBLICO um dos “russos” que cercava a base de Bachchisarai, envergando camuflado verde blindado, capacete e uma metralhadora. “Está em curso uma negociação.”

A base é um edifício longo, de um só piso, muito velho e decrépito. Está instalada junto à estrada, rodeada por casas de habitação, uma sucata, uma escola. Pelo menos quatro camiões de transporte de tropas estavam estacionados nas ruas que ladeiam a base. Os soldados, esses dispunham-se em posição de cerco, em grupos de cinco ou seis, a toda a volta do edifício. Estavam armados com armas automáticas ligeiras, metralhadoras pesadas, com tripé, lança-granadas RPG. Algumas das metralhadoras estavam apontadas à base, embora a atitude geral fosse surpreendentemente relaxada.

“Ontem, o comandante russo exigiu a nossa rendição, que não foi aceite pelo comandante da base”, disse ao PÚBLICO Karim, que trabalha nas instalações, nos serviços de logística. Está cá fora porque decidiu ir dormir a casa e não voltar, como sugeriu o comandante. O coronel Serguei Stashenko, que comanda a base de Bachchisarai, falou às suas tropas depois da chegada dos russos, no domingo. Ele não se renderia, o que poderia ter consequências. Quem quisesse era livre de sair e não voltar à base. Karim não sabe quantos o fizeram. E não quer dizer quantas pessoas estão no interior.

Cooperar com forças amigas
Num tom conciliatório, e sem querer obrigar os ucranianos a traírem a sua cadeia de comando, o chefe russo terá sugerido que os soldados depusessem as armas e as guardassem em depósitos que ficariam entregues aos russos. Não seria uma rendição, mas apenas um acto de cooperação com estas forças amigas, para garantir que as armas não vão cair nas mãos de provocadores fascistas. Isto foi o que relatou Karim, e de certa forma foi confirmado pelo soldado russo com quem falámos. “Estamos aqui para defender a base de algum ataque”, disse este.

Mesmo com estas nuances, Stashenko manteve a teimosia patriótica, pelo que se considerou útil chamar um padre. O sacerdote ortodoxo chegou à tarde e foi levado para o interior da base. Não se sabe o que conseguiu.

Cá fora, soldados russos iam às compras à loja da estação de autocarro, como se se preparassem para uma longa espera. Alguns conversavam com grupos de raparigas da zona, outros brincavam com as crianças no parque infantil da escola contígua. Algumas mulheres tentaram entrar na base para falar e entregar comida aos maridos e namorados, mas não lhes foi permitido. Não era visível qualquer movimento no interior, embora se pudesse ouvir perfeitamente, vinda de lá, uma música tradicional tártara.

A maioria da população é de etnia tártara em Bachchisarai, cidade que foi no passado a capital do canato tártaro da Crimeia, o reino mais poderoso da região até ao século XVIII. Por essa razão, e porque uma grande parte do pessoal da base pertence a esse grupo étnico-linguístico que tem boas razões históricas para detestar os russos, há quem tenha maus pressentimentos quanto ao que se vai passar aqui.

O ultimato lançado pelo comandante da Frota russa do Mar Negro, general Aleksander Vitko, foi depois desmentido pelo Ministério da Defesa em Moscovo, que o classificou como “completo absurdo”. E portanto não é certo se esta manhã todas as bases que não se renderem serão atacadas.

A carta de Ianukovich, da qual o embaixador Vitali Churki distribuiu uma cópia no Conselho de Segurança, dizia que "os direitos dos habitantes da Crimeia estão a ser postos em causa". Assumindo-se como um "representante legitimamente eleito", afirma "que os acontecimentos em Kiev deixaram a Ucrânia à beira de uma guerra civil", que "há actos de violência e de terrorismo, cometidos sob a influência de países ocidentais". Por isso, embora na semana passada tenha garantido que nunca iria aceitar “qualquer tentativa de intervenção que quebre a integridade territorial do país”, pedia a Putin que enviasse as suas tropas. 

Quase ao mesmo tempo, guardas fronteiriços ucranianos davam o alerta de que no estreito de Kerch os ferries que fazem a travessia de cerca de cinco quilómetros entre a Rússia e a Crimeia estavam a ser carregados com camiões cheios de soldados russos. O terminal de ferries, do lado ucraniano, já tinha sido ocupado por forças russas desde domingo, e sabia-se que, do outro lado do estreito que separa as penínsulas da Crimeia e de Taman, se concentravam veículos e tropas.

Ontem ao fim do dia os blindados começam a deslizar nas águas que ligam o mar Negro e o mar de Azov como térmitas em folhas de nenúfar. A invasão é imparável e irreversível.